Rúben Amorim entra a vencer, mas ficou evidente que não faz milagres

O Desp, Aves, com nove jogadores desde os 20 minutos, foi adiando os golos do Sporting, que voltou a ser uma equipa com muitas debilidades. Foi preciso mais de uma hora de jogo para o leão abrir o marcador e chegar a um triunfo por 2-0.

Rúben Amorim não é milagreiro. Foi o próprio que o disse na cerimónia de apresentação como treinador do Sporting, e o jogo deste domingo, em Alvalade, confirmou-o em absoluto, pois os leões voltaram a demonstrar todas as fraquezas que têm sido evidentes ao longo da temporada, razão pela qual só conseguiram vencer, por 2-0, o último classificado Desp. Aves, reduzido a nove jogadores desde os 20 minutos, e com os dois golos marcados depois de uma hora de jogo.

Foi bastante cinzenta a estreia pelo Sporting daquele que é o terceiro treinador mais caro da história do futebol (dez milhões de euros), que manteve a matriz de jogo que o caracterizou nestes primeiros jogos como treinador principal e com a qual fez sensação em pouco mais de dois meses ao serviço do Sp. Braga. Uma defesa de três centrais, por onde começa toda a construção de jogo da equipa, um médio mais posicional e outro de transição, laterais ofensivos e um trio atacante com mobilidade.

Era assim que devia funcionar no papel, mas faltaram as dinâmicas, o que é bastante compreensível tendo em conta os escassos dias de trabalho de Rúben Amorim com os seus jogadores. No entanto, foi notório que este é um sistema tático que precisa de muito trabalho para que comece a dar resultados, e na verdade o Sporting não se tem dado nada bem com ele. Marcel Keizer e Jorge Silas utilizaram-no várias vezes e acabaram por abandoná-lo, tão débeis resultados deu.

Duas expulsões em 20 minutos traçam destino do Aves

E quando os leões têm pela frente uma equipa com as linhas muito juntas, agressiva nos duelos e preocupada sobretudo em defender a sua baliza, como foi o caso do Desp. Aves, os problemas aumentam bastante. Nuno Manta Santos apresentou-se também com três centrais e um meio-campo muito povoado, que procurava emperrar a troca de bola dos jogadores adversários. E assim foi, até porque o futebol do Sporting era lento e previsível, o que facilitava as marcações do Desp. Aves.

Logo aos 11 minutos, Rúben Macedo foi expulso por uma entrada duríssima sobre Gonzalo Plata. Um lance contestado pelos avenses, nomeadamente por Luiz Fernando, que viu o cartão amarelo. O Sporting parecia ter a partir daquele momento a missão facilitada, contudo foi Mato Milos a estar perto de abrir o marcador, tendo falhado o remate após uma saída desastrada do guarda-redes Luís Maximiano. Os assobios em Alvalade - uma constante nos últimos tempos - faziam-se ouvir.

Só que pouco depois Luiz Fernando travou um contra-ataque de Wendel e, como é lógico, recebeu o segundo amarelo e deixou a sua equipa reduzida a nove jogadores. O Aves fazia um autêntico haraquíri no jogo e a partir daquele momento não restava outra alternativa senão pôr toda a equipa à frente da baliza defendida por Beunardeau.

Ristovski reage mal à substituição

A jogar em superioridade numérica, Rúben Amorim optou então por tirar Ristovski para colocar uma unidade mais ofensiva, Rafael Camacho, mantendo os três centrais. Uma opção natural, mas que teve uma reação disparatada do lateral macedónio, que abriu os braços questionando a decisão do treinador, acabando por abandonar o relvado diretamente para o balneário.

Os problemas do Sporting no jogo mantiveram-se, com uma lentidão de levar os adeptos ao desespero, uma vez que os jogadores do Aves não davam espaço e os leões optavam invariavelmente por cruzamentos ou bolas bombeadas. Só por uma vez conseguiu entrar pelo meio da defesa adversária, mas o remate de Sporar, após entendimento com Wendel, saiu torto.

Depois disso, foi só em cima do intervalo que a equipa de Rúben Amorim criou duas verdadeiras oportunidades para marcar, que surgiram devido ao entusiasmo dos avenses, que saíram para o ataque e deixaram as costas a descoberto, permitindo um contra-ataque ao Sporting que Vietto concluiu com um remate à barra.

