Premium Em Portugal não há muros, nem jaulas, nem portos fechados

Já não podemos dizer o futuro convoca-nos para vários desafios, o presente é um desafio em si mesmo. Como desmantelar definitivamente o modelo de negócio dos passadores, evitando de uma vez por todas a trágica perda de vidas humanas em viagens perigosas. Já morreram mais de mil pessoas neste ano a tentar cruzar o Mediterrâneo, os passadores incentivam os migrantes como se fossem carga humana, aproveitam-se do desespero de milhares de cidadãos e famílias que têm direito a ambicionar uma vida digna independentemente da sua situação legal.

Parte do Mediterrâneo tornou-se um cemitério de gente sem nome e vai continuar se não conseguirmos um acordo para valer sobre migrações. O que fica por cima dessas mortes senão uma responsabilidade humana colectiva, e essa sim, convoca-nos a todos e pesará na consciência dos decisores políticos, esta é a prioridade.

Alguém forçado a sair do seu país de origem ou de residência para fugir a uma guerra ou por ser perseguido por razões de raça, religião, opinião política ou filiação num determinado grupo social e que por essa razão não possa regressar é, segundo o glossário das migrações, um refugiado.

Alguém que escolhe mudar de região ou de país em busca de melhores condições de vida, trabalho ou educação ou por motivos de reunião familiar é imigrante.

Num tempo em que parte da Europa e os Estados Unidos restringem e dificultam a entrada de migrantes, Portugal facilita.

Em Portugal não há muros, nem jaulas, nem portos fechados para quem quiser juntar-se a nós. A entrada de migrantes tem e terá a breve prazo um efeito positivo.

Se, por hipótese, amanhã todas as mulheres em idade fértil tivessem filhos, teríamos de esperar que chegassem à idade adulta. A natalidade a curto prazo não resolve, precisamos de um grande fluxo de imigrantes.

"Parte do Mediterrâneo tornou-se um cemitério de gente sem nome e vai continuar se não conseguirmos um acordo para valer sobre migrações"

Ainda há quem não perceba que políticas favoráveis à imigração são complementares e não são antagónicas com as políticas de apoio à família e à natalidade. Não só por uma questão de humanidade, de responsabilidade humana, como lhe chama Barack Obama, mas estamos a viver um desafio demográfico que muito beneficiaria com o acolhimento de migrantes. Há uma razão de humanismo, a razão primeira, mas também de necessidade de desenvolvimento do país, no objetivo de ter mais imigrantes. As posições que pretendem a desvalorização da necessidade de imigrantes iludem a dimensão do problema e, nalguns casos, revelam um perigoso fundo xenófobo que tem alimentado a extrema-direita pela Europa fora.

Temos um problema demográfico, todos sabemos, há diferenças de concepção de como resolvê-lo, as políticas de incentivo à natalidade, reduzindo os obstáculos para que as famílias possam ter o número de filhos que desejam, dispondo de apropriados apoios sociais, as políticas públicas de combate à instabilidade laboral e a conciliação entre a vida familiar e a profissional são necessárias mas, não nos podemos iludir, não resolvem o problema a curto prazo.

Nenhum dos desafios que temos pela frente, migrações ou alterações climáticas, será mais bem resolvido fora da União Europeia, por cada Estado membro isoladamente, por mais próspero ou populoso que seja. A Europa deve ser, antes de mais, uma União de valores.

Deputada do PS

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.