Vacinados

O escritor norte-americano Philip Roth (que se foi deste mundo sem o Nobel da Literatura que tanto merecia) é autor de Némesis, um romance que relata a luta de Bucky Cantor, monitor num campo de férias da Nova Jérsia, contra uma epidemia de poliomielite durante o Verão de 1944. O vírus, altamente contagioso, vai apanhando criança após criança, e Bucky - são e atlético - não pode fazer nada para as salvar.

Vinte anos depois deste enredo, a "paralisia infantil" - como então lhe chamavam - era ainda o papão de muitas mães nos verões da minha infância, quando a doença matava em Portugal. Lembro-me perfeitamente de o doutor Estrela - um pediatra gordo que vivia junto à praia da Poça, em S. João do Estoril, onde passávamos férias - ir vacinar-nos a casa contra uma série de doenças (não havia centros de saúde nessa altura), levando uma caixa de lata com seringas que, antes de serem usadas, já provocavam choradeira; porém, quando chegava a vez da pólio, era tudo pacífico, pois bastava uma gotinha na língua seguida de um torrão de açúcar (como se dá aos cavalos) e ficava o assunto resolvido.

É, de resto, à pólio que se deve a criação, em 1965, do Programa Nacional de Vacinação que, no ano seguinte, contemplaria também a tosse convulsa, a difteria, a varíola (quantos antebraços marcados por aquele aparo horrível!) e o tétano (antes de existir esta vacina estávamos proibidos de comer morangos lá em casa); e que, até 1987, se estenderia ao sarampo, à rubéola e à parotidite (vulgo "papeira"), para falar apenas de doenças que afectam (ou infectam) especialmente as crianças. Desde então, as taxas de mortalidade infantil em Portugal baixaram de forma significativa, tendo algumas destas doenças sido inclusivamente eliminadas do território. O último caso de poliomielite aconteceu, por exemplo, em 1986.

O que eu não sabia é que alguma vez desejaria vacinar-me contra a estupidez dos que, podendo vacinar os filhos, preferem sujeitá-los às doenças, sobretudo num tempo em que um vírus é capaz de dar a volta ao mundo em apenas algumas horas. Mas a verdade é que, segundo a OMS e a UNICEF, existem ainda 20 milhões de crianças em todo o mundo não vacinadas - e parte delas, custa acreditar, em países desenvolvidos.

Por isso, se ainda não foi de férias e queria experimentar um cruzeiro este ano, pense duas vezes: nas Caraíbas, por causa de um caso de sarampo a bordo, 300 passageiros ficaram de quarentena no navio, impedidos de sair. Esses, digo eu, estão vacinados. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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