Livraria Solidária de Carnide. "Não vendemos livros usados, vendemos livros já lidos"

Criada há três anos, a livraria vive de doações de particulares (e algumas editoras) e vende os livros a preços simbólicos. Lucros revertem para o desenvolvimento de projetos culturais da Associação Boutique da Cultura, como peças de teatro infantil ou leituras encenadas.

Elsa Araújo Rodrigues

Visto da rua, o contentor cinzento com letras amarelas parece um auditório temporário e quem não sabe, pode não se dar conta de que ali também se vendem livros.

Lá dentro, instalada no espaço da Associação Boutique da Cultura (na Av. do Colégio Militar, perto do Colombo), está a Livraria Solidária de Carnide - onde os preços oscilam entre um e cinco euros. Todos os livros estão dentro destes valores - do best-seller internacional O Código Da Vinci, de Dan Brown, ao sucesso de vendas a nível nacional Bilhete de Identidade, o livro de memórias de Maria Filomena Mónica.

Desde que foi criada, há três anos, que as vendas da livraria não param de crescer. Para o presidente da associação, Paulo Quaresma, o segredo do sucesso está nas doações. "No início do projeto tínhamos muitas dúvidas se teríamos tantas doações quanto isso e fomos muito surpreendidos", afirma.

A livraria vive de ofertas de particulares (e algumas de editoras), o que possibilita a quem tem livros em casa desfazer-se deles sem ter de os pôr na reciclagem, e permite a outras pessoas comprá-los a preços acessíveis. A livraria aceita todo o tipo de livros em português excepto manuais escolares, livros técnicos, dicionários e enciclopédias.

"Apelamos a que as pessoas façam doações de livros e com eles abrimos uma livraria. Esses livros são todos colocados à venda a preços muito apelativos", descreve Paulo Quaresma ao DN.

As receitas das vendas revertem para a Boutique da Cultura e são canalizadas para a "criação de postos de trabalho para jovens" que trabalham na própria livraria ou na produção e desenvolvimento de projetos culturais da associação.

"Muitas das peças que levamos à cena, a edição de livros, as obras de adaptação dos nossos espaços culturais - tudo isso é resultado da venda destes livros", enumera Paulo Quaresma.

"As nossas expectativas para esta livraria foram superadas. Há mais de seis meses que não fazemos campanhas para doação de livros. E todos os dias, mesmo durante os períodos de confinamento, as pessoas contactam-nos porque têm livros e querem doá-los", explica o antigo presidente da Junta de Freguesia de Carnide.

Dar nova vida aos livros

Paulo Quaresma conhece bem esta zona de Lisboa e foi na freguesia que dirigiu entre 2002 e 2013 que começou o projeto de leituras encenadas Boa Noite, há oito anos. No início, era "um grupo informal que fazia uns espetáculos" e à medida que foi ganhando dimensão fez sentido constituir uma associação, explica o ex-autarca.

"Tínhamos um conjunto de pessoas que gostava desta questão do livro e da leitura e pensámos na quantidade de livros que todos os anos são deitados ao lixo", descreve. "O mote disto era dar uma nova vida aos livros" e, ao mesmo tempo, contribuir "para ajudar a democratizar o acesso ao livro".

Os livros são mais baratos que numa livraria tradicional mas nem por isso têm menos valor para quem os compra. Todas as doações são avaliadas e analisadas de forma exaustiva para garantir que os livros postos à venda "têm qualidade", assegura o diretor artístico da associação.

"É feita uma triagem para perceber os livros que têm qualidade. Alguns vêem rasgados, danificados, outros escritos. Esses vão para reciclagem ou para outros projetos que temos onde conseguimos dar uma nova vida ao papel", descreve João Borges de Oliveira. Só os livros em bom estado são catalogados "para ficarem disponíveis online para os nossos utilizadores e aqui, para quem nos visita, quando temos a loja aberta."

