Aconteceu em 1932 - Peditório pelos estropiados da Flandres, homenagem à "Mulher portuguesa" e decreto ditatorial

Faltam escassos meses para o partido de Hitler ganhar as eleições na Alemanha, mas a primeira página do DN de há 87 anos dedica-se à comemoração de uma batalha da Primeira Guerra Mundial, a de La Lys, em que o Corpo Expedicionário Português fora dizimado 14 anos antes. Fala de mortos e feridos e também das "senhoras piedosas" que foram para a frente cuidar dos feridos e fazem peditórios para os sobreviventes "miseráveis". E da quotização obrigatória de salários de operários para "ajudar os desempregados".

"Pelos mortos da Guerra/ Pelos nossos irmãos, que neste dia/ Ensoparam com sangue a terra fria, / Pois só nos ama e aquece a nossa terra/ e olharam e não viram (que tristeza!)/ A seu lado ninguém, nenhum dos seus/ e não ouviram a palavra "adeus" (...)/ Mas, heróis na ventura e na desgraça, / Levantaram a todas sobranceira, / A bandeira da nossa preciosa raça (...)."

O poema está do lado direito da página, assinado por Acácio de Paiva, jornalista, poeta e dramaturgo, além de formado em Farmácia; o título é o da manchete dramática - "Silêncio pelos nossos soldados mortos!" - que encima, ao centro, uma imagem a preto e branco, "Água forte inédita do mestre Sousa Lopes", representando "um canhão português inutilisado (sic) pelas tropas, na retirada de 9 de abril [de 1918]".

O texto principal é assinado por um militar, o general Ferreira Martins, subchefe do Estado-Maior do Corpo Expedicionário Português, ou seja, um dos comandantes dos homens derrotados na frente da Flandres. É um texto dedicado à "Mulher Portuguesa", com maiúsculas, e às "senhoras piedosas" que em Portugal apoiaram os soldados e as suas famílias e em França, como enfermeiras da Cruz Vermelha, foram para a frente de batalha socorrer os feridos.

Ferreira Martins diz mesmo crer que foram nove portuguesas, sob o comando de "D. Eugénia Manuel", "as únicas senhoras das nações beligerantes que prestaram serviço num hospital do front" - onde se encontravam, declara, "ainda em 11 de novembro quando chegou à frente a notícia do armistício".

Especial menção recebe a "ilustre e grande patriota senhora D. Ana de Castro Osório" - jornalista, escritora, ativista republicana e uma das primeiras feministas portuguesas, fundadora, com Carolina Beatriz Ângelo (a primeira mulher a votar em Portugal) e Adelaide Cabete, da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Castro Osório, que morreria em 1935, capitaneava a Cruzada das Mulheres Portuguesas, criada para ajudar no esforço de guerra e querendo prover a órfãos e famílias dos soldados, assim como aos sobreviventes.

E prover é necessário, sublinha o general: "Vão já remotos os ecos dessa batalha formidável em que os portugueses deixaram 614 mortos no campo da honra. Mas cada dia e a cada hora bate ainda hoje à porta da Liga dos Combatentes a miséria confrangedora de muitas centenas dos que lhes sobreviveram, uns mutilados outros gaseados outros loucos e outros ainda arrasados para sempre pela vida depauperante das trincheiras da Flandres ou pelas febres contraídas nas árduas campanhas de Angola e Moçambique, e a par desses centenas de viúvas e de órfãos imploram persistentemente da Liga as pobres migalhas que esta a custo lhes pode conceder."

E porque nem a Liga terá o suficiente para tantas bocas e necessidades nem o Estado acode aos que por sua ordem foram combater, o general apela ao "sempre bondoso público de Portugal" para que deponha o "óbolo" (esmola) nas mãos das mulheres que vão fazer um peditório, neste mesmo dia, 9 de abril de 1932, "para minorar a miséria oculta das inúmeras vítimas da Grande Guerra".

O rendimento mínimo pago pelos trabalhadores aos desempregados

No canto inferior esquerdo da primeira página, encontra-se uma notícia relacionada não com a guerra de há 14 anos mas com a miséria e a ausência de apoio do Estado. É de um aviso do Ministério das Finanças que se trata. Com o título "Auxílio aos desempregados", diz-se que o governo, "para debelar a crise do trabalho", vai iniciar obras no valor de 30 mil contos em Lisboa. Mas, crendo que não será suficiente "para acabar completamente com o desemprego", "o governo apelou para a solidariedade de patrões e operários no sentido de obter deles uma pequena quota durante alguns meses que permitisse não deixar morrer de fome os que por circunstâncias derivadas da crise geral não pudessem conseguir trabalho".

O texto prossegue dizendo que a ordem - porque de ordem se trata - foi recebida com "simpatia" em todo o país mas que "há porém notícia de três empresas em que parte do pessoal tem manifestado relutância em auxiliar os seus camaradas desempregados não querendo perceber os seus salários com a dedução legal".

Face a isso, lê-se, o governo, "conscio (sic) de que interpretou o sentido geral da Nação ao decretar as medidas referidas e de que não pode permitir a rutura de um equilíbrio que foi expressamente salvaguardado", declara "singelamente o seguinte: 1.º O decreto sobre o auxílio aos desempregados será rigorosamente cumprido; 2.º Não é permitido às empresas tomar sobre si a quotização que compete aos empregados e operários".

É, recorde-se, de uma ditadura que se trata.

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