Recep Tayyip Erdogan diz com regularidade que quem ganha Istambul ganha a Turquia. Aconteceu com o próprio: antes de chegar a primeiro-ministro e depois a chefe de Estado foi presidente da maior cidade do país. A derrota ocorrida nas autárquicas de 31 de março não estava no programa de um homem em deriva autoritária e na segunda-feira à noite a comissão eleitoral anunciou a repetição da eleição, que foi ganha por uma diferença de 14 mil votos, após recontagens totais em cinco das 39 divisões eleitorais da metrópole, e parciais nas restantes (votos em branco e nulos)..Os cidadãos de Istambul reagiram à notícia batendo em tachos e panelas - como já é tradição nos momentos de protesto -, mas também com marchas e cânticos. "Solidariedade contra o fascismo", "Isto é só o princípio, a luta continua" ou "direitos, lei, justiça" foram algumas das palavras de ordem dos manifestantes..Mas a mais contundente resposta surgiu do homem que recebeu 4 169 765 votos. Ekrem Imamoglu, pouco conhecido antes de campanha que cativou o eleitorado, dirigiu-se a um comício no centro da cidade e agarrou o momento. .O candidato pelo Partido Republicano do Povo, herdeiro dos valores do fundador da Turquia republicana e secular, Kemal Ataturk, fez uma declaração a um tempo carregada de emoção, desafiadora mas otimista: "Ninguém pode bloquear a democracia desta nação... nós nunca desistiremos, porque eu sei que quando caminho, nunca caminho sozinho" - uma referência aos 16 milhões de habitantes de Istambul, uma metrópole com enormes projetos imobiliários parados devido à crise..Levado pela emoção do momento e enquanto os apoiantes o chamavam de "presidente Ekrem", Imamoglu despiu o casaco e tirou a gravata antes de prosseguir..Imamoglu descreveu a decisão da comissão eleitoral de "traidora" e apelou para uma união de esforços: "Estão a tentar tirar-nos as eleições que ganhámos. Vocês podem estar preocupados, mas nunca percam a esperança." E avançou com uma frase otimista como mote para a campanha: "Tudo vai correr pelo melhor." Esse slogan, #herseyçokgüzelolacak, tornou-se viral nas redes sociais..Rapidamente se descobriu que o autor da frase foi uma criança que se dirigiu ao autarca de Istambul: "Vai tudo correr pelo melhor, irmão Ekrem!".Também o líder do CHP foi contagiado pela mensagem de esperança e de otimismo: "Exorto todos os democratas da Turquia para uma missão em Istambul! O problema não é a presidência de Istambul; é uma questão de justiça, de consciência e de democracia. A democracia vai vencer", escreveu Kemal Kiliçdaroglu..A repetição das eleições vai decorrer no dia 23 de junho. A comissão eleitoral aceitou a queixa do partido de Erdogan, Justiça e Desenvolvimento (AKP), que alegou o registo fraudulento de 11 mil eleitores no subúrbio de Büyükçekmece. O próprio AKP disse que a decisão da comissão se deveu a documentos não assinados e à presença de pessoas nas mesas de voto que não eram funcionárias públicas..Erdogan e os terroristas.Para Erdogan, que falou na terça-feira no Parlamento aos deputados do seu partido, a decisão de repetir a eleição de Istambul foi "um passo importante em direção ao fortalecimento da democracia", tendo descrito a votação de março uma "ilegalidade total" marcada por "corrupção organizada"..O líder agitou o fantasma da sabotagem e prometeu defender-se dos ataques à economia usando de todas as armas que tiver ao seu alcance. "Podemos ter deficiências, mas o cenário que estamos a enfrentar hoje é um estado completo de sabotagem. O que vamos fazer? A partir de agora, faremos o que fizemos aos terroristas.".As ameaças do presidente turco estenderam-se aos empresários, cuja associação profissional reagira com "preocupação ao regresso à atmosfera eleitoral numa altura em que há a necessidade de se concentrar em planos de reformas económicas e democráticas profundas". "Vemos que algumas associações empresariais têm feito declarações bizarras", disse perante os deputados, para de seguida dizer que aquele grupo deve saber o seu lugar, caso contrário "vai mudar de ideias" sobre os empresários. Uma advertência velada..Decisão incompreensível.Os aliados ocidentais da Turquia expressaram preocupação com a anulação das eleições. A chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, declarou que a "justificação para esta decisão de grande alcance, tomada num contexto altamente politizado, deve ser disponibilizada sem demora para escrutínio público". Em comunicado, a dirigente italiana salientou a importância de um processo eleitoral "independente, aberto e transparente" e com observadores internacionais..Mogherini aproveitou ainda para criticar a comissão eleitoral, que invalidou as candidaturas vencedoras de sete candidatos no sudeste do país, onde prevalece a minoria curda. "As decisões são contrárias ao objetivo central de um processo eleitoral democrático, que consiste em assegurar que a vontade do povo prevaleça. Prejudicam igualmente o processo eleitoral em que o povo turco demonstrou o seu empenho.".O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, afirmou que a decisão "não é transparente nem compreensível". Para Maas, a escolha "pode e deve ser decidida unicamente através da vontade dos eleitores".."Esta decisão escandalosa demonstra como a Turquia está à deriva em direção a uma ditadura", disse por sua vez o líder dos liberais no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt. O belga lembrou que perante esta liderança, "negociações de adesão [da Turquia à UE] são impossíveis"..A holandesa Kati Piri, relatora do Parlamento Europeu para a Turquia, reagiu no Twitter: "Erdogan não aceita a derrota e vai contra a vontade do povo (...) Isto acaba com a credibilidade da transição democrática através de eleições na Turquia.".Economia treme.Os investidores reagiram com nervosismo ao clima de incerteza política e da confiança no estado de direito. A lira turca caiu 1,3% contra o dólar depois da decisão da comissão eleitoral, e atingiu uma desvalorização de 14% este ano, o nível mais fraco desde a crise cambial do ano passado, que já então fez a moeda turca perder quase 30% de valor.."O mercado já temia que a votação fosse anulada. Agora, o Estado de direito está sob o escrutínio dos mercados... e há dúvidas sobre se a Turquia poderá superar seus desafios imediatos sem uma âncora externa como o FMI", disse Kiran Kowshik, analista da UniCredit, à Reuters..A isto junte-se a inflação de quase 20% e o desemprego de 15%..Istambul, o principal centro comercial da Turquia, corresponde a um terço da atividade económica do país. Além das preocupações relacionadas com a incerteza eleitoral e a capacidade de resposta da economia e do banco central turco, a Turquia, membro da NATO, está sob ameaça de sanções dos Estados Unidos, caso avance para a aquisição dos sistemas de defesa antimíssil S-400 russos.