Sónia Carneiro

"Nunca me senti desrespeitada por ser mulher no futebol"

O pai foi dirigente, o marido é treinador e ela, garante, sempre gostou do futebol. Depois de muitos anos na advocacia, Sónia Carneiro é a diretora executiva da Liga Portugal e fala ao DN sobre futebol, advocacia e também sobre a família, como um filho especial que fez dela "melhor pessoa".

Como é que uma advogada que nos habituamos a ver em alguns casos mediáticos da justiça - como o de Fátima Felgueiras, da Noite Branca ou das praxes da Lusíada - foi parar ao futebol?
Eu já era advogada do Dr. Pedro Proença e quando ele decidiu candidatar-se à Liga pediu-me alguma ajuda na parte processual. Depois ele ganhou as eleições e eu voltei para o meu escritório, para a minha vida, mas, pouco tempo depois de ele estar na Liga, telefonou-me e disse que precisava da minha ajuda jurídica e eu comecei em agosto desse ano a trabalhar aqui com ele. Fiquei como assessora jurídica, na altura conciliava a Liga com o meu escritório, mas mais ou menos um ano depois acabei por ser nomeada diretora executiva para a área jurídica.

Foi fácil convencê-la a fazer essa transição da advocacia para o futebol?
Há alguns momentos em que eu sinto falta da minha toga. Mas o projeto é muito aliciante, é de facto muito interessante tudo aquilo que se faz na Liga e, portanto, fui-me apaixonando. Foi uma coisa perfeitamente natural.

E já tinha alguma ligação ao futebol antes disso?
Sempre gostei do futebol. O meu pai esteve ligado ao futebol em cargos de dirigente e eu fui sempre acompanhando o meu pai. Depois, quando o Dr. Lourenço Pinto foi para a Associação de Futebol do Porto, convidou-me a fazer parte dos órgãos sociais e fui logo no primeiro mandato dele para o Conselho de Justiça da AF Porto, há uns 12 anos talvez.

Portanto, não custou muito esta transição para o futebol profissional?
Não. Eu adapto-me facilmente.

Falou-me do seu pai como uma figura importante na sua ligação ao futebol? Ia ao futebol com o seu pai, em criança?
Ia ao futebol com o meu pai, ia ao futebol com o meu avô, toda a gente lá em casa gosta de futebol. Eu sempre os acompanhei e sempre gostei de futebol.

Então e ia a que estádio, ver que clube? Ou esta é uma pergunta sensível para quem ocupa este cargo?
É público, não é segredo nenhum, toda a gente sabe que sou sócia do Leixões, portanto ia ver o Leixões. Sou de Matosinhos, ia ao Estádio do Mar. Depois, como me casei com um futebolista, comecei a ir ver os jogos dos clubes onde ele jogava. Portanto, habituei-me a ir mudando de clube todos os anos, ou à medida que ele ia mudando de clube. Não se pode dizer que sou fanática de nenhum clube porque ele ia mudando e representou muitos clubes, depois também como treinador. Portanto, não há uma só bancada ou um só estádio que eu tenha frequentado, há muitas.

E na infância era mais menina de bonecas ou a chamada maria-rapaz?

Era mais maria-rapaz, sim. Felizmente, nasci num tempo em que podíamos brincar na rua e, portanto, andava de bicicleta, jogava à patela, também gostava de jogar dominó e outros jogos... Tinha muito mais brincadeiras de rapaz do que propriamente de menina.

Jogou futebol também?
Não, futebol só na escola, às vezes, nas aulas de Educação Física. Jogava muito mais voleibol do que futebol. Aliás, fui jogadora de voleibol. Como quase todas as pessoas da minha geração de Matosinhos, joguei voleibol no Leixões, até ao segundo ano de júnior, e depois joguei na Académica de São Mamede. Foi uma transferência naquela altura... [risos]

E ganhou alguns títulos no voleibol?
Não, não [risos]...

"Sempre quis ser advogada. Desde as redações da quarta classe"

E a advocacia, surgiu como? Foi vocação, objetivo pessoal, tradição familiar?