João Borges de Oliveira é o diretor artístico da Boutique da Cultura, onde funciona a livraria.© Bruno Lisita/Global Imagens

Para João, esta separação dos livros é outro dos fatores por detrás do sucesso da livraria. "Os clientes que nos visitam pela primeira vez, quando entram, dizem: não cheira a livro usado. Porque o livro usado tem sempre aquele cheiro característico" - e os livros que colocam à venda nas estantes feitas com caixotes velhos de fruta não têm.

"Nós não vendemos livros usados, vendemos livros já lidos", reforça Paulo Quaresma.

Catálogo de oito mil livros

Entre exemplares já lidos, manuseados e "quase novos" têm aproximadamente "oito mil livros disponíveis em catálogo", refere João Borges de Oliveira. O número cresce nos dias de catalogação das doações, e apesar das vendas terem subido, o catálogo têm-se mantido estável. Tudo porque os livros não pararam de chegar, mesmo quando a livraria esteve fechada devido ao estado de emergência e ao dever de confinamento. Desde o início da pandemia, o número de pessoas a telefonar e a agendar entregas multiplicou-se.

"Durante este período de pandemia, o número de doações aumentou significativamente", reconhece João, avançando com uma explicação. "As pessoas estão em casa e começaram a mexer nos seus livros e a fazer uma triagem do que é ou não é importante."

Há muitos filhos que "herdam" os livros dos pais e acabam por doá-los à Boutique da Cultura. Alguns são muito antigos, exemplares únicos ou edições raras e valiosas. Quando recebe um desses livros, a associação entra em contato com alfarrabistas que os compram. "Já recebemos livros que estão neste momento à venda no mercado a 250, 300 euros", refere João Borges de Oliveira.

O baixo preço dos livros é possível graças às doações.© Bruno Lisita/Global Imagens

Todos os livros relacionados com teatro que chegam através de doações, não são colocados à venda. É um tema que "faz parte da génese da Boutique da Cultura" e com esses "vamos criando uma biblioteca nossa", afirma.

Outro aspeto curioso das doações tem a ver com aquilo que encontram entre as folhas dos livros: fotografias com dedicatórias, bilhetes de espectáculos, cartas de amor e muitas outras coisas com as quais um dia o diretor artístico da associação pensa montar uma exposição. Para além destes "objetos" há livros que chegam com inscrições e dedicatórias. "No outro dia encontrei um livro autografado pela Amália Rodrigues", relembra.

Os autores portugueses que "não aquecem as estantes"

Durante os períodos em que a livraria esteve fechada, o trabalho "nos bastidores" não parou. No início, o catálogo estava "condensado numa folha Excel" que podia ser consultada por todos os que visitavam o site da Boutique da Cultura - uma "forma muito rudimentar de disponibilizar a informação a quem queria comprar os nossos livros através da internet", reconhece João Borges de Oliveira. Com o aumento das solicitações, a livraria teve que adaptar a sua loja online. O site foi reformulado em tempo recorde - graças à ajuda de uma empresa que o fez de forma gratuita - e a lista de livros passou a poder ser consultada através de uma simples pesquisa pelo nome do autor, por exemplo.

"Não estávamos à espera deste aumento de vendas tão significativo a nível online. Até porque estamos a falar na sua maioria de livros já lidos e há sempre um tipo de público que não gosta muito", admite. E quais são os livros "em segunda mão" mais procurados? João Borges de Oliveira destaca dois autores portugueses. "O José Saramago mal chega, sai. Por isso nem sequer aquece o lugar na estante... E também o José Rodrigues dos Santos." De entre os livros de literatura estrangeira, os romances também costumam ficar pouco tempo no catálogo.

"Muitas das vezes ainda os nossos voluntários ou estagiários os estão a arrumar nas estantes e já alguém está a dizer: já recebemos a encomenda, não arrumes porque vai já embora," conclui a sorrir.

elsa.rodrigues@vdigital.pt