Cloudflare. Gigante tecnológica diz que burocracia está a minar investimento em Portugal

Cloudflare quer contratar mil pessoas em cinco anos para o centro tecnológico que abriu em Lisboa no verão passado, e contribuir para tornar o país na Silicon Valley da Europa. Mas queixa-se da "estrutura burocrática e administrativa".

Cloudflare é uma empresa que fornece tecnologia que alimenta e torna perto de 50% dos sites mundiais (inclusive os portugueses) "mais seguros e rápidos". Instalou-se em Portugal no ano passado e esta semana o seu CEO, Matthew Prince, queixou-se no Twitter das dificuldades que a empresa está a sentir em Portugal. Em entrevista exclusiva ao DN/Dinheiro Vivo, Prince explica que só depois do tweet "emocional" que escreveu na quarta-feira à noite teve a abertura do governo "para ajudar a resolver os problemas burocráticos que se têm amontoado" e que "são um tiro no pé do próprio país", considera.

No Twitter, o responsável dizia que "estão a contratar muitos portugueses e a trazer os melhores e mais brilhantes da diáspora de volta ao país e a importar os melhores engenheiros", mas sublinhava: "somos bloqueados a cada tentativa".

Prince revelou que foi o seu amigo Paddy Cosgrave a convencê-lo a considerar Lisboa para o seu centro tecnológico na Europa - havia várias outras pessoas na equipa que preferiam Berlim, Paris ou Amesterdão - e que os planos para Portugal passam por tornar o atual centro no país no segundo maior da empresa, com mil colaboradores até 2025.

Neste momento, já têm 100 pessoas (incluindo o experiente Celso Martinho - conhecido como o criador do Sapo) no centro criado no verão de 2019 em Lisboa (mudaram-se já em abril para novas instalações no Marquês de Pombal) e vão contratar mais de 80 em 2021. Isto, além da empresa querer "ajudar a formar muitos portugueses em áreas fulcrais como inteligência artificial" e "contribuir para um ecossistema tecnológico aproveitando o potencial incrível do país de ter um papel crucial como centro tecnológico da Europa".

"Inicialmente, quando entrámos em Portugal, as leis pareciam ótimas, e tivemos a indicação do governo de que iria sempre ajudar se houvesse problemas", indica o CEO deste gigante da internet.

Prince diz que os problemas têm-se avolumado neste ano, inclusive antes da pandemia, e envolvem desde dificuldades dos colaboradores norte-americanos ou de outros países de sair e entrar no país "com decisões arbitrárias do SEF que não estão escritas", passando por assinaturas de documentos dificultadas pela Alfândega, a outras coisas mais simples como renovar uma carta de condução que se prolonga por meses", e que têm tornado a operação das 100 pessoas que já trabalham no centro tecnológico de Lisboa "muito difícil". "Chegámos a enviar pessoas à Madeira para ir buscar documentos, porque lá não há os problemas burocráticos que temos em Lisboa", revela.

Governo responde

O responsável, que falou connosco por videoconferência a partir dos escritórios da empresa em São Francisco, recebeu um relatório sobre o centro de Lisboa. Lá havia "muita coisa boa", mas também "mostrava de forma clara os atrasos e problemas criados pela burocracia", daí na quarta-feira sentir "necessidade de dizer alguma coisa no Twitter". "Sei que podia ter feito de outra forma, não quero prejudicar o país nem o governo, mas foi uma reação emocional", admite Prince, que criou a Cloudflare .

André de Aragão Azevedo, secretário de Estado para a Transição Digital, em reação, pediu no Twitter "maior foco em resolver a situação e menos barulho" e, depois, contactou o CTO da empresa que está a viver e coordenar o centro de Lisboa, o inglês John Graham-Cumming.

"Falámos com o Governo e agora houve maior abertura para tentar ajudar, mas o problema maior não são as leis, nem propriamente o governo, é a estrutura burocrática e administrativa", diz Prince. "Se a minha explosão no Twitter ajudar a melhorar essa situação para a Cloudflare, para as outras empresas que veem o potencial de Portugal e até para os portugueses, melhor".

Prince dá sempre a entender que a Cloudflare vai continuar no país, mas que situações como esta "limitam os argumentos até dentro da empresa para investir mais ou menos no futuro".

Ao DN/Dinheiro Vivo, André de Aragão Azevedo, que cumpriu um ano de governo em outubro depois de vários anos na Microsoft, esclarece apenas que o executivo "reafirma a importância de ouvir as empresas e, assim, auscultá-las acerca dos obstáculos que identificam".

O CEO da Cloudflare considera que "Portugal tem um clima, comida, cultura, boas universidades, um povo recetivo e agradável e muito talento que lhe dá uma combinação perfeita para recriar Silicon Valley na Europa". Daí a maior frustração com a burocracia "sem critério", "porque há aqui um potencial que não vemos em Amesterdão, por exemplo, e não queremos que seja desperdiçado".

João Tomé é jornalista do Dinheiro Vivo

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