Desde muito cedo, daquelas redações da quarta classe sobre "o que é que queres ser quando fores grande" que eu sempre disse que queria ser advogada. Muito influenciada pelos filmes americanos, que depois se percebe que não têm nada que ver com a nossa realidade da advocacia... Eu sempre quis ser advogada. Apesar de ser muito melhor aluna a matemática e economia, virei sempre o meu percurso para as humanísticas, porque sempre quis a advocacia.

Foi uma aluna dedicada no Direito?
Sempre fui uma aluna que me fui safando. Nunca fui uma aluna extraordinária, mas fui-me safando sempre.

Perdeu muitas noites a decorar leis e a ler códigos?
Não, não. Isso é uma ideia errada. No direito, é preciso termos alguma memória e sobretudo gosto por aquilo que se está a fazer. Nunca fui grande marrona nem deixei de "ter vida". E os códigos não são para ser decorados, são para ser consultados.

Como foi, depois, a entrada no mundo profissional da advocacia?
Fiz o meu último ano do curso na especialidade socioeconómicas e fui estagiar com o Dr. Marinho Magina, que é um grandíssimo advogado de Matosinhos. O escritório dele fazia essencialmente direito económico. Depois acabo por me apaixonar pelo penal já no exercício da advocacia. Como estagiária, as oficiosas eram essencialmente de penal, fui começando a fazer alguns julgamentos, tive a sorte de alguns sucessos naquela área e depois conheci o doutor João Nabais... Portanto, foi tudo a encaminhar para o penal.

Foi também o futebol que lhe proporcionou o primeiro contacto com o Dr. João Nabais, certo? Como foi isso?
Sim, eu conheço o Dr. João Nabais devido ao processo Guímaro [antigo árbitro acusado de corrupção], que foi julgado em Matosinhos. Fui apresentada pelo pai de uma amiga minha, que era advogado nesse processo, e cerca de um ano depois comecei a trabalhar com ele em alguns processos que ele tinha no Porto, eu ia tratando coisinhas pequeninas... Foi um processo evolutivo até abrirmos um escritório da João Nabais Associados no Porto, no ano 2000.

Esse caso Guímaro, que envolvia temas graves de corrupção no futebol, ensinou-lhe o quê sobre o futebol? Alguma coisa útil para estas funções atuais?
Nada. De futebol não me ensinou rigorosamente nada. Ensinou-me sobre advocacia. E percebi, usei até esta expressão na altura: "Quando eu for grande quero ser tão boa advogada quanto este senhor." E, de facto, o Dr. João Nabais é o melhor advogado penalista deste país e eu tive o privilégio de assistir a um julgamento com ele, na altura, em que me lembro ainda de todos os intervenientes. Do advogado, do procurador, da juíza... Foi de facto algo que me marcou, porque foi absolutamente extraordinário assistir àqueles advogados a pleitearem, estava eu pela primeira vez a assistir a um julgamento a sério.

É a sua grande referência na advocacia, o João Nabais?
Eu acho que tive o privilégio de trabalhar com aqueles que são as minhas duas grandes referências no mundo da advocacia, que são o Dr. João Nabais e o Dr. Marinho Magina. Sem prejuízo de neste percurso ter conhecido outros grandes advogados, mas esses, sim, são as duas grandes referências.

Esteve no caso Felgueiras, Noite Branca, nas praxes da Lusíada, defendeu o adepto do Benfica agredido pela polícia em Guimarães... Vários casos mediáticos. Algum destes casos foi mais marcante para si?

O caso Felgueiras [foi advogada da empresa Resin] foi um caso importante, mas não é um caso que marque em termos humanos. O processo da Lusíada, sim, é um caso que em termos humanos marca profundamente porque se vê ao longo dos anos a degradação de uma mãe que só queria perceber efetivamente o que aconteceu ao filho [morreu durante uma praxe] e que até agora ainda não conseguiu perceber. Esse, sim, do ponto de vista pessoal foi um caso muito marcante.