Ao intervalo, Rúben Amorim deixou na cabina Mathieu, que regressava após lesão, e pôs a jogar Francisco Geraldes, fazendo baixar Battaglia para terceiro central e derivando Acuña para o centro do terreno deixando a ala esquerda entregue a Gonzalo Plata. O objetivo era óbvio: era preciso dar mais critério, capacidade de passe e criatividade para furar a defesa contrária.

O Desp. Aves, que demorou mais de dez minutos a regressar dos balneários, manteve uma estrutura de 5x3x0. Era preciso proteger ainda mais a baliza, enervar o Sporting e tentar salvar um pontinho precioso na luta pela manutenção.

Leão dá largura ao jogo para chegar ao golo

O Sporting melhorou um pouco a sua produção, sobretudo porque passou a variar o seu jogo a toda a largura do terreno, com alas bem abertos, para que os avenses começassem a abrir espaços. Contudo, a velocidade com que jogava não era muita e os jogadores não conseguiam encontrar um envolvimento que lhes permitisse colocar com regularidade a bola na área em boas condições para finalizar.

A exceção surgiu aos 62 minutos, quando Acuña, de forma rápida (uma raridade), conseguiu encontrar uma linha de passe para Wendel, que apareceu solto na esquerda para cruzar a bola para a cabeça de Sporar. O esloveno fazia o seu terceiro golo com a camisola do Sporting (todos em Alvalade) e desbloqueava um jogo que já estava a ser embaraçoso para a equipa.

Não demorou muito até que chegasse o golo que confirmaria o primeiro triunfo de Rúben Amorim no Sporting e o seu 10.º como treinador na I Liga. Afonso Figueiredo desviou com o braço um cruzamento de Jovane Cabral e, na conversão do penálti, Luciano Vietto voltou a bater Beunardeau.

A partir daí os leões geriram o resultado, perante um Desp. Aves que não mudou a sua forma de jogar, pois se o fizesse corria o risco de ser goleado.

Com esta derrota, só um milagre fará Nuno Manta Santos evitar a descida de divisão dos avenses.

Quanto a Rúben Amorim, precisa de muitas horas de trabalho para que a sua ideia e o seu sistema de jogo criem raízes e deem resultados neste Sporting. Para já, mantém-se a quatro pontos do terceiro lugar, ocupado pelo Sp. Braga.

A figura: Marcos Acuña

O argentino é uma espécie de utilitário nesta equipa do Sporting. Começou o jogo como lateral esquerdo, para dar profundidade ao ataque, na segunda parte passou para o centro do terreno e não mostrou má cara, antes pelo contrário. A sua garra e a vontade de dar a volta aos acontecimentos permitiram-lhe ser importante numa fase do jogo em que o empate começava a ser embaraçoso. O passe que fez a descobrir Wendel é daqueles que normalmente não são destacados nos resumos televisivos, mas foi o exemplo daquilo que o Sporting devia ter feito durante todo o jogo, pois apanhou a defesa contrária em contrapé. E dali resultou o golo que desbloqueou a partida.

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FICHA DO JOGO

Estádio José Alvalade, em Lisboa
Árbitro: Manuel Oliveira (Porto)

Sporting - Luís Maximiano; Tiago Ilori, Coates, Mathieu (Francisco Geraldes, 46'); Ristovski (Jovane Cabral, 25'), Battaglia, Wendel, Marcos Acuña (Rosier, 78'); Gonzalo Plata, Sporar, Luciano Vietto
Treinador: Rúben Amorim

Desp. Aves - Beunardeau; Mato Milos, Oumar Diakhité, Jonathan Buatu, Ricardo Mangas, Afonso Figueiredo (Kevin Yamga, 76'); Rúben Oliveira, Estrela (Aaron Tshibola, 85'), Luiz Fernando; Rúben Macedo, Welinton Júnior (Zidane Banjaqui, 54')
Treinador: Nuno Manta Santos

Cartão amarelo a Luiz Fernando (12' e 20'), Francisco Geraldes (88'). Cartão vermelho a Rúben Macedo (11'), Luiz Fernando (20')

Golos: 1-0, Sporar (62'); 2-0, Vietto (68' gp)

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