Em miúda tinha um cartaz enorme de Bette Midler, no filme The Rose, afixado no quarto à custa de tanta fita-cola que a mãe temia pela pintura. O que mãe e filha talvez ainda não soubessem é que para Midus Guerreiro, mais do que um cartaz, aquele pedaço de papel era uma bússola, tanta foi (e ainda é) a determinação com que seguiu o seu caminho na música pop/rock, primeiro em plena onda do rock português e depois, em Londres (e pelo mundo fora, em tournée) ao lado de nomes míticos como The Stranglers ou Bryan Ferry..Para quem, como a jornalista, cresceu nos "loucos" Anos 80, Midus é a voz de duas canções da sua banda da época, os Roquivários: Ela Controla e, sobretudo, Cristina (Beleza é Fundamental), com que durante meses foram "torturadas" todas as Cristinas da escola..A notícia do seu breve regresso a Portugal para o lançamento de um disco a solo, mas com muitos cúmplices, torna-se, pois, uma oportunidade para saber o que é feito de Midus, que, 40 anos depois desses grandes êxitos, mantém o penteado e o estilo rockeiro que a caracterizou. "Este disco de originais estava pensado há muito tempo, mas íamos adiando por causa de tournées e projetos vários de cada um de nós", conta ao DN. "Com a pandemia, ficámos todos em casa e houve a possibilidade de fazer isto a sério, com músicos com quem sempre me dei bem.".Assim surgiu o álbum Minhas Canções, Meus Amigos, em que se juntam a ela Tim, dos Xutos e Pontapés, Teresa Maiuko, Dom Brown (músico habitual dos Duran Duran, que já trabalhou com Mark Ronson ou Liam Gallagher) ou Tim Alford, entre outros. Nas letras, contou com a colaboração de Ana Zanatti (no tema Num Terraço) e da britânica Anne Clark (em Ride)..Agora de regresso a Londres, admite que lhe soube bem esta passagem por Portugal para a promoção do disco e está disponível para espetáculos se os pedidos aparecerem..Há pouco mais de 40 anos, o poster atrás da cama com a cantora/atriz Bette Midler indicava já ao amor à música que, em retrospetiva afetiva, Midus encontra já na criança que foi: "Aos 4, 5 anos comecei a descobrir sons e a fazer pequenas melodias. Os meus pais acharam graça e começaram a dar-me pianinhos e outros instrumentos musicais de brinquedo. Aquilo encantava-me." Decisiva foi, no entanto, a guitarra de caixa que recebeu quando tinha 7 ou 8 anos..Na Moita, onde passou parte da infância e adolescência, teve a primeira banda: "Tocávamos alguma coisa nas missas, porque o padre era jovem e inovador. Comprou instrumentos elétricos (baixo, guitarra, teclas), de boa qualidade. Ensaiávamos na sala de catequese e tocávamos no adro da igreja para angariar fundos.".Foi nessa circunstância e época que conheceu Tim, dos Xutos & Pontapés. "Há uns tempos, foi ele que se lembrou disso: quando eu não podia estar nos bailes, por exemplo, era ele que me ia substituir.".Em 1981, como vocalista do quarteto Roquivários, tornou-se uma celebridade nacional, apesar da vida breve da banda. Comparavam-na às americanas Chrissie Hynde e a Suzi Quatro. Não mais parou: "Depois do grupo acabar tinha algum gosto em compor, fiz um estudiozinho numa garagem e fiz alguns temas com o Fernando António dos Santos, como o Lá Longe. Depois eu disse ao Tozé Brito, que era o patrão da Polygram, que queria fazer um disco com Luís Jardim, em Londres. E lá comecei a fazer um plano, a TAP ofereceu-me viagens, e uma agência de viagens patrocinou o hotel.".Em Londres, deu-se o clique. Midus percebeu que era ali que deveria estar se queria evoluir no mundo da música pop/rock. Foi ficando cada vez mais tempo, guiada pela tal bússola..Como na canção, ela controlava e não descolava: "Comecei a bater a portas e a frequentar os sítios-chave. Não foi duro, porque eu estava lá para conhecer tudo e fazer o máximo possível. O meu objetivo não era ficar lá para sempre, mas comecei a ir a clubes, onde se faziam jam sessions e subia ao palco para tocar com eles, as coisas começaram a acontecer.".Em breve, Luís Jardim, que fizera os baixos do álbum Cappuccino Songs, de Tanita Tikaram, deu o seu nome para uma audição. Correu bem. Seguir-se-iam muitos outros como Hugh Cornwell, dos Stranglers, Dom Brown, Bryan Ferry ou Melanie C., ex-Spice Girls..Com eles, tem corrido mundo e foi acumulando histórias, como o susto que apanhou em Madrid quando uma multidão de fãs em euforia rodeou todos os membros da banda que acompanhava Melanie C.."Em Portugal, onde corri o país de Norte a sul, as pessoas acarinhavam-me. Às vezes, tornava-se um bocadinho incómodo, quando nos queriam agarrar, mas não me senti ameaçada. Temos de pensar em espaços que não tinham as condições de hoje, muitas vezes com palcos e camarins improvisados", recorda.."Em Madrid, na tournée mundial da Mel C., dei por mim a ser içada de dentro do carro por dois seguranças enquanto a Mel teve de ser escondida dentro de um cacifo. Depois quando chegámos ao hotel, este teve de ser fechado enquanto a multidão se dispersava.".Mas em situações normais, procura dar apoio aos fãs. "Eu também tive os meus ídolos e lembro-me bem disso", diz. Que eram Sting, Suzi Quatro ou Bette Midler, claro. "Preferi sempre os baixistas e as mulheres da frente", confessa..dnot@dn.pt