"Fui ter com o Dr. Pedro Proença num restaurante e entreguei-lhe um cartão"

Depois defendeu também Pedro Proença quando ele, ainda árbitro, foi agredido por um adepto no Centro Comercial Colombo. Foi o seu primeiro contacto com Pedro Proença ou já o conhecia antes?
Conhecia-o socialmente, só. Tinha ido entregar-lhe, uma vez, um cartão meu e dizer-lhe que se alguma vez precisasse de algum advogado no Porto eu estaria disponível. E, depois, quando ele teve esse processo penal falou comigo. A partir daí passei a ser advogada das empresas do Dr. Pedro Proença e passei a ter com ele uma relação profissional.

Como foi esse episódio em que o abordou para lhe entregar um cartão?
Foi num restaurante onde parava muita gente do futebol. Os árbitros iam lá jantar com alguma regularidade e para a minha família era quase uma cantina, em Matosinhos. O Restaurante Castanheira, que já não existe. E houve um dia em que ele estava lá juntamente com outros árbitros e eu, por brincadeira com os meus amigos, que diziam que eu não tinha coragem, fui-lhe entregar um cartão e dizer que se algum dia precisasse de um advogado no Porto eu estava disponível [risos]...

Não sendo a primeira mulher no mundo do futebol, não deixa de ser pouco habitual uma mulher em cargos de poder no futebol. Como é que foi recebida na Liga pelos clubes? Sentiu algum choque num mundo eminentemente masculino como é o do dirigismo?
Não. Não sei se sou eu que sou distraída, mas não senti nenhuma dificuldade pelo facto de ser mulher. Antes pelo contrário. Tanto eu como a Dra. Helena Pires e a Dra. Susana Rodas - somos três mulheres executivas nesta casa -, todas nós temos uma relação com os clubes e com os agentes desportivos muito tranquila. Não sinto nada, nem senti até hoje, que o facto de ser mulher tenha condicionado em alguma coisa o reconhecimento que têm pelo meu trabalho. De todo. Não houve nenhuma atitude, quer dizer, poderá ter havido uma situação ou outra em que pode ter havido ali algum laivo de machismo, mas nada que tenha sido suficiente para me afetar.

Nunca sentiu a necessidade de levantar a voz a nenhum dirigente?
Ai, isso... Eu levanto a voz muitas vezes. Faz parte das minhas características pessoais. Mas não porque me tenha sentido alguma vez desrespeitada por ser mulher. Nunca senti.

"A grande dificuldade é os homens serem capazes de nomear mulheres. Felizmente, já começa a acontecer"

Mas acha que em Portugal o futebol ainda é um mundo demasiado machista ou já não?
Acho que as mulheres competentes têm tido a capacidade de assumir o seu papel neste universo do futebol. Veja-se que vamos agora ter a Supertaça Europeia arbitrada por uma mulher, portanto também dentro do campo as mulheres começam a impor-se. Fora de campo já tivemos mulheres presidentes de clubes e em grandes cargos de entidades desportivas. Dentro de campo havia mais dificuldade, mas agora vamos ter uma mulher a apitar uma final europeia.

Surpreendeu-a essa nomeação?
Não, porque acho que é um processo natural de evolução das mulheres na parte desportiva. A grande dificuldade é os homens serem capazes de nomear as mulheres e felizmente isso já começa a acontecer.

Mas há ainda lutas em curso no futebol que têm que ver com a igualdade de género, que ainda não se verifica. Qual é a sua posição por exemplo em relação à reivindicação da seleção feminina dos Estados Unidos, que quer ganhar o mesmo que a seleção masculina?
Se calhar nos EUA justifica-se, porque elas lá até ganham mais coisas do que eles. Elas acabam de sagrar-se outra vez campeãs do mundo e eles não.

Acha que é uma questão de resultados, de mérito desportivo, é isso?
Não. Diria que tem que ver com a capacidade de atrair público e, obviamente, o futebol feminino hoje ainda não está no mesmo patamar. Em Portugal, desde logo, porque é uma atividade amadora, ao contrário do futebol masculino. Agora, o futebol feminino tem estado a crescer, vemos cada vez mais os clubes a investir no futebol feminino e é algo que vai ter de acontecer cada vez mais, até porque acho que vai ser uma condição da UEFA para licenciar os clubes. E nós temos já bons exemplos em Portugal, como o Sp. Braga, o Benfica ou o Sporting, exemplos de investimento claro dos clubes no futebol feminino, que acredito que vá crescer e chegar à profissionalização.

