Democratas: um partido mergulhado no caos à espera de Bloomberg?

Um erro na aplicação usada no Iowa levanta dúvidas sobre o vencedor. Pete Buttigieg e Bernie Sanders ambos reivindicam vitória. Mas quem pode capitalizar é Michael Bloomberg, que desprezou os primeiros estados para se centrar na Super Terça-Feira 3 de março.

Dois candidatos virtualmente empatados, ambos a reivindicar vitória, o presidente do partido a pedir uma recontagem, um erro na aplicação usada para transmitir a votação que veio pôr em causa todos os resultados. É um Partido Democrata mergulhado no caos o que chega às primárias do New Hampshire no dia 11 depois dos caucus do Iowa. O estado, que tradicionalmente lança a corrida às presidenciais americanas, desta vez lançou mais a confusão do que ajudou a apontar um favorito. É verdade que passados três dias e com finalmente 100% dos votos contados Pete Buttigieg surge com 26,2%, à frente de Bernie Sanders com 26,1%. Uma margem tão mínima que ninguém se atreve a garantir que foi mesmo o mayor de South Bend a vencer. Donald Trump já se regozijou com os problemas dos democratas. Mas o presidente não é o único para quem todo este caos foi uma boa notícia. Michael Bloomberg, o milionário ex-mayor de Nova Iorque, decidiu não entrar nas primárias dos primeiros estados, concentrando-se numa campanha paralela focada nos 14 estados que vão a votos na Super Terça-Feira 3 de março. Mas irá a tempo de ser ele o escolhido pelo partido para rival de Trump nas presidenciais de 3 de novembro?

Enquanto os rivais se concentravam no Iowa, New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul, Bloomberg pode ser visto em todo o lado menos nos primeiros estados das primárias. Uma quinta no Minnesota, um espaço de co-working no Utah, a inauguração de uma empresa no Maine , com paragens na Califórnia, Texas e Arkansas. O objetivo é claro: não desperdiçar tempo e esforço, concentrando-se na Super Terça-Feira e nos 1651 delegados em jogo nesse dia. Para garantir a nomeação do partido na convenção de Milwaukee em julho são necessários 1990 delegados.

Até agora nunca um candidato que tenha desprezado os primeiros estados obteve a nomeação. Mas Bloomberg não é um candidato qualquer. Oitavo homem mais rico dos EUA, com uma fortuna que a Forbes avalia em mais de 53 mil milhões de dólares, o que faz dele a 14.ª pessoa mais rica do mundo, Bloomberg construiu um império dos media a partir do nada. E parece disposto a gastar uma boa parte da sua fortuna pessoal para tirar Donald Trump da Casa Branca.

Na quinta-feira a sua campanha anunciou que pretende duplicar o dinheiro que já gastou em anúncios nas televisões, rádios e online. "Após mais de um ano desta primária as coisas continuam pouco claras. Nenhum candidato se destacou ou parece estar prestes a destacar-se", disse à AP Sabrina Singh. Para a porta-voz da campanha de Bloomberg, o milionário "está a lutar contra Trump todos os dias e vamos duplicar o esforço que temos feito a nível nacional". Um esforço que já terá implicado um investimento de 300 milhões em anúncios. Decidido a conquistar os democratas que não acreditam na hipótese do ex-vice-presidente Joe Biden nem confiam nos candidatos mais radicais, como Sanders ou a também senadora Elizabeth Warren, e procuram uma alternativa moderada, Bloomberg vai também duplicar o número de funcionários envolvidos na campanha - que passará para duas mil pessoas.

Nascido em Boston, Bloomberg cresceu numa família judia de classe média. Filho de um contabilista, formou-se na Universidade Johns Hopkins e começou a carreira na banca de investimento, antes de usar o dinheiro que ganhara para fundar a sua própria empresa, a Bloomberg LP. A política sempre fez parte da vida de Bloomberg, mas em 2001 avançava com a candidatura à Câmara de Nova Iorque. Democrata de toda a vida, deixou o partido para se apresentar pelos republicanos, apenas para mais tarde se registar como independente e vencer um segundo mandato, tendo conseguido ainda um terceiro - o que o colocou à frente da cidade entre 2002 e 2013.

Com uma vasta experiência de gestão executiva nos oito anos em que foi mayor de Nova Iorque - um colosso que gere um orçamento anual de mais de 90 mil milhões de dólares e organiza a vida de quase 8,5 milhões de pessoas -, Bloomberg destaca-se entre rivais com muita experiência política mas menos habituados a lidar com os problemas do dia-a-dia.

Este passado de empresário de sucesso e bom gestor parece fazer dele o homem ideal para destruir os argumentos de Trump quando usa o seu passado nos negócios como prova do seu sucesso e capacidade negocial. Isto apesar de ser acusado de falta de carisma. O frio e calculista Bloomberg seria com certeza um contraste em relação aos episódios de raiva a que Trump já habituou a América e o mundo no Twitter.

O fim de Biden? Calma...

Tenha ou não sido Pete Buttigieg a obter a maior percentagem de voto no Iowa, Bernie Sanders também reivindicou a vitória. O veterano senador do Vermont, que aos 78 anos é o mais velho candidato a disputar as primárias democratas (Bloomberg tem 77, os mesmos que Biden), é uma dor de cabeça para os democratas mais moderados, preocupados com as suas políticas liberais e o seu discurso à esquerda. Warren, que surge em terceiro lugar no Iowa, sofre do mesmo mal, arriscando afugentar alguns eleitores democratas mais ligados aos negócios com a promessa de aumentar os impostos aos mais ricos.

Politicamente muito experiente - foi senador entre 1973 e 2009 e vice-presidente de Barack Obama desde então até 2017 -, Joe Biden foi a desilusão do Iowa ao não passar do quarto lugar nos caucus. O próprio admitiu que "não vou dourar a pílula, levei um murro no estômago no Iowa, é a primeira vez na minha vida que sou derrubado". Mas garantiu, num comício já no Iowa: "Não vou desaparecer."

Os 15,8% dos votos conquistados por Biden no Iowa não lhe garantem nenhum delegado - Buttigieg e Sanders conquistam 11 cada, Warren obtém cinco -, talvez por isso o ex-vice-presidente parece ter mudado de estratégia, não hesitando em atacar diretamente os dois principais rivais. "Se o senador Sanders for o nomeado do partido, cada democrata na América, em estados azuis, estados vermelhos e estados roxos, cada um deles terá de assumir a etiqueta que o senador Sanders escolher. Ele identifica-se - e não o critico por isso - como um democrata socialista. Bem, já todos vimos o que Donald Trump vai fazer com isto!", afirmou. Quanto a Buttigieg, Biden criticou no Twitter a falta de experiência do mayor: "O mayor Pete gosta de dizer que eu faço parte da velha guarda falhada de Washington. Foi um falhanço quando ajudei a aprovar o Obamacare, os Acordos de Paris, a lei contra a violência contra as mulheres, ou a proibição do uso de espingardas de assalto?" E lembrou que aos 38 anos, Pete Buttigieg, um veterano da guerra no Afeganistão, cristão praticante e gay tão assumido que não hesita em surgir ao lado do marido na maioria das ações de campanha, não tem outra experiência política além de ter sido mayor de South Bend, uma cidade do Indiana com apenas cem mil habitantes. E se quer mesmo chegar à nomeação, vai ter de conquistar esse eleitorado negro que lhe tem escapado até agora.

A verdade é que Sanders e Buttigieg lideram as sondagens no New Hampshire. O último estudo da universidade de Suffolk para o Boston Globe dá 24% ao senador do Vermont, apenas um ponto percentual à frente do mayor de South Bend. Warren surge em terceiro lugar com 13%. Biden tem 11%.

Um segundo mau resultado seguido poderia minar de vez as hipóteses de Biden de obter a nomeação democrata. Grande favorito no início da corrida, o ex-vice-presidente vê o site FiveThirtyEight, de Nate Silver, reduzir para metade as possibilidade de ser o candidato em novembro: de 43% para 21%.

Mas estaremos a ser precipitados? Em 1992, por exemplo, Bill Clinton perdeu as quatro primeiras primárias antes de vencer no Colorado e acabou não só por ser o nomeado democrata como por bater o republicano George H. W. Bush. "Acredito no New Hampshire. Vamos regressar", afirmou Biden, relembrando a expressão usada para Clinton quando depois do desaire do Iowa ficou em segundo nas primárias seguintes: "Comeback Kid."

Calendário

11 de fevereiro
Primárias no New Hampshire
22 de fevereiro
Caucus do Nevada
29 de fevereiro
Primárias na Carolina do Sul
3 de março
Super Terça-Feira, 14 estados em jogo, incluindo Califórnia, Texas, Carolina do Norte e Virgínia
10 de março
"Mini Super Terça-Feira", sete estados em jogo, incluindo o Michigan
Até ao fim de março
Mais sete estados a votos, incluindo Florida, Illinois e Ohio
Abril
Mais 11 estados em jogo, entre os quais Nova Iorque e Pensilvânia
Maio/junho
Os últimos 13 estados votam, incluindo New Jersey
13-16 de julho
Convenção Democrata de Milwaukee, Wisconsin
24-27 de agosto
Convenção Republicana de Charlotte, na Carolina do Norte
3 de novembro
Eleições presidenciais

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