Premium A geopolítica da inteligência artificial: quem vai ganhar a corrida à nova tecnologia?

As novas disputas de poder mundiais não serão comerciais. Serão automatizadas, dependentes do poder da inteligência artificial. Amy Webb, futuróloga americana, diz que a corrida à nova tecnologia será ganha pela China, alterando o equilíbrio político.

Na sua versão mais simples, a inteligência artificial é um sistema computorizado que toma decisões autónomas a partir de algoritmos predefinidos. Neste momento a IA está no seu grau mais simples, em que é definida como fraca: isso corresponde à execução de uma única tarefa, que pode ser algo tão simples como jogar um jogo de xadrez ou algo mais complexo como a condução autónoma de um veículo. Mas a inteligência artificial está prestes a ser realidade: isto irá acontecer quando o mesmo sistema conseguir executar diversas tarefas complexas em simultâneo graças a redes neuronais estruturadas que multiplicam as capacidades de processamento algorítmico.

Amy Webb é a futurista que dirige o Future Today Institute, uma entidade de investigação que se especializa em identificar os sinais das tecnologias emergentes. Ela sintetiza o estado atual da IA: "Em algum momento vamos ter de permitir que os sistemas informáticos aprendam sozinhos e se programem a si mesmos. Na verdade, já entrámos nessa fase, graças às redes generativas antagónicas. Imaginem duas inteligências artificiais que se treinam com o mesmo conjunto de dados: uma cria imagens de um rosto, a outra avalia quão realistas essas imagens são; baseada nessa análise, a primeira IA faz acertos até ser capaz de enganar a segunda. O objetivo não é criar imagens credíveis, é criar imprevisibilidade. O objetivo final é criar sistemas autónomos capazes de ultrapassar a inteligência humana em certos aspetos, por forma a resolver problemas altamente complexos."

Três blocos, três estratégias

A inteligência artificial é tão relevante para o futuro da humanidade que quem dominar a tecnologia vai ter enorme vantagem competitiva - a competitividade nesta disputa é frequentemente comparada pelos especialistas à corrida nuclear. E a questão é que a China está prestes a dominar este ecossistema, deixando para trás a concorrência global, por duas grandes razões.

Sem comoções com limitações éticas ou de segurança para alimentar as máquinas, que podem explorar todos os dados pessoais dos 1,4 mil milhões de cidadãos e com isso avançar muito mais depressa. Estes dados pessoais são usados para detetar padrões e definir algoritmos que servem para alimentar inteligências artificiais que está a desenvolver. E, numa época em que se afirma que os dados são o novo petróleo, a China não é o Médio Oriente, equivale a toda a OPEP.

A isto acresce que a capacidade financeira de investimento do próprio Estado está a ser canalizada para as grandes empresas, vistas como bandeiras do esforço de domínio global da China - em 2017, Pequim anunciou um plano para ser líder global em 2030 e parece que o objetivo vai ser atingido mais cedo: já neste ano, é na China que se concentram 48% do investimento global em inteligência artificial, rendendo cinco vezes mais patentes na área do que os norte-americanos. Isto terá consequências geoestratégicas tremendas, até porque o poderio da China está a estender-se a grande parte da Ásia, bem como à África e à América do Sul.

A situação americana é bastante mais complexa: a Casa Branca de Donald Trump não acredita por aí além na ciência ou na tecnologia e tem preferido investir em mercados mais tradicionais que ofereçam emprego aos trabalhadores não qualificados do rust belt norte-americano, a região que mais apoiou o presidente Trump. E por isso tem apostado em trazer de volta a exploração de carvão, acreditando em investimentos de retorno mais imediato - até porque o secretário do Tesouro Muchnik diz que a IA só vai ter efeitos daqui a 50 ou mesmo 100 anos, o que todos os especialistas dizem ser uma idiotice. Assim, no modelo ultracapitalista americano, são os imensos retornos que Silicon Valley tem tido nos últimos anos que sustentam a investigação avançada em IA.

O domínio da inteligência artificial está, em grande medida, na mão de nove grandes empresas (ver caixa) - seis são americanas e três chinesas. O problema é geoestratégico e tem implicações profundas. Amy Webb está a terminar um livro, que ficará à venda em março de 2019, intitulado The Nine, cujo objetivo é precisamente medir o pulso ao estado da inteligência artificial nas empresas que lideram a área. E não tem dúvidas: "No Ocidente, a IA serve para estimular o comércio, na China, serve para o domínio político. São essas empresas que estão lentamente a retirar-nos a capacidade de tomar decisões. A minha preocupação é que, enquanto nos maravilhamos com os progressos tecnológicos, não fazemos as perguntas essenciais sobre valores e ética. Há preconceitos nos algoritmos, mas ainda é possível inverter a situação desde que fiquemos atentos - e isso implica que a IA seja mais inclusiva e representativa, de modo a que possa distribuir melhor a riqueza e as oportunidades."

A União Europeia acordou tarde para o problema por duas razões: como não é uma nação, demora mais a tomar decisões estratégicas; e os líderes da UE escolhidos pelos Estados membros não têm primado pela juventude ou capacidade de antecipar o futuro. Foi só com esta Comissão que se tomaram decisões estratégicas: Margrethe Vestager, pelo lado da regulação, e Carlos Moedas pelo da inovação foram os responsáveis pelo novo empurrão da União em termos estratégicos - apoiados pela visão de Emmanuel Macron e pelo apoio de Angela Merkel.