O ténis já impôs prémios iguais para mulheres e homens nos torneios do Grand Slam, por exemplo. Seria possível no futebol?
É a única modalidade onde isso acontece. Tem que ver com a indústria. Mas há um grande investimento e um grande esforço dos clubes de futebol para valorizar o futebol feminino. Acho que é este o caminho.

"A única coisa que separa os clubes são os 90 minutos de jogo. O resto são interesses comuns"

O futebol em Portugal passa a imagem de um ambiente permanentemente crispado, de polémicas diárias, muitos gritos e muitas lutas. É assim também por dentro, no dia-a-dia de quem trabalha na organização do futebol?
Não, sabe, é impressionante o alinhamento que as estruturas têm em relação aos seus interesses comuns. Seja o FC Porto, Benfica, Sporting, Vitória, etc., em termos de estruturas há uma coordenação muito grande e nós temos na Liga o privilégio de assistir a isso. Portanto, com exceção dos momentos políticos de assembleias gerais, ou das guerras comunicacionais, no seio desta instituição há um grande alinhamento dos clubes na construção de um futebol cada vez melhor e com mais sucesso.

Viu-se envolvida numa dessas polémicas do futebol por causa de um post antigo [anterior à sua entrada na Liga] no Facebook, que levou até o Benfica a pedir a sua demissão. Foi o pior momento por que passou até agora na Liga?
Isso foi um comentário sobre um estádio [sobre o Estádio da Luz, que apelidou de palco de festas dos adversários], não estava a fazer nenhum comentário sobre nenhum clube. Não era mesmo essa a intenção. Aquilo era uma brincadeira num grupo muito fechado de amigos no Facebook e por isso é que me chocou ter vindo a público na altura. Foi um momento que vivi, eu e a minha família, com muita angústia, porque tomou proporções que eram para mim inimagináveis. Mas, felizmente, é um tema que está arrumado.

Mas como é que se consegue promover uma ideia do futebol com talento, futebol positivo, que faz parte dos slogans da Liga, no meio deste ambiente diário de truculência?
Com muita persistência, resiliência, tentando unir as pessoas, fazê-las sentir aquilo que efetivamente é mais importante para todas e tentar convencê-las de que a única coisa que separa os clubes são os 90 minutos do jogo, mais nada. Tudo o resto são interesses comuns pelos quais tem de se lutar.

Tem consciência de que o futebol muitas vezes projeta uma má fama? Ainda recentemente tivemos o exemplo da antiga eurodeputada Ana Gomes, que veio questionar os valores da transferência do João Félix. Como encarou isso?
Todo esse tipo de insinuações... Enquanto advogada, a minha posição é: o que não se prova não existe. De resto, não queria alimentar nenhum tipo de polémicas em relação às declarações da Dra. Ana Gomes.

Ana Gomes tem estado no apoio a Rui Pinto, que trouxe à luz o famoso caso Football Leaks. Como é que a diretora executiva da Liga olhou para esse fenómeno. Preocupou-a? Surpreendeu-a?
As instâncias competentes para fazer essa análise estão a fazê-la, já tivemos a autoridade tributária espanhola a investigar, temos em Portugal o Ministério Público a estudá-las... Portanto, eu, sem acesso aos meios de prova que essas entidades têm, não posso fazer qualquer tipo de juízo de valor. Vamos aguardar tranquilamente pelas decisões que vierem dos processos e, quando os processos tiverem uma decisão transitada em julgado, aí, sim, poderemos ter uma posição institucional sobre eles.

Mas, independentemente do desfecho, há uma mancha reputacional que fica sobre a indústria do futebol...
Isso há cada vez que um atleta é agredido, ou quando um dirigente é maltratado, ou quando alguns comentadores tratam mal o futebol em programas com grande audiência... Há vários fatores que não podemos controlar.

