Do ventilador de Salazar à ambulância de Sidónio: a Cruz Vermelha fez um museu 

Cruz Vermelha juntou espólio disperso num núcleo museológico que é inaugurado este sábado. Um percurso pela acão da instituição, com passagem pela I Grande Guerra e a gripe pneumónica.


Logo à entrada, um pequeno hall guarda três momentos de uma história que já leva século e meio - ali está o ventilador que a Cruz Vermelha comprou para assistir António de Oliveira Salazar, as cestas médicas de campanha usadas ao tempo da II Guerra Mundial, e a ambulância que em 1918 terá transportado Sidónio Pais da estação do Rossio, onde sofreu um atentado.

São peças do espólio da Cruz Vermelha, que estavam dispersas e sem um projeto de conjunto e que ficam agora musealizadas num espaço que será inaugurado esta tarde pelo Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, no Palácio dos Condes D"Óbidos, em Lisboa, sede da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP).

Cada objeto guarda uma história. O ventilador - que pouco ou nada tem a ver com os equipamentos da atualidade - teve de ficar no piso térreo devido aos 300 quilos de peso. Estava até agora no Hospital da Cruz Vermelha, para onde foi expressamente adquirido para tratar Oliveira Salazar. Natália Madureira, médica que pertence à direção da CVP, conta que a anestesista, Maria Cristina Câmara, foi a Paris receber formação para saber lidar com o novo equipamento. "É um aparelho dos anos 50, para fazer ventilação controlada, havia muito poucos", conta.

O então presidente do Conselho foi internado a 6 de setembro de 1968, mais de um mês depois da queda de uma cadeira (a 3 de agosto do mesmo ano). Operado de urgência, regressaria depois a São Bento, mas acabaria por sofrer um acidente vascular cerebral que o deixou em coma, com respiração assistida. Maria Cristina Câmara (que faleceu já este ano) contaria ao Expresso, numa entrevista de 2009: "Criei, na prática, uma unidade de cuidados intensivos no quarto do Dr. Salazar".

Logo ao lado uma ambulância de tração manual (era puxada por pessoas) que, conta a tradição (mas sem confirmação histórica, sabe-se que o veículo era, se não este, um igual) que transportou Sidónio Pais, assassinado no primeiro piso da estação do Rossio, a 14 de dezembro de 1918, quando estava prestes a embarcar com destino ao Porto. Acabaria por morrer já no Hospital de São José.

O espaço museológico da Cruz Vermelha estende-se pelas paredes dos corredores do palácio dos Condes D"Óbidos, onde são exibidas as bandeiras da Cruz Vermelha Portuguesa que acompanharam as campanhas da instituição na primeira Grande Guerra e em África, bem como documentação e fotografias do Hospital de Ambleteuse, montado pelos portugueses durante a I Guerra em Pas de Calais, em França. Juntam-se-lhes documentos da Comissão Portuguesa de prisioneiros de guerra, com destaque para o registo fotográfico de um grupo de dezenas de mulheres a trabalhar numa das salas do palácio. "A CV fazia a ligação entre os prisioneiros que estavam em campos de concentração na Alemanha e as famílias, assegurava alguma correspondência, víveres, e que as famílias tivessem notícias", conta Luísa Nobre, responsável pelo serviço histórico da CVP. "Já nessa altura só havia uma entidade que tinha acesso a essa informação e aos dois lados [do conflito], que era a Cruz Vermelha".

Foi, aliás, este o princípio que presidiu à criação, em 1863, do Comité Internacional de Socorro aos Militares Feridos em Tempo de Guerra (mais tarde Comité Internacional da Cruz Vermelha), depois de o suíço Henry Dunant ter testemunhado o horror deixado pela Batalha de Solferino, no norte da Itália, em junho de 1859, e de se ter mobilizado para garantir socorro aos feridos em tempo de guerra. A 22 de agosto de 1864 era assinada a I Convenção de Genebra, que estipulava a neutralidade "das ambulâncias e dos hospitais, assim como do pessoal sanitário, das pessoas que socorressem os feridos" em tempo de guerra. Portugal, que esteve representado pelo médico e militar José António Marques, considerado o fundador da CV nacional, foi um dos 12 países que assinou a Convenção.

É precisamente Henry Dunant, que viria a ganhar o primeiro Prémio Nobel da Paz, que dá nome à sala principal do pequeno museu, onde a história da Cruz Vermelha corre a par com um pequeno retrato da história da medicina, com equipamentos médicos antigos. Por este espaço passam alguns testemunhos fotográficos da I Primeira Guerra Mundial, nomeadamente da participação feminina - Natália Madureira conta que a Cruz Vermelha foi a primeira instituição a dar formação em enfermagem a mulheres. Bem como da pandemia de gripe pneumónica que assolou o país em 1918, causando milhares de mortes. A CVP estava então incumbida do Serviço de Transportes de Doentes e acabaria por fundar um orfanato que acolheu 728 crianças órfãs - muitas tinham perdido o pai na guerra e perderam depois a mãe na pandemia. A II Guerra Mundial também passa por ali. Apesar da neutralidade portuguesa, a CVP não passou ao lado do conflito, promovendo, por exemplo, a troca de prisioneiros.

O núcleo museológico tem ainda uma sala dedicada às condecorações recebidas pela instituição ao longo dos anos, entre as quais a Ordem Militar da Torre e Espada, a mais alta ordem honorífica nacional, que integra o estandarte da instituição. O espaço fica aberto ao público, mediante marcação prévia, numa visita que pode ser também estendida ao Palácio dos Condes D"Óbidos, adquirido pela instituição em 1935.

E porquê um espaço museológico agora? "A Cruz Vermelha Portuguesa tem um património histórico imenso, certificado pela constante procura de académicos e estudantes universitários. Todo o património que estava disperso foi agora concentrado aqui", diz Francisco George, presidente da CVP. Trata-se da "musealização de alguns objetos com História. É com o conhecimento deste passado que podemos valorizar o futuro da instituição", sublinha por seu lado Paulo Estrela, historiador que participa também no projeto.

susete.francisco@dn.pt

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