A nação "arco-íris"

Foi em Janeiro de 1990, que Nelson Mandela, já com setenta e um anos de idade, na sua cela da ilha de Robben, visível do cabo da Boa Esperança, com uma marcada linha de encontro das águas do Atlântico com o Indico, na costa da lindíssima Cidade do Cabo, começou a escrever a sua famosa diretiva destinada a marcar o rumo da transformação política do Apartheid colonial numa África do Sul em que todas as etnias fossem consideradas membros de uma "Nação Arco-Íris", com a transformação económica necessária e suficiente. O seu amigo e companheiro de lutas, o Arcebispo Desmond Tutu, que seria presidente da Comissão de Verdade e Reconciliação, escreveu, com palavras inteligíveis por todos os desventurados, o que entendia por reconciliação das etnias, da qual os brancos não estavam excluídos.

As palavras foram estas: "A reconciliação significa para os que têm pertencido à parte perdedora da história poderem apreciar a diferença qualitativa que existe entre repressão e liberdade. E, para eles, isso significa que a liberdade se traduza em estarem bem abastecidos de água potável e em disporem de eletricidade com o simples apertar de um interruptor; em poder viver num lar digno e trabalhar num bom emprego; em poder enviar os seus filhos à escola e em desfrutar de uma saúde acessível. O que quero dizer é que de que servirá ter feito esta transição se não aumenta e melhora a qualidade de vida destes povos? Se não se conseguiu isto, o direito ao voto é inútil" (2001).

O direito igual ao voto era a arma de Mandela, que não admitiria a exclusão de nenhuma etnia, que afirmaria "somos todos sul-africanos", e que não apoiou o seu conceito de futuro em nenhum ressentimento motivado pelo tratamento que sofrera, roubando-lhe a totalidade da juventude, durante os longos anos de encarceramento. Tal experiência, em circunstâncias todavia menos severas, acontecera com Gandhy, que começou a despertar para o pacifismo no tempo em que vivera no apartheid sul-africano. Mandela reentraria na vida pública, e ganharia o respeito, a autoridade, e a inscrição do nome no património comum da humanidade, como um exemplo de autenticidade, que mereceu o respeito de todas as confissões e falta delas.

É extraordinária a capacidade de aprender rapidamente o mundo de que tinha estado privado, em termos de surpreender o diálogo recompensado que viria a ter com F. W. de Klerk, líder do Partido Nacional, com uma larga experiência do domínio da etnia colonizadora sobre as restantes diversas etnias. Mas sem conseguir que Mandela cedesse aos interesses que lhe quiseram impor para manutenção de privilégios para os antigos detentores do poder, por exemplo a tentativa de estabelecer uma câmara em que a antiga minoria mantinha um direito de veto. Direito de veto que dizia mais respeito aos privilégios económicos, do que aos restantes direitos que seriam em todo o caso atingidos pelos efeitos colaterais da economia de privilégios. É também prova de sabedoria, nimbada de santidade, o facto de as violências sofridas pelos seus apoiantes, com um número de mortes consideráveis, não o terem desanimado de conseguir o estilo de governo, verdadeiramente de nova inovação, sobretudo para uma África colonial, não obstante a dolorosíssima circunstância em que foi colocado.

É evidente que estas negociações implicaram uma complicada mobilização atenta, e interventora sempre que possível, com De Klerk em vantagem quanto à ação e experiência em liberdade, procurando estabelecer uma federação protetora, assegurar o direito de veto para os partidos minoritários, reservar uma parte dos postos da administração. O que tudo Mandela resumiu dizendo que "o que o Partido Nacional procurava era manter a supremacia branca com o nosso consentimento". As instâncias internacionais, FMI, Banco Mundial, GATT, todas tiveram presença na luta pelo poder (Klen, 2007). Mandela ganhou todas as batalhas. Sobretudo em favor da Humanidade. O drama das migrações descontroladas, as respostas desumanas que não se confundem com a limitação de recursos, dão atualidade ao seu conceito de Nação Arco-Íris, sem distinções étnicas, sem tolerâncias insuficientes, mas com respeito mútuo e bem comum assumido, que foi alargado pela ONU com o princípio da "Terra, morada comum dos homens".

Morreu em paz com os seus, com paz espiritual, com paz na crença de um futuro em que todos fossem sul-africanos. Daqui as Comissões de Reconciliação, em que o seu amigo fiel Bispo Desmond Tutu desempenhou um papel fundamental. Na anarquia em que nos encontramos neste século XXI sem bússola, onde faltam as vozes encantatórias que o século passado ainda ouviu, Mandela é uma inspiração para que a batalha da esperança encontre vozes, ação, projeto, e paz. Evitando que um responsável General americano, ao deixar o comando do exército dos EUA na Europa, avise convicto que, dentro de quinze anos, os EUA e a China entrarão em guerra. A sabedoria é bem-vinda do espaço que os ocidentais chamaram Terceiro Mundo.

Professor universitário

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Ferreira Fernandes

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