Bolsonaro tornou-se um dos 1.643.539 infetados com Covid-19 no Brasil

O anúncio foi feito pelo próprio presidente, depois de revelar ter sentido sintomas no domingo e na segunda-feira. Ele afirma que já está a tomar hidroxicloroquina. Perto de 40 autoridades estiveram com ele nos últimos dias. Opositores e imprensa recordam declarações como "gripezinha", "histórico de atleta" e outras

Jair Bolsonaro anunciou ter testado positivo para Covid-19 nesta terça-feira no Palácio do Alvorada. "Mais cedo ou mais tarde sabíamos que ia atingir uma parte considerável da população, eu mesmo, se não tivesse feito exame, que deu positivo, não teria sabido que tinha a doença", disse o presidente da República do Brasil em conversa com a imprensa por volta das 16.30, hora portuguesa.

Segundo os números oficiais havia até ontem 1.643.539 brasileiros contaminados e 66.095 óbitos.

"Começou domingo, com uma certa indisposição, agravou-se na segunda-feira, com cansaço, indisposição e febre de 38 graus. O médico da presidência, apontando a contaminação por covid-19, pediu para fazer uma tomografia no hospital. A equipa médica decidiu dar hidroxicloroquina e aztromicina. Como acordo muito durante a noite, depois da meia-noite senti uma melhora, às 5 da manhã tomei a segunda dose e estou me sentindo bem", disse Bolsonaro, que tem 65 anos, ou seja, está no grupo de risco.

O presidente do Brasil cancelou todas as atividades exteriores da agenda. Mas afirma que vai continuar a trabalhar de casa, nomeadamente na busca de um ministro da educação - o governo não tem ninguém no cargo desde o início de junho depois de dois convites recentes terem acabado por não se concretizar.

"Pode ver, fui muito criticado pelas minhas posições no passado. O objetivo final do isolamento social não é dizer que você não vai contrair o vírus, é fazer com que esse vírus fosse diluído ao longo do tempo para evitar que houvesse acúmulo em hospitais por falta de leitos ou de respiradores", continuou o presidente.

"Tendo em vista esse meu contacto com povo, bastante intenso nos últimos meses, eu achava até que já tivesse contraído e não percebido - como a maioria da população brasileira que contrai o vírus não percebe o problema, a contaminação. O que eu posso falar para todo mundo aqui. Esse vírus é quase como, eu já dizia no passado e era muito criticado, era como uma chuva, né, vai atingir você, né? Alguns, não. Alguns tem que tomar um maior cuidado com esse fenômeno por assim dizer", afirmou ainda.

"IRRESPONSABILIDADE"

No final da conversa com os repórteres, Bolsonaro tirou a máscara, deu dois passos atrás e mandou mensagem à população, ato considerado perigoso por especialistas. Alguns sugeriram que um anúncio deste tipo fosse feito por videoconferência e não ao vivo.

"Acho irresponsável alguém que acabou de receber o diagnóstico da doença e, sabidamente sintomático, ficar se expondo ao público. É prejudicial. Todos sabemos que ele é negacionista e, portanto, nem sabe quais são os cuidados que tem que tomar para evitar contaminações", disse o infectologista Caio Rosenthal ao portal UOL.

Para Bruno Boghossian, colunista do jornal Folha de S. Paulo o presidente "quis fazer do anúncio um espetáculo político".

Entretanto, Bolsonaro esteve com, pelo menos, 35 autoridades nos últimos tempos. Membros do governo como o ministro da defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, já até realizaram os testes.

No último sábado, Bolsonaro participou de um almoço ao lado do embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, em Brasília, para festejar o 4 de julho, dia da independência dos EUA. O presidente foi acompanhado por ministros e pelo filho deputado Eduardo Bolsonaro. Todos posaram para fotos sem máscara. O governo dos EUA já confirmou que Chapman passou por teste para verificar se está com covid-19 mas deu negativo.

A primeira reação ao anúncio partiu de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, com quem Bolsonaro tem mantido conflitos. Maia desejou-lhe "as melhoras rápidas" e disse que a prova de que a doença "é grave".

O primeiro dos ministros da saúde a demitir-se em choque com Bolsonaro, também desejou as melhoras, mas mandou recado a Bolsonaro. "Ficar em Brasília, sem máscara, abraçando gente, indo a praça, ele estava em flirt com o contágio", criticou Luiz Henrique Mandetta. O médico e ex-ministro pediu ainda para que o presidente aproveite o período de recuperação para uma reflexão.

O ex-juiz Sergio Moro, que desde que se demitiu do ministério da justiça se tornou adversário político do presidente, desejou apenas um rápido restabelecimento pelas redes sociais.

Fernando Haddad, candidato derrotado em 2018 por Bolsonaro na segunda volta das eleições, foi mais crítico. "Lamento pelos mais de milhão e 600 mil brasileiros infetados e pelo facto de termos entre nós o pior gestor de crise do mundo. Desejo que todos se restabeleçam, inclusive Bolsonaro. Aos familiares dos que se foram em meio ao descaso do governo, meus sinceros sentimentos".

Sâmia Bonfim, deputada do PSOL, partido de esquerda e portanto das oposição, perguntou "será que a contaminação de Bolsonaro vai fazê-lo repensar o plano de obrigar o Brasil a atravessar a pandemia sem ministro da saúde? Ou a ideia dele é ampliar ainda mais o lobby da cloroquina? Será empático com as demais vítimas? Ou seguirá defendendo a morte? O Brasil cobrará".

A "GRIPEZINHA"

Uma das hashtags mais partilhadas da rede social Twitter no Brasil, entretanto, foi "força covid", divulgada sobretudo, claro, por opositores do presidente. O ex-vereador Carlos Bolsonaro e outros bolsonaristas responderam que "há muitos Adélios Bispos à solta", numa alusão ao homem que esfaqueou Bolsonaro em campanha eleitoral.

Ao longo dos últimos meses, Bolsonaro foi criticado por ter participado em manifestações e outro tipo de aglomerações sem máscara e dando abraços e beijos a apoiantes. Em março chamou a doença de "histeria", primeiro, de "gripezinha", depois, e disse ainda que, tendo "histórico de atleta", não temia contaminação, conforme a imprensa recordou nas últimas horas.

Sobre as mortes de compatriotas com a doença, sublinhou não ser "coveiro", já em abril, e respondeu "e daí?", quando confrontado com o recorde de mortes diárias, no dia 28 daquele mês.

Desde março, Bolsonaro já fizera outros três testes para detecção do coronavírus após regressar de viagem aos Estados Unidos, na qual mais de 20 pessoas que tiveram contato com a comitiva tiveram a doença.

Em maio, em ação movida pelo jornal O Estado de S. Paulo, o governo entregou ao Supremo Tribunal Federal os laudos dos três exames, todos com resultado negativo. Durante mais de um mês Bolsonaro recusara-se a mostrar esses exames.

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