O Montijo e o clima

Lisboa tem sido das capitais europeias mais atingidas pelo turismo de massas e o aeroporto do Montijo irá agravar essa tendência. Deve ser assim? Ou seguir a alternativa de outros países da Europa Ocidental em que o público está a substituir o transporte aéreo pelos comboios?

Opúblico pode perceber pouco de aeroportos, mas percebe seguramente de avaliação de processos de decisão política. A construção do novo aeroporto de Lisboa não está bem explicada e há indícios de que a decisão não segue os melhores cânones. Isso é particularmente sério dado que a construção de um novo aeroporto vai contra a corrente da preocupação com a "emergência climática". Na verdade, o transporte aéreo e a produção de plástico são os dois setores em que a diminuição do consumo de combustíveis fósseis é menor ou mesmo irrelevante. Não se vislumbram para o futuro próximo aviões elétricos e os plásticos terão de ser substituídos. Um aeroporto é um investimento numa tecnologia que está a tornar-se obsoleta. É um problema ambiental, mas também um problema de sustentabilidade financeira do investimento. É preciso fazê-lo? Não sabemos responder cabalmente. O que sabemos é que o processo de decisão política tem muito de criticável - e de obsoleto. Vejamos.

Nunca ninguém poderá explicar cabalmente o erro que foi a venda pelo Estado da ANA, ainda por cima à Vinci, uma empresa que, embora tenha comprado outros aeroportos na Europa, é sobretudo de construção civil e de grandes obras públicas. Ao privatizar todos os aeroportos do país, o governo de Passos Coelho e Paulo Portas retirou ao Estado poderes de decisão quanto ao desenho estratégico da rede de aeroportos nacionais. A decisão de construção da extensão do Montijo é, assim, uma decisão de uma empresa privada, especializada em construção. Para além disso, a Vinci, como é sabido, tem interesse em aumentar o tráfego na travessia do Tejo, sobretudo rodoviário, uma vez que tem uma participação na Lusoponte, esse outro fruto de uma momentosa decisão de um governo do PSD, e interesses garantidos quanto a uma eventual terceira ponte em Lisboa. Com estes dados de partida, não restam dúvidas de que a explicação da necessidade do novo aeroporto deve ir para além do "andamos há 50 anos a discutir o assunto".

Segundo declarações oficiais, a TAP não poderá utilizar o Montijo, pois este não serve para fazer ligações, parte importante do negócio da mesma companhia em Lisboa. Assim, o Montijo vai servir sobretudo para as chamadas low cost. As companhias aéreas vivem num mundo de cargas fiscais que não refletem os custos negativos da respetiva atividade. Um dia, esse desvio será corrigido e a intensidade dos voos turísticos terá de crescer a um ritmo mais lento. Lisboa tem sido das capitais europeias mais atingidas pelo turismo de massas e o Montijo irá agravar essa tendência. Deve ser assim?

Caso o Montijo não seja construído, qual seria a alternativa? A alternativa seria aquela que segue as mais recentes tendências dos países avançados da Europa Ocidental, em que o público está a substituir o transporte aéreo pelos comboios. Essa mudança de comportamentos foi fortemente impulsionada pelas manifestações de jovens e ativistas preocupados com a chamada emergência climática. No último ano, na Suécia, um dos países de origem desse movimento, o transporte aéreo interno teve uma queda substancial, tendo sido substituído pelo transporte por comboio, e há uma preocupação cada vez maior em diminuir as viagens de avião ao estrangeiro, sobretudo as de estada curta, especialidade das tais low cost do futuro Montijo. Um investidor preocupado com o longo prazo tem de ter em consideração estas alterações de comportamento e, mais importante ainda, o que está por trás delas.

Portugal tem dado algumas cartas ambientais importantes, desde a criação de reservas ecológicas, de parques naturais e a negação do nuclear, nas décadas de 1970 e de 1980, à defesa de Foz Coa, nos anos 1990, ou ao desenvolvimento das energias limpas, dos anos 2000 para cá (mesmo que esta última carta tenho sido lançada numa conjugação de interesses de um primeiro-ministro sob suspeita de corrupção, um banco entretanto levado à falência e uma empresa que capturou o Estado). Durante algum tempo, o país discutiu a construção de caminhos-de-ferro de alta velocidade, discussão que entrou num limbo. A má imagem da alta velocidade ferroviária aconteceu na mesma conjuntura política, felizmente já afastada, que levou à venda da ANA. Ora, será talvez agora o tempo de voltar a essa discussão. O Montijo vai custar, dizem, mil milhões de euros. Esse investimento não seria mais bem aplicado em caminhos-de-ferro? Dizem que é investimento privado e que por isso nada custa ao "contribuinte". Pois, mas esse argumento não colhe, uma vez que se trata de infraestruturas fundamentais. A distinção entre contribuinte e pagador de tarifas aeroportuárias é meramente ideológica.

O comboio de alta ou média velocidade é alternativa ao Montijo? Mais uma vez, não sabemos. O que sabemos é que precisamos de mais e melhor informação. Neste momento, a intuição atenta ao que se passa no resto do mundo industrializado aponta para a conclusão de que o Montijo não faz todo aquele sentido que a Vinci e o governo defendem. Fiquemos abertos ao contraditório.

Investigador da Universidade de Lisboa

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