"Tem havido um esforço por parte do futebol em se autorregular"

Recentemente, a Comissão Europeia também incluiu o futebol numa lista negra de atividades suscetíveis a branqueamento de capitais. Que comentário lhe merece isso?
Surpreendeu-me, porque cada vez mais os registos de transferências são escrutinados, existe uma plataforma da FIFA para as transferências serem colocadas, portanto naturalmente que me surpreende. Tem havido um esforço por parte do futebol em se autorregular, em aumentar a transparência, em ter um cuidado acrescido com as informações sobre os owners de cada uma das sociedades... Portanto, tem havido um esforço das diversas entidades, seja da FIFA, da UEFA, federações, Liga, em regulamentar e acompanhar cada vez mais de perto toda esta atividade.

Acha que os mecanismos de controlo que existem na Liga são os mais eficazes?
Queremos acreditar que sim. Temos feito um percurso grande desde 2015 no acompanhamento do licenciamento das sociedades desportivas, no acompanhamento de quem é que são os proprietários, de toda a cadeia de acionistas, pedimos certidões da Segurança Social, certidões da Autoridade Tributária, exigimos o comprovativo de pagamento de salários a jogadores, treinadores e funcionários... Portanto, diga-me que outra atividade tem um controlo tão grande sobre si própria. Há um esforço muito grande para cada vez mais conseguir controlar a sustentabilidade das sociedades desportivas.

Consegue garantir que nas competições profissionais do futebol português não há nenhum clube que esteja a servir para branquear capitais?
Se há, eu peço à Polícia Judiciária que nos informe rapidamente e que tome as medidas que tem a tomar. Não está na nossa alçada descortinar esse tipo de atividades, mas se descobrirmos vamos denunciar.

E que grandes novidades podem os adeptos esperar das competições que vão arrancar?
Há algumas alterações à lei do jogo, mas isso já foi anunciado por quem de direito. Em termos de organização do jogo, é dar continuidade àquilo que tem sido feito nos últimos anos, há o incremento do VAR, que já foi anunciado pela federação, com a introdução das linhas de fora-de-jogo, que é uma novidade tecnológica. Na Liga Pro (II Liga) teremos a novidade de todos os jogos passarem a ser transmitidos em direto, em streaming, no site da Liga, que encaminha para a plataforma da Sport TV. E temos mais: temos talento, temos jogadores novos, jogadores da formação que foram promovidos e que estarão nas suas equipas principais... Há sempre novidades.

"Já estamos habituados a lidar com a hashtag #aculpaedaliga"

Em termos de calendarização, foram anunciadas algumas alterações, como, por exemplo, a diminuição do jogos à segunda-feira...
O que foi dito, e é pena que às vezes só se ouça uma parte daquilo que interessa, foi que houve uma alteração no regulamento e que os jogos à segunda-feira só iriam acontecer em duas situações: quando houver necessidade, por via de jogos na quinta-feira anterior, de cumprir o intervalo de 72 horas entre jogos, ou então por acordo dos clubes. Portanto, muitos dos jogos que iremos ter nesta época à segunda-feira serão por acordo dos clubes.

Vamos ter um já na primeira jornada [V. Setúbal-Tondela]...
Vamos, por acordo dos clubes. Os clubes têm contratos de direitos televisivos e o operador ter-lhes-á dito: "Meus caros, nós temos um contrato e gostávamos muito de ter o jogo na segunda-feira, e vocês façam o favor de dar acordo a isso." E eles naturalmente deram acordo.

Portanto, espera que os adeptos não venham reclamar com a Liga, é isso?
Nós já estamos habituados a lidar com a hashtag #aculpaedaliga, mas aquilo que ficou nos regulamentos, aprovado pelos clubes, foram essas duas exceções para os jogos à segunda-feira. Nós cumprimos o regulamento.

