Brasil, tudo menos o Messias anunciado

Nas eleições de que todo o mundo fala, o Brasil devia ter, nas presidenciais, um daqueles candidatos a deputados, estaduais e nacionais, que também concorrem hoje. Um qualquer, mesmo daqueles candidatos de nomes malucos que são uma colorida tradição na democracia brasileira. O "Homem Aranha", o "Agora Nóis", o "Alceu Dispor 24 Horas", o "Buscando o Imponderável", o "Dr. Gatão", o "Claudinho Esse Sim", a "Loura do Cuguaçu", o "Ninguém" e o "Pirigoso". Qualquer deles! E, recuando, até podíamos convocar o macaco Tião, do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, que concorreu a prefeito em 1988, teve 400 mil votos e ficou em terceiro. Qualquer dos precedentes candidatos é melhor do que Jair Bolsonaro, o provável futuro presidente do Brasil. Segue-se a análise política expondo esse óbvio bom senso.

Nelson Rodrigues, o jornalista (reparem, não disse um, disse o), continuava a frequentar o Maracanã nas décadas de 1960 e 70. Afinal, o estádio chamava-se Mário Filho, em honra do seu irmão, um bom jornalista desportivo, e o Fluminense ainda era enorme - "grandes são os outros, o Fluminense é enorme" (NR dixit). O Brasil é que não continuava o mesmo, atravessava uma época de ditadura, militar e de direita. Anticomunista primário e até com teses que mereciam ser universitárias, que mais não seja pelo maravilhoso estilo, Nelson Rodrigues não se importava muito com ela, a ditadura militar.

Ele frequentava o Maracanã e, intelectual e popular, por vezes era convidado a ir ao camarote presidencial. Um dia, no intervalo do jogo, Nelson Rodrigues chegou a dizer ao presidente Emílio Garrastazu Médici: "O senhor garante que, ao contrário do que dizem, não há tortura no Brasil?" O general-presidente deu-lhe a palavra de honra que não. Depois, Nelsinho, filho de Nelson, meteu-se em atividades clandestinas contra a ditadura e foi preso. O seu pai foi visitar o filho comunista à prisão. Nelson Rodrigues era assim, um dia escreveu: "Entre a Via Láctea e o indivíduo, eu ficava com o indivíduo." Calculem qual a escolha dele, entre as convicções políticas e o filho...

Então, ficaram pai e filho a olhar-se. Nelson Rodrigues era cego como uma toupeira e habituara-se a levar aquele filho ao estádio. Nelsinho é que lhe relatava, sentado ao seu lado na bancada, como eram as jogadas no relvado. O jornalista recriava-as depois, escrevendo-as com as suas chuteiras imortais. Por vezes, era Joffre, o filho mais velho, que ajudava o jornalista, mas esse era do Flamengo, menos credível.

Então, naquele dia, na prisão, Nelson Rodrigues ficou a olhar, difusa e profundamente, os seus melhores olhos, os de Nelsinho. Perguntou-lhe: "Você foi torturado?" O filho sussurrou: "Barbaramente." Nelson Rodrigues ficou toda a vida anticomunista mas nunca perdoaria a repressão do regime militar. Quando a ditadura caiu, ele defendeu que torturador nunca deveria ser amnistiado.

Emílio Garrastazu Médici, naquela tarde do Maracanã, interpelado por Nelson Rodrigues, talvez tenha mentido. Sabia que havia tortura e mentiu - disse que não. É honra dele. Envergonhou-se da tortura. Podia mandar fazê-la, mas escondia-a. Talvez, em certas circunstâncias, sei lá, entre o macaco Tião e Emílio Garrastazu Médici, talvez, se justificasse votar no general Médici. Mas essa atenuante não existe com o ex-capitão Jair Messias Bolsonaro, um apóstolo de "se o objetivo é que o cara abra a boca, então é preciso arrebentá-lo".

Numa noite de domingo em 2016, para votar a demissão da presidente Dilma Rousseff, ele escolheu homenagear um dos torturadores de Dilma, Carlos Brilhante Ustra, quando ela, como Nelsinho, esteve presa. Jair Bolsonaro solenemente, na Câmara dos Deputados, declarou: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim."

Podia não ter dito, mas disse. Buscou o nome do torturador e alardeou o pavor de uma torturada perante o torturador. Podia ter meio escondido a façanha, mas não. Disse-o com gosto, e vaidoso por as televisões o filmarem a gritar o indizível.

Médici está morto e o macaco Tião também. O "Agora Nóis" e o "Pirigoso" e os outros bacanas concorrem para outros cargos... Então, serve um qualquer candidato das presidenciais brasileiras, salvo o Messias anunciado.

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