Não conseguem contratar, mas pagam cada vez mais perto do salário mínimo

O salário mínimo vale hoje 63% do rendimento médio bruto pago pelas empresas aos trabalhadores, mais sete pontos percentuais do que em 2014.

São alguns dos setores da economia que mais se têm queixado de dificuldades em recrutar trabalhadores e onde os dados do Ministério do Trabalho confirmam maior crescimento nas vagas abertas. Mas construção, serviços, comércio e as diferentes atividades ligadas ao turismo foram também, nos últimos cinco anos, as áreas de atividade em que a média salarial mais convergiu com o salário mínimo.

A ausência de uma descolagem do patamar mínimo de retribuição acontece com o desemprego agora nos 6,3% e com a oferta de emprego a disparar. Mas também após um período em que o salário mínimo subiu de 485 para 600 euros. O salto foi de 24% (ou 19% em termos reais). Já as remunerações subiram em média 10% (5,8% quando descontada a inflação). Ou seja, o salário mínimo fez muito mais caminho sem que a média das remunerações acelerasse proporcionalmente.

O resultado foi que o salário mínimo está hoje a valer 63% dos rendimentos médios brutos pagos pelas empresas aos seus trabalhadores. São mais sete pontos percentuais do que em 2014, indicam estatísticas do emprego divulgadas ontem pelo INE.

Com o salário mínimo a apanhar a média salarial - nos 954 euros, excluindo componentes como subsídios de férias ou de Natal - há hoje já três setores cujo prémio em relação ao patamar mínimo vale menos de um quinto da remuneração: trabalho administrativo, agricultura e as atividades que gravitam em torno do turismo, que incluem o alojamento e a restauração.

Nos 687 euros de média salarial do alojamento e restauração, o salário mínimo tem agora um peso de 87%

Nos 687 euros de média salarial do alojamento e restauração, o salário mínimo tem agora um peso de 87%. Em cinco anos, o prémio sobre o mínimo legal encolheu de 21% para apenas 13%. No comércio, com a média salarial nos 792 euros, o extrarremuneratório encolheu também em oito pontos percentuais.

Juntos, comércio e serviços do turismo concentravam mais de um terço das vagas por preencher no primeiro trimestre deste ano, segundo os dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho. Eram mais de 12 mil postos de trabalho - mais 55% de vagas do que no início de 2018. Estas áreas têm sido das mais vocais nas queixas quanto à dificuldade de recrutar.

A construção, que encontrou entretanto novo dinamismo após a crise, também vê as vagas crescer 69%... e muitas dificuldades em recrutar. Mas é onde o salário mínimo e o salário médio (792 euros) mais se aproximaram ao longo dos últimos cinco anos. O prémio sobre a retribuição mínima caiu dez pontos percentuais, valendo agora menos de 30% da remuneração.

Na agricultura, também com forte procura de trabalhadores mas de carácter sazonal, os salários são ainda dos mais baixos e rentes à retribuição mínima. A média mensal bruta está em 674 euros - só mais 10% do que o mínimo legal.

Mesmo com a margem sobre o salário mínimo mais esmagada nos vários setores, Portugal está ainda assim em linha com os planos da Comissão Europeia liderada por Ursula von der Leyen, que pretende que todos os Estados da UE coloquem a retribuição mínima garantida a valer 60% da mediana de rendimentos.

Os dados publicados pelo INE dizem respeito à média das retribuições e, maioritariamente, do privado. Têm por base as declarações de remunerações entregues na Segurança Social, abrangendo um universo de 3,6 milhões de trabalhadores.

jornalista do Dinheiro Vivo

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