Quem teve medo de Paula Rego?

Quando conheci (verdadeiramente) Paula Rego, isto é, quando, em 2013, fui ao estúdio que tem no norte de Londres para acompanhar o presidente e o vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, respetivamente Carlos Carreiras e Miguel Luz, que lá se deslocaram para assinar um novo contrato entre a artista e o município relativo à gestão da Casa das Histórias Paula Rego - no meio de uma (falsa) tempestade provocada por alguns interesses instalados que tinham sido abalados na decorrência da controversa decisão, tomada pelo governo de então, de extinguir a Fundação Paula Rego, não esperava vir a aperceber-me das idiossincrasias da sua personalidade, e a admirá-las, tanto através de não muitos mas intensos contactos com ela, como através das conversas que sobre ela fui mantendo ao longo dos anos com o filho, Nick Willing, que muito estimo.

Como o espaço que me é concedido é frugal, vou direito ao assunto: sobre o talento da pintora, reconhecido por todos em Portugal e no estrangeiro, haverá muito quem fale, com maior ou menor propriedade, com maior ou menor conhecimento de causa, pelo que aquilo que me interessa é apenas (?) salientar aquelas características que, para mim, a tornavam única como mulher, ser humano e artista: num país em que tantas vezes, para mal dos nossos pecados, predomina o compadrio, Paula Rego afirmou-se pelas suas próprias qualidades, sabendo tirar o máximo partido da célebre (e sábia) frase que o pai lhe disse na juventude sobre este nosso país ("Não é para mulheres."), mas o que mais me apraz registar é que, em sociedades (deste ou do outro lado do Canal da Mancha) nas quais se diz pouco a verdade e se pensa pouco o que se diz, a artista dizia sempre o que pensava, porque pensava o que dizia, mesmo quando a ironia permeava, por vontade própria, o discurso, obrigando-nos a decifrá-lo.

Resta-nos honrar a sua memória, entendendo-a, como ela nos entendia a nós, portugueses, qualidade que connosco partilhava orgulhosamente!

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG