O PSD a endireitar ou a entortar?

O PSD está preocupado com a ameaça populista, que pode entrar-lhe pela casa adentro. E o seu líder deve ter mais esta preocupação.

Há uma guerra estranha a acontecer no PSD. É aberta. Mas é também, como todas as lutas dos partidos, privada e codificada. Os jornalistas tentam chegar-lhe, mas a maior parte das vezes acabam a fazer parte da batalha, a ser arma de arremesso ou a difundir interesses. Até de forma involuntária. Um partido, às vezes, é como um convento, e o que lá se passa sabem os que lá estão.

Aquilo por que o PSD passou daria cabo da sanidade de qualquer partido: ganhou eleições e não foi governo, tendo governado o país numa crise, foi para a oposição em tempo de vacas gordas, o líder eleito era como a coroa da cara que o liderava antes, e levou com uma bancada parlamentar escolhida pelo antecessor...

Acrescentam-se características do novo líder, complexas na liderança de um partido que precisava de mobilizar-se, difíceis para relações com a imprensa, perigosas num mundo mais a preto e branco: Rui Rio é um homem ensimesmado, pouco preocupado com o que acham dele. Ou pelo menos pouco preocupado em mostrar-se preocupado. Isso levou-o a frases desastrosas e timings menos do que perfeitos, tirou-lhe margem de manobra nos media e cortou-lhe a capacidade de marcar a agenda. Algo essencial numa oposição feita de fora do Parlamento.

Os críticos não perdoaram o corte que Rio fez com a anterior direção, e tornaram-se ferozes e com eco mediático. Isso levou a mais críticas ao jornalismo - numa deriva com cada vez mais consequências, numa cadeia de causa-efeito. Agora, estamos à beira de eleições. A hipótese que mais parece agradar aos críticos é uma derrota forte do PSD, e a vinda de um messias para salvar o partido. Velho ou novo. Mas talvez os críticos não estejam a avaliar bem os efeitos que uma derrota estrondosa pode ter para o partido, sobretudo nestes tempos difíceis para a direita, na Europa e no mundo. Ou talvez estejam a ver bem. Mesmo muito bem.

Na entrevista DN/TSF, Paulo Mota Pinto, o presidente da comissão de honra da candidatura de Rui Rio, fala do tema, que é a razão por que a guerra no PSD transcende o partido e pode afetar-nos a todos. Nos Estados Unidos, no Brasil e nos países de leste não foi a esquerda a culpada pela entrada das tendências perigosas e populistas. Foi precisamente à direita que isso aconteceu. Esses movimentos ganharam espaço enfraquecendo a direita cosmopolita e aberta.

Paulo Mota Pinto atira todas as culpas aos críticos que degradam o ambiente do PSD e abrem a porta a essas tendências. Acontece que Rui Rio é que está ao leme. E, como qualquer homem nessa função, será ele a ser julgado, pelo seu partido, nessa liderança, pelos eleitores, tendo em conta o projeto e as ideias que apresente, e pela História, por tudo o que acontecer à direita - e ao espetro político português - no seu tempo. Que nenhuma vertigem solipsista lhe ensombre esta dura, mas clara, realidade.

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