A fé depois da crise…

Como irá viver-se a fé no futuro? Foi a pergunta que o DN fez. O Cardeal-patriarca de Lisboa responde: "Tratando-se de fé cristã, é necessário situá-la na adesão a Cristo, no que integralmente foi e no que realmente fez."

A fé cresce na crise e assim mesmo se prolonga. Desde há 2000 anos que tal acontece, no que ao cristianismo respeita. Nasceu na maior crise que podia ser, com a morte do Fundador. Foi aí que um centurião romano a professou: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus" (Marcos 15, 39). Dois dias depois, mesmo sem ser preciso abrir-lhe a porta, os discípulos reconheceram-no "no meio deles" (João 20, 19). Hoje repetimos também: "Ele está no meio de nós!"

Os cristãos sabem-no e experimentam-no, sobretudo nos momentos difíceis. É esta a sua fé, tão original agora como naqueles primeiros momentos. A interrupção das celebrações comunitárias, imposta pela pandemia, custa-lhes certamente e muito. O encontro eucarístico semanal é o centro de tudo o mais. Quando não pode realizar-se presencialmente, deixa pena e muita vontade de se retomar. Como voltará, ainda com mais força, logo que seja possível. Não acontece agora, para acontecer ainda melhor depois, porque salvaguardámos a saúde de todos.

O encontro retraiu-se para a esfera pessoal e familiar. Aí se tem sentido a verdade do que Jesus também disse: "Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles" (Mateus 18, 20). Tem sido ocasião para as famílias cristãs se redescobrirem como "igrejas doméstica"", rezando em conjunto e seguindo pela televisão e pela internet as celebrações que os seus pastores não deixam de fazer e transmitir.

Não faltam manifestações de fé persistente e até reencontrada, nas partilhas diárias que se fazem. Em muitos lugares e ocasiões, em que os crentes deparam com o Ressuscitado na relação com os outros.

Aliás, noutras paragens, em tempos recuados ou recentes, foi quase só assim que a fé cristã se manteve e transmitiu. Foi o caso dos "cristãos ocultos" no Japão, do século XVII ao XIX. Também dos cristãos da Coreia e do Vietname, na mesma época - dois países onde o cristianismo agora cresce. E, mais proximamente, em várias zonas de África onde a vida sacramental se reduziu ao batismo, porque a guerra não permitiu a presença de sacerdotes... Entre nós, a pandemia e as restrições que traz serão certamente mais breves. Mas, com tudo isto, a crise também pode ser de crescimento.

Não faltam manifestações de fé persistente e até reencontrada, nas partilhas diárias que se fazem. Em muitos lugares e ocasiões, em que os crentes deparam com o Ressuscitado na relação com os outros. Nos contactos possíveis com parentes e vizinhos mais isolados; nos lares de idosos e em muitos serviços públicos e particulares, de bens essenciais e transportes, de saúde e ensino, empresariais e laborais. Valem-lhes sempre as palavras de Jesus. Como quando, depois de reconhecer o serviço prestado aos outros nas várias necessidades de saúde e ajuda, deixou claro: "Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes" (Mateus 25, 40).

Creio, pelo muito que vou sabendo e ouvindo todos os dias neste sentido, que esta experiência tão essencialmente cristã e agora reforçada se repercutirá depois na vida comunitária e sacramental, assim que se possa retomar. Porque é do essencial cristão que se trata e, tal como em Cristo aconteceu, há de continuar a acontecer.

Os cristãos sabem que em todos estes gestos se anuncia a Eucaristia, que é ele mesmo, como se oferece ao Pai e a nós.

Nada de abstrato. É verificar, nos trechos evangélicos onde a alusão eucarística é evidente, como tudo começa pela atenção precisa ao bem dos outros, a partir do que há de mais físico e material. Jesus olha a multidão, compadece-se dela, cura e alimenta quem precisa (cf. Mateus 14, 13 ss). Os cristãos sabem que em todos estes gestos se anuncia a Eucaristia, que é ele mesmo, como se oferece ao Pai e a nós. Anseiam pelo sacramento, como sempre ansiaram. Mas procuram corresponder-lhe em cada momento, servindo realmente os outros, para poderem comungar legitimamente a Cristo. Não é por acaso que o primeiro relato escrito da Eucaristia vem numa carta de Paulo, em que já se exige um comportamento correto e solidário com todos para se poder comungar Cristo com verdade e bom fruto (1 Coríntios 11, 17ss).

Faço estas alusões bíblicas para responder à pergunta: "Como irá viver-se a fé no futuro?" Tratando-se de fé cristã, é necessário situá-la na adesão a Cristo, no que integralmente foi e no que realmente fez. De há 2000 anos para cá, sucedem-se homens e mulheres que sabem que a história de Cristo continua e alarga-se através deles, sobretudo quando é mais urgente salvaguardar as vidas. Não o fazem sem Cristo e sentem-no ainda mais próximo quando repetem os seus gestos e atitudes. É uma comunhão plenamente existencial.

Este tempo difícil tem sido também de muita fé comprovada, nos vários campos onde os discípulos de Cristo estão presentes, com todos os outros homens e mulheres de boa vontade. Quando puderem retomar sem tantas restrições sanitárias o ritmo normal da sua vida comunitária e sacramental, hão de fazê-lo mais fortalecidos com a experiência vivida. Como também escreveu um dos primeiros: "Eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé" (Tiago 2, 18). Terão muito de bom, verdadeiro e belo para compartilhar entre si e com todos. É o seu modo de contribuir para a sociedade mais justa e solidária que não se pode adiar mais.

Cardeal-patriarca de Lisboa

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