O que diz a sobrinha de Trump do tio? É um sociopata perigoso

Psicóloga clínica, Mary Trump explica em livro o que levou o atual presidente a tornar-se numa pessoa sem empatia e capaz de tudo para atingir os fins.

Pagou a um estudante para fazer o exame de admissão à universidade no seu lugar; no dia em que o irmão morreu no hospital preferiu ir ao cinema. Estas são duas de várias revelações sobre Donald Trump que constam do livro Too Much and Never Enough: How My Family Created the World's Most Dangerous Man (Demasiado e Nunca Suficiente: Como a Minha Família Criou o Homem Mais Perigoso do Mundo), escrito por Mary L. Trump.

Tal como The Room Where It Happened, do ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, o livro de 240 páginas esteve sob ameaça de não ver a luz do dia. Se no caso de Bolton a Casa Branca alegou motivos relacionados com a segurança nacional, neste foi a família Trump, pela mão de Robert, irmão mais novo de Donald, a queixar-se de que Mary L. Trump violou um acordo de confidencialidade acerca da herança de Fred Trump. Mas quer num caso quer noutro os juízes decidiram pela publicação.

A sobrinha de Donald entrou em conflito com a família Trump quando soube que os tios estavam a tentar impedir que ela e o seu irmão, Fred III, recebessem a sua parte da herança de Fred Trump.

Fonte para o Pulitzer

Durante a luta pela herança foi-lhe dito que os bens do avô valiam 30 milhões de dólares. Mas depois de ter sido contactada por um jornalista do New York Times em 2017, a psicóloga reuniu caixas com documentos financeiros que, segundo ela, mostram que o património valia na realidade mil milhões de dólares. No livro afirma ter sido uma fonte chave para a investigação de 2018 daquele jornal sobre as finanças da família Trump, a qual ganhou um Prémio Pulitzer.

Um dos jornalistas do NYT deu-lhe um telemóvel descartável para comunicarem em segurança e Mary diz ter partilhado 19 caixas com material das finanças da família para cumprir uma missão: " Tinha de derrubar Donald Trump."

A editora, Simon & Schuster, aproveitou o interesse gerado e o número de cópias reservadas (é já o número um na Amazon) para antecipar a data da publicação de dia 28 para a próxima terça-feira.

Os principais meios de comunicação norte-americanos receberam uma cópia e começaram a publicar excertos deste acerto de contas. Porquê o livro e porquê agora? "Donald, seguindo o exemplo do meu avô e com a cumplicidade, silêncio e passividade dos seus irmãos, destruiu o meu pai. Não posso deixar que ele destrua o meu país", escreveu, para depois dizer que a sua (in)ação perante a pandemia do coronavírus é uma "flagrante demonstração de desprezo sociopata pela vida humana", o que, aliado ao espectro de uma depressão económica e as clivagens sociais fizeram emergir os "piores efeitos" das patologias de Donald Trump, menos visíveis há um ano.

"A propensão de Donald para dividir e a incerteza sobre o futuro do nosso país criaram uma tempestade perfeita de catástrofes à qual ninguém está menos apto do que o meu tio para as gerir."

Mary L. Trump faz um retrato da sua família e do presidente com base em dados biográficos mas também em análise psicológica, tendo em conta a sua profissão, uma vez que é psicóloga clínica. "As patologias de Donald são tão complexas e os seus comportamentos tão frequentemente inexplicáveis que um diagnóstico preciso e abrangente exigiria uma bateria completa de testes psicológicos e neuropsicológicos que ele nunca aceitará fazer."

Pai sociopata, filho sociopata

A explicação para os desequilíbrios da família reside no patriarca, o implacável empresário Fred Trump. Ou, nas palavras de Mary, um sociopata cujo comportamento agressivo levou à ruína emocional do filho Fred e a que Donald lhe seguisse as pisadas. Fred Jr.

Por exemplo, o pai de Donald via os pedidos de desculpas como um sinal de fraqueza e sobre isto muito se pode dizer sobre o presidente, que até hoje, e nas mais variadas circunstâncias, se mostra incapaz de dar a mão à palmatória. Por exemplo, perante o falhanço inicial dos testes ao coronavírus nos EUA, Trump declinou responsabilidades e culpou Barack Obama.

"Fred detestava quando o seu filho mais velho fazia asneira ou não intuía o que lhe era exigido, mas detestava ainda mais quando, depois de chamado à atenção, Freddy pedia desculpa. Fred ridicularizava-o. Fred queria que o seu filho mais velho fosse, na sua linguagem, um 'assassino'", escreve Mary. Enquanto Donald observava o irmão mais velho sete anos ser vítima do pai, viu nisso uma oportunidade, tendo passado a usar a mentira como uma forma de agradar e de se tornar no filho preferido do pai.

