Adeus, futuro: "Letra morta"

A minha irmã teve de fazer uma operação complicada à perna - que implicou uma demorada convalescença - a meio da quarta classe; e, para que não perdesse a matéria e pudesse ir a exame no final do ano, a minha mãe arranjou uma professora de uma escola próxima que ia lá a casa dar-lhe aulas três tardes por semana.

Como eu então só tinha 4 anos e era incrivelmente irrequieta (graças a Deus que nesse tempo ninguém falava de síndrome de hiperactividade e me arruinou a infância com medicamentos), a maneira que a professora encontrou de me manter sossegada foi oferecer-me um caderno pautado, no qual eu copiava de cima a baixo letrinhas do alfabeto. Foi remédio santo: não só nunca mais voltei a interromper as lições da minha irmã, como adquiri, mesmo antes de entrar na escola primária, uma letra bastante decente. O único senão foi que, com o passar dos anos, essa letra se tornou demasiado identificável; e, quando a seráfica professora de Inglês apanhou a voar na aula um bilhetinho que chamava a atenção para o seu bigode também já demasiado identificável, não teve de se esforçar muito para perceber quem o escrevera...
Presumo que hoje já ninguém se interesse por grafologia, incluindo na área da investigação criminal: é difícil encontrar pessoas que ainda escrevam à mão, e até os cheques são muitas vezes preenchidos e assinados com carimbos. Valham-nos Eduardo Lourenço, Mário Cláudio e Miguel Real, sem contar com os caderninhos de apontamentos de Francisco José Viegas, pois daqui a uns anos não restarão manuscritos de escritores, e a descoberta de ficheiros informáticos, cuja autenticidade será complicada de provar, nunca terá o mesmo encanto.

Mas nas escolas portuguesas, entre colegas, trocar-se-ão ainda perigosíssimos bilhetes que conduzam a infalíveis ataques de riso como no meu tempo? Fiz a pergunta a um professor, que me garantiu que só se for por sms... E, perante a minha surpresa, pois calculava os telemóveis fora do alcance dos alunos durante os tempos lectivos, ele riu-se da minha ingenuidade e apressou-se a explicar: na sua escola, os alunos devem efectivamente colocar os telemóveis numa caixa de madeira com divisórias quando entram na sala; mas um professor mais curioso sobre as preferências tecnológicas da rapaziada aproveitou um dia de teste para observar a dita caixa com atenção. E mais valia não o ter feito: nas divisórias, armados em telemóveis, estavam quase só comandos de televisão. Adeus, futuro.

Editora e escritora, escreve de acordo com a antiga ortografia