Os clubes têm tido essa preocupação de defender os adeptos?
Nós desde o ano passado que temos tomado medidas concretas de proteção dos adeptos: esta dos horários dos jogos, toda a luta que fizemos na Secretaria de Estado em relação à lei da violência, porque nós sabemos que há gente que gosta de ver o jogo em pé e esta foi uma luta da Liga e dos clubes, para se conseguir que passe a haver setores do estádio para ver o jogo em pé [a lei ainda não foi promulgada, mas entrará em vigor agora...]. Outra luta que nós não vamos abandonar é a da permissão de venda de cerveja nos estádios, que é outra situação que nós achamos que é benéfica para os adeptos; também não desistimos da redução do IVA nos bilhetes, para todos os adeptos terem direito ao IVA do bilhete a 6%, como têm todos os outros espetáculos. Já agora, nós lançámos uma petição online que está nessa altura a recolher assinaturas e faço um apelo para que os adeptos de todos os clubes se juntem e assinem esta petição para termos as assinaturas suficientes para irmos com a petição à Assembleia da República.

Outra questão muito debatida no seio do futebol português tem que ver com a centralização dos direitos televisivos. É uma guerra perdida pela Liga?
Acho que a centralização é algo que vai efetivamente acontecer. Não sabemos quando, mas tem de ser. A par da Ucrânia, de Chipre e da Albânia, o nosso país é o único que não tem direitos de televisão centralizados... Vai acontecer, não sabemos é quando porque há contratos em vigor e têm de ser cumpridos. Na Liga temos um princípio do qual não podemos fugir: é que ninguém pode ficar a receber menos do que recebe hoje. Se nós garantirmos que ninguém fica a perder um cêntimo que seja em relação ao que recebe hoje e conseguirmos centralizar os direitos televisivos, vamos melhorar o produto, ter uma capacidade de organização da competição totalmente distinta, as marcas dos clubes e da Liga poderão ser potenciadas nos mercados internacionais. Tudo isto é algo que nós achamos que vai acontecer, mas com esta premissa-base de que ninguém pode ficar a receber menos do que o que recebe hoje.

Isso ainda não aconteceu então porque não conseguiram convencer os três grandes de que não iriam perder dinheiro, é isso?
Não é só os três grandes que têm contratos, muitos clubes têm contratos. Há contratos em vigor até 2026 ou 2027, portanto até lá não há nada que se possa fazer.

"Pedro Proença é um presidente workaholic, acompanha tudo o que se passa na Liga"

A nível interno, na Liga, tivemos recentemente a reeleição de Pedro Proença. Apesar de algumas notícias sobre movimentações de clubes para encontrar um opositor, a verdade é que ele ganhou sem oposição e com um resultado muito expressivo (mais de 95%). É sinal de quê? De que os clubes se renderam ao trabalho feito?
Acho que a maioria dos clubes já tinha essa perceção, de um trabalho bem feito, mesmo antes daquele burburinho pré-eleitoral. Na verdade, nunca houve nenhum clube a efetivar apoio a nenhum outro candidato e acho que se calhar foi por isso que não apareceu ninguém. Penso que é óbvio o bom trabalho que foi feito nos últimos quatro anos pelo Dr. Pedro Proença: aquilo que foi a recuperação económica da Liga, que praticamente limpou já o passivo assustador que herdou, a sustentabilidade, a mudança de paradigma em relação a temas como a formação, etc. Portanto, diria que houve um reconhecimento por parte dos 32 clubes - 30 deles sem margem para nenhuma dúvida [só dois clubes não votaram a favor] - do trabalho que foi feito nestes quatro anos.

Desde há um ano assumiu estas funções de diretora executiva coordenadora, portanto desde há um ano que se pode dizer que é de facto o braço-direito de Pedro Proença?
Acho que não sou eu que devo responder a essa pergunta. Sou alguém, a exemplo das minhas colegas de direção executiva, que tem estado ao lado do Dr. Pedro Proença. A única diferença é que eu vim com ele logo no princípio, mas acho que todos os que temos passado pela direção executiva temos sido elementos importantes no percurso. Mas, obviamente, o mais importante de todos é o presidente, porque o percurso é traçado por ele, este é o plano que ele conseguiu implementar.

Como é lidar com Pedro Proença presidente da Liga. É um presidente difícil, "chato" no dia-a-dia?
É workaholic, determinado, persistente...

