A urgência de aumentar os profissionais de saúde e reformar o Estado

Os atrasos nos pagamentos do lay-off, em parte por sobrecarga nos serviços da Segurança Social, provam que há muito a fazer e que o país continua a precisar de um plano para a digitalização e a modernização da máquina do Estado, pensado de forma estratégica e não meramente operacional. Em situações como a que vivemos, de pandemia, os serviços públicos têm de ser eficazes e exemplares. Na saúde, na Segurança Social ou na economia, os profissionais têm dado o seu melhor. Mas a máquina tem de ser ágil.

O Serviço Nacional de Saúde, em particular, tem sido justamente elogiado pela forma como tem respondido à crise, mas, como se diz em bom português, "sai-lhe do pelo". O sucesso tem sido por mérito próprio, ou seja, pelo gigantesco esforço dos profissionais de saúde, que encaram salvar os outros como uma missão desinteressada.

Por isso, muitos portugueses ficaram chocados com as declarações da ministra da Saúde quando, numa recente entrevista televisiva, e por outras palavras, deu a entender que não dará nem mais um euro para médicos, enfermeiros ou auxiliares de saúde. Incompreensível. Eles são os heróis que conseguem fazer o tal "milagre" português, são os que estão na linha da frente, a quem batemos palmas e a quem o governo elogia.

Em vez de estar preocupado em aumentar de forma generalizada a função pública, independentemente de a avaliação de cada trabalhador apurar mérito ou demérito, o governo deveria canalizar, ainda neste ano, os poucos euros disponíveis para estes funcionários incansáveis. Vários trabalham dois turnos de seguida, estão há dois meses sem folgas, prescindem de viver com as famílias, muitos saem desta guerra contagiados, arriscam e dão a vida pela vida dos outros. Se este não é o momento histórico para elogiar e premiar estes profissionais, então quando será?

Para recompensar quem luta pela vida dos portugueses, há poupanças que podem ser feitas nos próximos anos. Por que não começar por manter muitos trabalhadores em teletrabalho, poupando nas despesas correntes dos serviços públicos e ainda reduzindo a pegada carbónica? E, já agora, sem populismos, refletir a sério sobre a redução do número de governantes e de deputados. Os partidos não têm encarado de frente esta discussão. Num momento de uma crise económica de que não há memória, tudo deve ser considerado na construção de um novo normal.

Nas imagens das televisões, dos jornais e dos sites, podemos reparar como aumentam, de dia para dia, as olheiras de meia dúzia de ministros que estão a ser cruciais na gestão da calamidade. Mas há outros de que pouco se sabe e o mesmo relativamente a vários secretários de Estado e staff. E quanto aos deputados, como temos visto, o Parlamento pode funcionar com menos representantes.

Em Portugal, somos cada vez menos, devido à crise demográfica que nos assola e que, infelizmente, não tem feito parte das prioridades da agenda política. O vírus vem agravar a situação. Creio que é hora de voltar a um debate que parece tabu, mas não pode continuar a ser, pela necessidade de reforma do Estado. Na recessão ou na retoma, não devem ser apenas os privados a pagar a fatura. E não há necessidade de novas tensões na sociedade, pois trata-se de equidade, até porque este vírus não olha a classes sociais ou a ideologias.

P.S. - É uma honra voltar a ser convidada pela direção do DN para ser cronista na edição semanal em papel, algo que já acontecia nas edições digitais diárias. Acredito que este jornal centenário tem a força e a resiliência necessárias para ultrapassar tempos difíceis, em que a ação dos jornalistas é, hoje, ainda mais crucial, em Portugal e nas geografias onde se comunica em português.

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