Em dias de trabalho, o bicho não pega

"Desaparecem as restrições à circulação concentradas na Área Metropolitana de Lisboa. Elas tiveram como objetivo fundamental a contenção da variante Delta, que neste momento existe em todo o território nacional."

Foi assim que se fez o prelúdio do anúncio de uma certa reanimação da restauração e da hotelaria, em que Mariana Vieira da Silva, promovida por Costa a porta-voz oficial das más notícias do governo, podia até ter sido mais clara. Diria simplesmente: "Sim, foi mais um mês em que não puderam fazer negócio e afinal não serviu para nada." Ou podia ter dito assim: "Lamentamos imenso os sacrifícios que fizeram e o novo descalabro nas vossas contas, mas isto não conteve coisa nenhuma. Foi um teste, correu mal. Paciência!"

Deveria ter acrescentado que o governo vai deixar de ouvir só os arautos da desgraça sanitária porque olhar para o índice de contágios como se nada se soubesse sobre a covid - num momento em que se vacina mais de 150 mil pessoas por dia, o SNS não está minimamente pressionado e as vítimas mortais deste vírus são uma ínfima parte das mais de 300 mortes diárias em Portugal - é no mínimo desadequado. Podia ter assumido que já não faz sentido esta forma de lidar com o coronavírus, como se fosse coisa passageira e não uma doença que já devíamos considerar endémica, mesmo que mantendo algumas precauções enquanto haja gente por vacinar.

Mas ainda não chegámos lá. E até tivemos sorte, que desta vez só se intuiu o habitual responso ao povo mal comportado que somos, culpados de mentir aos serviços e de não aceitar regras que atentam contra os nossos direitos - onde já se viu?!

Agora vamos embarcar noutra experiência, a ver se ainda se consegue atrair alguns estrangeiros entre os poucos que se distraíram e a meio de julho ainda não marcaram férias, e safar qualquer coisa das contas das empresas. Acabam-se as restrições na grande Lisboa, anuncia Mariana Vieira da Silva, feliz com a oportunidade de também dar boas notícias - não pode ser só Marta Temido a ganhar pontos com a partilha de políticas públicas de vacinação no programa da Júlia. Vamos reabrir os fins de semana, declara a porta-voz. Mas só entra quem tem testes ou certificado de vacinação.

Não é mal visto de todo: permite que alguns dos setores mais penalizados - hotelaria e restauração, eventos e cultura -, consigam funcionar e que as pessoas recuperem alguma normalidade nas suas vidas.

Podia, nestes termos, abrir-se toda a atividade que permanece fechada há ano e meio, discotecas e bares incluídos? Podia, mas não era a mesma coisa. Vale mais anunciar uma medida de cada vez, para que a alegria do povo se possa ir renovando - mesmo que isso se faça à custa de milhares de empresas e de empregos, do adiamento da recuperação do país.

Extraordinário é que só ao fim de semana é que se exige comprovativo à entrada. Melhor: como as novas medidas arrancam às 15.30 de sábado, ainda pode ir almoçar livremente, mas para lanchar ou leva teste ou fica à porta. Ou então, volte na segunda-feira e já não tem de mostrar credenciais. Aparentemente, durante a semana o bicho não pega.

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