Na prática, sabendo que perdeu a primeira corrida da IA, a União está a determinar dois caminhos paralelos. O novo orçamento para 2021-2027 tem cem mil milhões para ciência e tecnologia precisamente para colmatar as falhas recentes da UE neste campo, e é daqui que vai sair a aposta da criação do supercomputador com hardware e software europeu e a investigação básica sobre IA, além da aposta clara em tecnologias disruptivas como a blockchain. Esta aposta forte na investigação fundamental abre caminho à inovação e visa permitir à UE manter a liderança em setores paralelos. Ao mesmo tempo, a União está a apostar num esquema regulatório que permita a empresas não europeias aceder ao mercado único de cidadãos (e seus dados), desde que respeitem um código de conduta que dá primazia e responsabilidade aos humanos em detrimento das máquinas. Em maio, a Comissão nomeou um grupo de 52 especialistas em IA, em que se incluem representantes da academia, sociedade civil e indústria - é deles que se espera o estabelecimento de recomendações para políticas de IA em toda a União.

Regular é preciso

Amy Webb, que também presta serviços de consultoria a várias entidades oficiais, avalia o esforço de regulação europeu: "O problema é que a regulação do setor tecnológico tende a estar ultrapassada ainda antes de entrar em vigor. A UE precisaria de rever permanentemente as suas políticas para garantir que está a servir o propósito de proteger os cidadãos sem prejudicar o progresso."

Mas isto não impede a urgência de reforçar a atenção - e a regulação - sobre a inteligência artificial. Vários mecanismos automatizados já em uso têm mostrado erros tremendos que promovem a injustiça social e atacam os fundamentos da sociedade liberal, especialmente se forem formatados de acordo com princípios que não promovem a liberdade. Os algoritmos tendem a estratificar tudo pela norma, deixando pouco espaço para o indivíduo, o que é indubitavelmente útil na mecanização de tarefas mas tem consequências dramáticas quando se aplica a direitos sociais.

As nove líderes

Alibaba

É o equivalente à Amazon, a partir da China. E é de lá que parte a maior operação de retalho a nível mundial, onde se inclui o domínio de 60% do volume de distribuição do mercado chinês. Investe em tecnológicas no mundo inteiro, adquirindo tecnologia que a consagra como um gigante de IA.

Alphabet

A Google Brain é a área de IA que funciona de forma transversal no gigante mais conhecido pelo motor de pesquisa Google. Nascido em 2011, o grupo trabalha com redes neuronais profundas para acelerar a aprendizagem autónoma de programas e será provavelmente o projeto americano de maior investimento.

Amazon

A que quer ser a única loja do mundo está a investir em serviços de IA que dão corpo a tudo o que está por detrás do site: melhor sistema de recomendação, interface de voz Alexa e serviços de computação na nuvem. O investimento começou em 2011 com a compra de dezenas de startups e é já central em todos os produtos da empresa.

Apple

A empresa da maçã deu nome à sua IA: Siri, assistente virtual ativo no iPhone. Terá sido essa a principal tarefa confiada a John Giannandrea, até junho responsável pela IA na Google. Tem feito ainda investimentos enormes na área de linguagem natural, a que se sobrepõe o esforço na aprendizagem automática para sistemas iOS.

Baidu

Concorrente da Google à dimensão chinesa, é o maior motor de pesquisa da Ásia e um gigante em receitas publicitárias. Deu o salto para a IA como o concorrente: através da capacidade de processamento na nuvem, assistente de voz e uma suite de produtos já com aprendizagem automática, além de carros autónomos e outros investimentos.

Facebook

Só criou o grupo de investigação em 2014, mas tem investido massivamente desde aí. Desenvolveu um bom exemplo de redes generativas antagónicas, ao criar um programa especializado em substituir olhos fechados por abertos nas fotos de milhares de utilizadores. E já em setembro apresentou um projeto de tradução baseado em IA que é muito superior aos concorrentes.

IBM

Desde que o Deep Blue venceu Kasparov num jogo de xadrez em 1997 que o gigante americano criou um historial na investigação relacionada com inteligência digital. Watson, a maior aposta da empresa, é um sistema treinado para responder a questões por aprendizagem automática, graças à análise massiva de dados e que corresponde ao grande projeto comercial da empresa.

Microsoft

A dona do Windows e do Office aproveitou a IA para se reinventar, explorando novos produtos e serviços. Tem investido em startups promissoras, como a recém-anunciada aquisição da Lobe, que permite aplicar mecanismos de IA a programas sem que seja necessário escrever código, o que pode abrir o acesso aos não programadores.

Tencent

Será a menos conhecida no Ocidente, mas é um gigante tecnológico global. É dona do WeChat, a maior rede social do planeta que começou por imitar o Facebook mas já vai muito além porque é também plataforma de pagamentos móveis - concorrendo com a Visa e a Mastercard - até porque tem acesso a todos os dados dos seus utilizadores e pode alimentar com eles a sua IA.

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1. A perseguição aos cristãos foi particularmente feroz durante a Revolução Cultural no tempo de Mao. Mas a situação está a mudar de modo rápido e surpreendente. Desde 1976, com a morte de Mao, as igrejas começaram a reabrir e há quem pense que a China poderá tornar-se mais rapidamente do que se julgava não só a primeira potência económica mundial mas também o país com maior número de cristãos. "Segundo os meus cálculos, a China está destinada a tornar-se muito rapidamente o maior país cristão do mundo", disse Fenggang Yang, professor na Universidade de Purdue (Indiana, Estados Unidos) e autor do livro Religion in China. Survival and Revival under Communist Rule (Religião na China. Sobrevivência e Renascimento sob o Regime Comunista). Isso "vai acontecer em menos de uma geração. Não há muitas pessoas preparadas para esta mudança assombrosa".