Liga-lhe muitas vezes durante o dia a pedir coisas?
Felizmente, hoje em dia existem ferramentas como WhatsApp, portanto é mais por mensagem do que por telefonema [risos]. Mas sim, é uma pessoa muito presente, que acompanha tudo aquilo que se passa na Liga. Tudo tem o cunho pessoal do presidente. Ele, sim, é o mais importante. Não há cá braços-direitos ou esquerdos.

"Ter um filho com necessidades especiais fez de mim melhor pessoa"

E, para si, o futebol é até quando? Já pensou nisso?
Eu sou intrinsecamente advogada. Neste momento, estou neste projeto sem saber muito bem por quanto tempo mais. Fui nomeada nesta semana para mais uma época desportiva, portanto a minha nomeação como diretora executiva é até junho de 2020. Mas isto no futebol é tão volátil, que nunca sabemos.

É casada com um treinador de futebol [Manuel Monteiro], filha de um ex-dirigente. Isso facilita que a família entenda as exigências e a exposição deste cargo de diretora executiva da Liga. Como é esse equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar?
Aceitam bem. Há alguns momentos em que recebo assim umas mensagens de "não paras de trabalhar", mas eles sabem que são ossos do ofício, que sou sempre profissional no que faço. Enquanto for fazendo isto com alento e motivação, eles compreendem.

Sei também que tem um filho com necessidades educativas especiais. De que forma é que isso a marcou no seu trajeto pessoal e profissional?
O meu filho tem uma síndrome raríssima, que se chama Smith-Magenis e que é algo que está subdiagnosticado. Há muitos meninos que acham que são autistas ou que têm paralisias cerebrais e que o que têm é esta deleção no cromossoma 17. Ele foi um ratinho de laboratório durante quase seis anos até haver um médico que quase do nada disse "se calhar é isto". Porque todos os exames que eram feitos davam que era normal, mas nós sabíamos que havia ali algum atraso no desenvolvimento. Felizmente, tudo aquilo que nós fomos fazendo fizemos bem e ele hoje é um menino socialmente integrado. Não consegue ver 90 minutos de um jogo de futebol, a menos que esteja a comer pipocas e com os phones.

Mas ele gosta de futebol?
Acho que ele não gosta, mas para estar integrado e fazer parte das conversas tem aprendido. Sabe muito mais, tem uma memória absolutamente prodigiosa e sabe muito mais dos nomes dos jogadores, das transferências, quem está a treinar aqui ou ali, do que propriamente do jogo jogado. Mas o facto de ser um menino especial fez que eu, como pessoa, crescesse a ter de superar dificuldades. E portanto essas dificuldades dele, que eu ajudei a superar, fizeram-me também superar algumas das coisas que vamos vivendo neste mundo. E é, de facto, uma aprendizagem contínua. Ter um filho especial fez-me aprender coisas de que não estava à espera e fez de mim, sem qualquer dúvida, uma melhor pessoa.

E obrigou-a também a criar rotinas especiais?
A criar rotinas, a não desiludir expectativas principalmente, o que às vezes é uma dificuldade, porque prometo que vou jantar e às vezes há reuniões que se prolongam... Mas todos os dias ele me surpreende, é o contrário. Porque todos os dias ele quer agradar, quer mostrar que faz mais alguma coisa.

E o seu marido? O facto de ser treinador faz que tenha obrigação de perceber melhor este mundo do futebol...
Sim, o facto de eu ser diretora executiva da Liga tem prejudicado a carreira dele, sendo que ele já era treinador antes de eu ser diretora executiva, mas é o que é... Ele vive com isso [risos].

O que é que faz quando quer desligar do futebol, se é que consegue desligar alguma vez?
Vejo Netflix [risos]... Não, faço muitas coisas com o Rodrigo [o filho]. O pouco tempo que temos juntos é tempo de qualidade. Vamos ao cinema, vamos passear, fazemos de vez em quando um fim de semana em que lhe vou mostrar coisas. Um dos orgulhos que eu tenho é o facto de a professora dele nos ter dito que ele tem uma cultura geral acima do normal para a idade.

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