Entre as saudades do passado e as utopias do futuro

Aproveitando a pandemia, o medo, o isolamento forçado, a paragem de muitas actividades, o trabalho a partir de casa, a crise económica e a injecção de dinheiros públicos na economia e na resposta social, há muita gente com vontade de mudar o mundo. O que não é necessariamente mau, porque o mundo vai mesmo mudar. O problema é quando querem impor a todos a sua visão do futuro, aproveitando o reforço do papel, mesmo que provisório, do Estado. O risco é o de sempre: ganha-se em suposta perfeição o que se perde em real liberdade e pluralidade.

A maior parte de nós, se pudesse, voltava a Janeiro ou Fevereiro. Aos beijos e abraços, aos restaurantes, aos centros comerciais, às escolas, aos jantares de amigos, aos empregos de que muitos até nem gostam, mas de que quase todos precisam. Aos desequilíbrios globais a que estávamos habituados. A maior parte de nós, se pudesse, voltava ao passado porque o passado, com defeitos, é um lugar conhecido e previsível. Michael Oakeshott chamava mais ou menos a isto a disposição conservadora: a preferência pelo que é familiar. Não será universal, mas é muito generalizada. Não é perfeita, mas é confortável.

Contra esta tendência há, porém, dois movimentos: a realidade e a vontade de alguns. A realidade obriga-nos a adaptar; a vontade de alguns quer definir o futuro de todos. A adaptação é democrática e, mesmo que não seja preferível, é lúcida. A vontade de alguns, pode parecer perfeita, mas não deixa de ser uma tentativa de desenhar o futuro e modelar os outros à maneira de ver de alguns. É esse o risco em curso.

Goste-se ou não, não voltaremos ao passado. Nunca mais será de novo Janeiro ou Fevereiro passados. Nuns casos vamos nos habituar - oxalá apenas temporariamente - a viver pior. Noutros, vamos inventar respostas. A História da Humanidade, sobretudo da que foi sobrevivendo, é a de descobrir respostas aos constrangimentos, em geral, e às crises, em particular. Somos adaptáveis e, com maior ou menor dor, adaptar-nos-emos. Mas para isso é preciso que o futuro não seja desenhado apenas por alguns. Em tempos de crise, é preciso que se libertem todas as energias. O que dá razão aos visionários é a prova do tempo, não a imposição.

É provável que parte desta experiência de teletrabalho deixe algumas marcas positivas que possam ser aproveitadas, talvez o espírito de entreajuda reforce a ideia de comunidade, quem sabe não virá a haver algum repovoamento do interior. Não querer nem deixar que nada mude seria uma perda de tempo e de aprendizagem. Querer impor uma mudança específica é outra coisa.

A injecção de dinheiro público na economia e na reposta social vai-se fazer com programas, como os investimentos e reformas, por exemplo, que Bruxelas condicionará a troco do financiamento da recuperação.

A utilização de fundos para promover prioridades políticas não é uma novidade nem é errada. A Europa tem passado a vida a fazer isso. Mas há uma enorme diferença entre ter prioridades claras ou ter soluções únicas. Uma coisa é achar que sabemos quais são os problemas a que queremos responder; outra coisa é achar que só há uma resposta e querer impô-la. A neutralidade tecnológica, a concorrência, um Estado de Direito que impõe regras e garante o mercado são fundamentais para que não seja o Estado, mas antes a criatividade e a competição, a descobrir as melhores respostas.

Quem acha que, aproveitando uma crise, se muda o mundo para melhor usando a regra e o esquadro dogmaticamente nunca aprendeu nada de útil com a História.

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