A jangada de pedra anglo-saxónica 

A ilusão de uma "relação especial" dá a Donald Trump uma vantagem negocial extra sobre Londres que, no dilema existencial em que se encontra, se submete sem criticar. A relação entre EUA e Reino Unido é, como sempre foi, muito mais desigual do que especial, além de expor uma dinâmica perigosa para os interesses de pequenos Estados europeus, como Portugal.

Houve tempos em que a relação entre os EUA e o Reino Unido era descrita como "especial". Para chegarmos à ternura do termo, que de político pouco tem, fomos sobrevalorizando as relações de proximidade entre os seus líderes, esquecendo a divergência de interesses que tantas vezes os separou. Podíamos lembrar a rejeição inicial de George Marshall à proposta de Ernest Bevin (1947) em criar uma aliança permanente entre alguns países europeus ocidentais e os EUA, os quais só cederiam em 1949, assinando o Tratado de Washington fundador da NATO. Ou a crise do Suez, o momento mais fraturante do pós-guerra entre Reino Unido e EUA, terminando com uma verdadeira humilhação para Londres. Ou, em plena guerra do Yom Kipur, quando os britânicos, a par dos franceses, não apoiaram as iniciativas militares de Israel, nem tão-pouco a proposta patrocinada na ONU pelos norte-americanos de aceitação das fronteiras israelitas pós-1967. Ou ainda a pouca simpatia sentida em Washington quando Edward Heath oficializou a adesão britânica à Comunidade Económica Europeia. Ou mesmo o renitente apoio inicial de Reagan aos britânicos em plena guerra das Falkland, ou o distanciamento entre a administração Clinton e o governo de John Major, fruto da participação ativa dos conservadores britânicos na campanha eleitoral de George H. Bush.

Se definirmos "relação especial" como um conjunto de mecanismos institucionais alargados, cujo entendimento estratégico entre dois Estados é tão aprofundado que não permite quaisquer divergências por motivos de defesa dos interesses nacionais, então este conceito carece de veracidade na política internacional. Nem mesmo com Tony Blair isso aconteceu, sobretudo no pós-guerra do Iraque. Além do mais, no caso das relações anglo-americanas, este conceito teve sempre muito mais importância para Londres do que para Washington, em razão da diferença de poder. Vale a pena, por estas razões, olhar para os chavões do costume com sentido crítico, tirando-lhes o tom apolítico oco que em nada ajuda à compreensão da realidade. É no meio deste efeito inebriante que políticos como Trump acenam com caminhos virtuosos, num canto da sereia tão enganador como manipulador.

Nesta semana, em pleno ocaso de Theresa May e com uma corrida a primeiro-ministro em aberto, Donald Trump chegou a Londres, viu e venceu. O seu interesse por relações especiais é o mesmo que tem por relações banais, o que lhe permitiu ditar o roteiro de saída do Reino Unido da UE (brutal e quanto antes), escolher o candidato a líder conservador e chefe do governo por inerência (Boris Johnson), dar recados a quem tende a valorizar o acordo fechado por May (Michael Gove), celebrar a relação ideológica com Nigel Farage e, não menos relevante, acenar com um acordo comercial bilateral pintado a ouro, criando uma expectativa absurda com o objetivo de acelerar o divórcio litigioso entre Londres e a UE. Com uma relação mais desigual do que especial, Trump faz de conta que é um credível negociador e o Houdini dos acordos extraordinários. Nada mais falso. Nestes dois anos e meio de Casa Branca a uma conclusão chegámos: Trump é de facto imparável a rasgar acordos, mas um fiasco na celebração de novos. Bem sei que a sua missão não passa por criar mecanismos estáveis de cooperação internacional (comerciais, climáticos, securitários), mas isso só deveria adensar a desconfiança nas suas promessas.

Só um Reino Unido no estado político penoso em que está cairia neste engodo, expondo uma brutal fragilidade governativa e a débil legitimidade das suas decisões estratégicas. Afinal de contas, serão os 128 mil militantes do partido conservador a escolher o primeiro-ministro que tomará as grandes decisões para as próximas décadas. Ao incitar a saída apressada do Reino Unido da UE, ao mesmo tempo que negoceia acordos comerciais com ambos, Trump dá dois tiros no porta-aviões: com Londres senta-se à mesa com a faca e o queijo na mão; com Bruxelas regateia com mais força agora sem os britânicos na equação comunitária.

A oficialização desta jangada de pedra anglo-saxónica torna ainda mais óbvia a continentalização da política europeia. Se, por um lado, é a primeira vez que na democracia portuguesa os nossos dois principais aliados atlânticos procuram ruturas (Reino Unido com UE) ou ameaçam com saídas (EUA com a NATO), transfigurando ou esvaziando as nossas duas grandes alianças estratégicas; por outro, o contexto europeu mais macro faz soar alarmes que nem as recentes europeias, por mais positivas que possam ter sido, conseguiram silenciar. Falo da desconfiança que existe entre Estados membros do norte ao sul, do ocidente ao leste, bem como da indefinição em curso sobre o rumo a seguir pelas instituições europeias, cuja força também dependerá da escolha dos seus protagonistas.

Além disso, a centralidade de um eixo continental criado pela deriva anglo-saxónica esbarra na falta de convergência estrutural das economias do euro, na lentidão do seu roteiro de reformas, na ausência de músculo político por parte do presidente francês para lidar com tantos desafios existenciais à Europa, nm governo alemão em deslassamento e de eixos equilibradores variáveis à espera dos tropeções franco-alemães. Portugal, um dos países mais expostos a estas dinâmicas, vai ser obrigado a escolhas difíceis, condicionado a decisões duradouras, influenciado a tomar posições incómodas. Infelizmente, o debate nacional continua a ser perigosamente silencioso sobre tudo isto.

Investigador universitário

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