Jamaica. Assim na Terra como no Céu

Mala de viagem (93). Um retrato muito pessoal da Jamaica.
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Regateei o preço de uma jangada de bambu para um passeio na lagoa localizada na costa nordeste da Jamaica. Esse "rafting" custou-me 20 dólares por uma hora de passeio. Nada mau, atendendo a que neste país os preços de tudo são muito mais caros do que nos países vizinhos. Consegui-o quando disse que me ia embora. Dei uma gorjeta aos nativos para cuidarem do carro que alugara em Kingston. E embarquei. Fiz escala na ilha dos Macacos, que não os tem, mas deu para esfregar as pernas com uma argila "milagrosa". Àquela hora, já o tempo estava ensoleirado, mas disseram-me que, quando chove, o azul do lago dá lugar ao verde. Diariamente, este lugar transforma-se assim na Terra como no Céu que a espelha. Desde o início dos anos oitenta que esta é conhecida como "Lagoa Azul", o nome do filme protagonizado por Brooke Shields. A atriz tem mais um mês e um dia do que eu e foi um dos rostos que me encantou na adolescência. Nessa altura, ela era já uma jovem famosa, por ser uma das mais fotografadas e reconhecidas modelos do mundo. Fez "da inocência à experiência" o seu lema, que é precisamente o título da sua tese de licenciatura em Literatura Francesa, acerca da obra cinematográfica de Louis Malle, que a convidaria para fazer cinema. Com 15 anos, gravou no cenário paradisíaco da Jamaica, junto à cidade costeira de Port Antonio, antigamente uma pacata vila costeira até que, na década de 1880, Lorenzo Dow Baker iniciou o comércio da banana, com sucesso, cujos navios também serviram para transportar os primeiros turistas, que se alojariam nas pousadas entretanto construídas. O fluxo de gente crescia, bem como os filmes americanos ali gravados a partir de meados do século XX. Para além de Brooke Shields, as imagens de Errol Flynn, Robin Williams, Tom Cruise, Whoopi Goldberg e Daniel Craig pertencem a este cenário. Porém, as estrelas de Hollywood não são tão importantes para as gentes desta região como é, ainda, a memória de Baker, que decidiu construir o imponente Titchfield Hotel, no início do século XX, tornando o local o berço do turismo jamaicano, à volta do qual se desenvolve o modo de vida da comunidade residente. O hotel desapareceu mais tarde num incêndio, mas outros foram erigidos, captando os turistas norte-americanos. Para além do hotel, aquele empresário construiu um hospital e escolas, e pagava salários justos na apanha da banana, por isso é bem recordado. À mesa com um prato de "jerk chicken", o dono do restaurante confessou: "Baker, para nós, é como Marley para o "reggae". Se você escuta "reggae", quer dizer pouco, mas, se escuta Bob Marley, isso quer dizer muito. Bob Marley não morreu, apenas foi cantar para Deus. Ele é nosso, assim na Terra como no Céu." Quanto a mim, o que me levou aos céus naquele dia já não foram os olhos azuis esverdeados da água da adolescência, mas aquela iguaria de carne, com molho à base de pimenta, sal, tomilho, alho, canela, cebolinha e noz-moscada, acompanhada de batata frita, arroz, feijão e salada. Afinal, é isto, também, que se leva da Terra para o Céu.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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