Santo António. Provavelmente, o santo mais popular do mundo

Itália, Brasil, Macau, Índia, Polónia e Sri Lanka são alguns dos países onde o culto do santo é mais forte - este é, provavelmente, o mais popular de todos os santos da Igreja. Os devotos de 80 países que costumam visitar a Igreja de Santo António, em Lisboa, são a prova disso.

É, muito provavelmente, o mais popular de todos os santos. Por cá, e por onde passaram os portugueses, é conhecido como Santo António de Lisboa. Mas Pádua, onde morreu, também o reclama seu, pelo que na Europa é mais conhecido como Santo António de Pádua. Leão XIII, Papa entre 1878 e 1903, estava certo quando disse que é "o santo de todo o mundo", pois o seu culto está espalhado por todos os continentes.

"Não há nenhum fenómeno de popularidade tão grande de um santo canonizado pela Igreja. É um santo popular e de devoção universal", conta Francisco Sales, reitor da Igreja de Santo António de Lisboa. Segundo o frade, "em todos os cantos do mundo há representações" deste santo, "até mesmo fora do catolicismo". Entre os muçulmanos, por exemplo, "há uma grande devoção a Santo António".

A fama de pregador, sábio e santo deu-lhe uma projeção universal. Francisco Sales considera que se tornou popular "pela sua santidade, simplicidade e humildade", bem como por ser "um grande taumaturgo". Por todo o lado, "criou-se uma devoção muito ligada a Santo António para procurar milagres, cura, ajuda para tudo e mais alguma coisa". Em sintonia, o sagrado e o profano difundiram-se pela Europa e pelo mundo.

"Itália é talvez o país onde existe maior devoção" a António. "Basta dizer il santo que já se sabe que estamos a falar de Santo António." Mas é curioso, diz frei Sales, pois ao fazer geminação com um seminário perto de Nápoles percebeu que "enquanto em Lisboa as preces estão relacionadas com a procura de noivo para casar, em Itália é mais para ter filhos".

Em Portugal, o santo franciscano é naturalmente bastante venerado, "porque é nosso", mas, além disso, "o culto é muito forte e está muito enraizado nos países onde se deu a expansão portuguesa e de missionação portuguesa".

É o caso da Índia, país de um elevado número de devotos e onde, segundo Francisco Sales, António é representado "com o Menino ao colo e uma cobra enforcada numa corda". No território de Goa, onde foi edificada a Real Capela de Santo António, era comum rezar-se a trezena nos 13 dias antes da procissão que marcava o 13 de junho. Já no Sri Lanka, "é capaz de ser um dos santos mais fortes". Um dos atentados que ocorreu no país, na Páscoa, foi precisamente na igreja do taumaturgo português em Kochchikade.

O culto do santo casamenteiro e que encontra os objetos perdidos está também muito presente no Brasil. Sofia Vasconcelos Nunes, investigadora do Gabinete de Estudos Olisiponenses a trabalhar em parceria com o núcleo de Santo António do Museu de Lisboa, diz que este "tem uma forte presença como padroeiro das festas populares e protetor pessoal". Com a mudança da corte portuguesa para o lado de lá do Atlântico, em 1808, intensificou-se esse culto, "porque o rei levou consigo a devoção antoniana". Atualmente, essa presença mantém-se não só na fé e nos festejos, como também na música popular, erudita e profana, na arte e na literatura.

Macau também tem uma forte tradição de veneração a Santo António. "Há uma procissão no dia 13 de junho em que sai para a rua com as suas vestes militares, uma representação que remonta à chegada dos portugueses" à região, conta a investigadora, doutorada em História. A Igreja de Santo António em Macau é, inclusive, uma das mais antigas do país, tendo sido construída em bambu, em 1565. Em Timor, a devoção ao santo franciscano também é muito grande, sendo assinalada igualmente a 13 de junho.

No continente africano, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe são os países onde o culto antoniano é mais forte, por terem sido espaços que estiveram sob a administração dos portugueses. No Congo, ainda há vestígios do movimento dos "antoninhos", que veneravam "Toni Malau" por influência de Kimpa Vita, fundadora do antonianismo.

Sofia Vasconcelos Nunes explica que, mesmo durante a sua vida, António - ou melhor, Fernando de Bulhões - já era muito popular. "A sua natureza era de tal forma carismática que havia uma ligação com a população." Não admira, por isso, que "o seu culto se tenha espalhado como um incêndio que correu o mundo".

Pelas mãos dos franciscanos, o culto estendeu-se também à China e às Filipinas. Na China e no Japão, "onde o cristianismo está bastante presente, também têm uma grande estima por Santo António, com diferentes manifestações", diz a investigadora do Gabinete de Estudos Olisiponenses a. Há igrejas e capelas dedicadas ao santo, bem como altares e culto privado.

Pela Igreja de Santo António, em Lisboa, passam anualmente cerca de 300 mil pessoas de 80 países, o que dá a Francisco Sales uma ideia dos países por onde estão espalhados os devotos do santo. Depois dos italianos, são os polacos quem mais visita o local de culto. "Podíamos pensar que é um movimento turístico, mas não. Vêm com sacerdotes para celebrar a missa no local onde Santo António nasceu."

António é também muito acarinhado em França, onde pregou durante a sua vida. "Imagine-se que até na Bielorrússia e na Rússia existe devoção a este santo", conta o reitor da Igreja, acrescentando à lista países como Nova Zelândia, Austrália, Irlanda e Coreia do Sul. Francisco Sales refere, ainda, os EUA, onde no estado do Texas encontramos a cidade de Santo António, que deve o seu nome ao português.

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