Salários dos políticos e gestores são os que mais sobem em Portugal

Taxa de desemprego interrompeu descida que durava há mais de dois anos. Estabilizou em 6,7% da população ativa. Verão terá sido menos generoso para os jovens à procura de trabalho.

O salário médio líquido do grupo profissional dos "representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, diretores e gestores executivos" é o que mais está a subir em Portugal.

O inquérito ao emprego do terceiro trimestre, ontem divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostra que esse grupo de trabalhadores por conta de outrem passou a ganhar, em média, 1630 euros limpos por mês, cerca do dobro da média nacional, que também subiu para 891 euros mensais.

Mas este grupo profissional de topo teve uma atualização salarial (homóloga, face ao terceiro trimestre de 2017) de 7,1%, o dobro do ritmo da evolução média nacional.

O avanço salarial na classe dos representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, diretores e gestores executivos está relacionado com, pelo menos, dois fatores.

De acordo com o Ministério das Finanças (DGAEP), "a 1 de janeiro de 2018 iniciou-se o processo de descongelamento de todas as carreiras da administração pública consagrado no artigo 18.º da Lei do Orçamento do Estado para 2018 (LOE2018) que vem permitir alterações obrigatórias de posicionamento remuneratório, progressões e mudanças de nível ou escalão".

"Os acréscimos remuneratórios decorrentes dos direitos acumulados serão repostos de forma faseada em 2018 e 2019", ou seja, em 2019, os salários dos funcionários públicos, sobretudo os que mais ganham, ainda podem influenciar em alta o andamento da média salarial de topo.

O segundo fator tem que ver com a eliminação gradual da sobretaxa do IRS, cuja última fase acontece justamente nos salários mais altos.

Mas o INE mostra também que existe um terceiro fator que estará a dar gás às profissões mais bem pagas.

Ao passo que o emprego por conta de outrem total avançou 2,3% no terceiro trimestre face a igual período de 2017, o escalão salarial dos três mil euros líquidos ou mais engrossou mais de 11%, tendo agora mais de 36 mil pessoas.

Na classe dos 600 a 900 euros, onde cai o salário médio líquido nacional e onde há mais gente, a criação de emprego foi de quase 9%. Este grupo conta agora com quase 1,3 milhões de pessoas.

No fundo da tabela, o INE mostra que existem cerca de 950 mil pessoas a ganhar 600 euros líquidos ou menos por mês (ou seja, 23% da população empregada por conta de outrem), mas este grupo está mais pequeno (reduziu-se em 13%).

Geograficamente, o instituto indica que a maior progressão salarial média acontece na região centro (mais 4,6%, para 850 euros) e no norte (mais 3,5%, para 827 euros líquidos).

Na região da Grande Lisboa, a subida do salário médio ficou ligeiramente abaixo da média nacional (mais 3,4%, até 1032 euros). No Algarve a subida foi parecida (mais 3,3%, para 837 euros). O terceiro pior registo na atualização salarial acontece na região do Alentejo, onde o salário médio avançou apenas 1,8%, até 838 euros líquidos mensais.

Os Açores destoam do resto do país. Neste arquipélago, o salário médio caiu 1,6%, para 788 euros. Na Madeira o salário médio estagnou (0%, ficou nos 796 euros).

Desemprego parou de descer

O inquérito ao emprego do terceiro trimestre mostra que o mercado de trabalho continuou a melhorar de forma genérica, embora se encontrem alguns atritos.

Por exemplo, a taxa de desemprego nacional estabilizou nos 6,7% da população ativa, interrompendo assim um ciclo relativamente longo de descidas, que durava há cerca de dois anos e meio.

Em todo o caso aquele valor continua a ser dos mais baixos dos últimos 17 anos, correspondendo agora a 352,7 mil pessoas sem trabalho, em Portugal.

Segundo o INE, "a população desempregada, estimada em 352,7 mil pessoas, manteve-se praticamente inalterada em relação ao trimestre precedente, interrompendo as diminuições trimestrais observadas desde o 2.º trimestre de 2016".

O instituto nota ainda que "a taxa de desemprego dos jovens (15 a 24 anos) subiu para 20%", mas isso "corresponde ao segundo valor mais baixo da série iniciada no 1.º trimestre de 2011".

O governo, no Orçamento do Estado para 2019, estima que o nível de desemprego fique em 6,9% em 2018. Portanto, o valor do terceiro trimestre continua abaixo desta média anual.

Verão menos generoso

O novo inquérito refere, por exemplo, que esta interrupção no alívio no desemprego entre o segundo e o terceiro trimestres é explicada pelo aumento de 14,3% no número de pessoas desempregadas com idades entre os 15 e os 24 anos (mais 9,9 mil casos).

Ou seja, há sinais de que o verão, que este ano foi marcado por um abrandamento do turismo, terá sido menos generoso para as camadas mais jovens.

O INE mostra que também houve um aumento do desemprego entre "as pessoas que completaram o ensino secundário e pós-secundário ou o ensino superior (18,7 mil; 10,7%)" e que também houve um agravamento no grupo dos desempregados "à procura de primeiro emprego (8,7 mil; mais 20,5%)".

Aliás, isolando apenas os licenciados, o INE indica que este grupo de desempregados engrossou agora quase 10% face ao segundo trimestre deste ano. Há um ano por esta altura tinha diminuído 1,6%.

Há um ano, o efeito verão contribuiu para reduzir o contingente de desempregados em 3,8% entre o segundo e o terceiro trimestres de 2017. Agora, regista uma subida ligeira de 0,2%.

Mas em comparação com o mesmo período do ano passado, a situação continuou a melhorar, claramente. "Em relação ao trimestre homólogo de 2017, a população desempregada diminuiu 20,6% (menos 91,3 mil)", refere o mesmo INE.

Já a criação de empregos manteve-se em alta. O INE estima que existam cerca de 4,9 milhões de pessoas com trabalho, valor que traduz "um aumento trimestral de 0,6% (28,7 mil) e um aumento homólogo de 2,1% (99,8 mil)" no final do terceiro trimestre.

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