Segundo Mary, a mensagem subjacente a esta primeira competição entre irmãos que Fred fomentou foi a de vencer. "Quer Donald compreendesse ou não a mensagem de base, Fred fê-lo: em família, como na vida, só podia haver um vencedor; todos os outros tinham de perder."

Depois de ter deixado a empresa familiar, Fred Jr. teve uma breve carreira como piloto da companhia aérea TWA no início da década de 1960, pouco antes de Mary ter nascido. Segundo a autora, o pai Fred viu a decisão como "uma traição, e ele não tinha qualquer intenção de deixar o seu filho mais velho esquecer-se disso".

Freddy, escreve Mary, que tentou esconder do pai "o sentido de humor, gosto pela aventura e sensibilidade", contava aos amigos sobre a "incessante onda de abusos" que recebia do seu pai depois de ter entrado ao serviço na TWA.

"Donald pode não ter compreendido a origem do desprezo do pai pelo Freddy e a sua decisão de se tornar um piloto profissional, mas tinha o instinto infalível do touro para encontrar a forma mais eficaz de debilitar um adversário", lê-se no livro.

Por outro lado, "Donald começou a perceber que não havia nada que pudesse fazer de errado, por isso deixou de tentar fazer qualquer coisa 'certa'. Tornou-se mais atrevido e agressivo porque raramente era desafiado ou responsabilizado pela única pessoa no mundo que importava - o seu pai", escreve Mary.

Indiferença

Em contrapartida, o pai de Mary tornou-se num alcoólico com problemas cardíacos, abandonado pela família. A forma como morreu aos 42 anos, de ataque cardíaco, após semanas doente em casa, exemplifica o caráter dos seus parentes próximos. Mary Trump recorda que no hospital vizinho uma ala tinha o nome da família, mas ninguém procurou ajuda médica. "Um único telefonema teria garantido o melhor tratamento para o seu filho em qualquer uma das instalações. Nenhuma chamada foi feita", lamenta.

Também não o acompanharam ao hospital e nessa fatídica noite o irmão Donald preferiu ir ao cinema.

"A única razão pela qual Donald escapou ao mesmo destino é que a sua personalidade se ajustou aos propósitos do pai. É isso que os sociopatas fazem: cooptam os outros e usam-nos para os seus próprios fins - de forma implacável e eficiente, sem tolerância para dissidências ou resistência", escreveu Mary Trump.

Mary L. Trump vê o tio como alguém que "sabe que nunca foi amado", pelo que o "ego de Trump é uma coisa frágil que deve ser reforçada em cada momento, porque no fundo sabe que não é nada do que diz ser".

Exemplo maior, a fraude para entrar na universidade. Numa época pré-digital, Trump pagou a um estudante conhecido para fazer os testes de admissão para poder entrar na Universidade da Pensilvânia. Segundo Mary, Trump estava "preocupado que a sua média de notas, que o colocava longe do topo da sua turma, iria desvalorizar os seus esforços para ser aceite".

"Donald, a quem nunca faltou dinheiro, pagou bem ao companheiro", escreve Mary Trump.

(Tudo menos) self made man

A sobrinha também descreve a ascensão do atual presidente a empresário do ramo imobiliário em Nova Iorque como nada mais do que o apoio financeiro e de influência do pai.

"Os privilégios e a segurança material que a riqueza do seu pai lhe proporcionava, deu-lhe a confiança inabalável para conseguir o que mesmo no início era uma encenação: vender-se não apenas como um playboy rico, mas como um homem de negócios brilhante e que se fez a si próprio. Naqueles primeiros tempos, aquele esforço dispendioso estava a ser entusiasticamente, se bem que clandestinamente, financiado pelo meu avô."

A este propósito também cita a tia Maryanne. "Alguém acredita na treta de que é um self made man, perguntou Mary, ao que a tia, juíza reformada, respondeu: "Bem, conseguiu cinco bancarrotas."

Para Mary Trump, as marcas de personalidade do pai e as suas companhias, como o advogado Roy Cohn, que trabalhou na comissão do senador Joseph McCarthy na chamada caça às bruxas (a alegada atividade comunista nos EUA).

"Fred também tinha dado a conhecer Donald a homens como Cohn, tal como mais tarde seria atraído por autoritários como Vladimir Putin e Kim Jong-un ou qualquer outra pessoa, realmente, com vontade de o elogiar e o poder de o enriquecer", escreve.

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