A democracia que resiste

Trump perdeu as eleições, mas o trumpismo cresceu e sobrevive-lhe. Joe Biden terá
pela frente duas Américas incompatibilizadas, culturalmente opostas, socialmente incomunicáveis. Governará como pode e não como quer. A partir de agora, precisamos de olhar mais para o trumpismo e menos para Trump.

Donald Trump perdeu as eleições mas o trumpismo galgou terreno. Foram mais seis milhões de votos do que em 2016, fazendo do ainda presidente o republicano mais votado de sempre. Joe Biden, que se tornou o candidato com mais votos na história americana, provando que nem sempre é preciso um carisma especial para lá chegar, terá de governar uma América partida ao meio, totalmente divorciada e incapaz de comunicar entre si.

Se o medo e a raiva funcionaram desde a campanha de 2016 como duas grandes turbinas na maquina de Trump, este conseguiu juntar-lhe mais dois motores em alta rotação, sempre bem calibrados e militantes: a mentira e a fraude. As quatro juntas fizeram praticamente o programa político para estas eleições, alimentando a hierarquia de prioridades totalmente alinhadas com uma base eleitoral indestrutível. O medo do "comunismo" democrata funcionou, por exemplo, para aumentar o apoio dos hispânicos; a raiva contra o progressismo social dos democratas para consolidar a adesão dos mais religiosos; a mentira para lançar a nuvem sobre a credibilidade da oposição, diluindo a imensidão de casos em que Trump mergulhou; e a fraude para deslegitimar a mais maciça adesão eleitoral da história, focada no voto antecipado e por correspondência. Donald Trump sai da Casa Branca encarnando o papel de coveiro da democracia quando o cargo que ocupava exigia que fosse o seu maior defensor. Um presidente que, contra todas as autoridades que supervisionam o processo eleitoral, procura à força deslegitimar uma eleição e dificultar ao máximo a contagem dos votos está a mais numa democracia.

Mas a sua saída de cena está longe de significar o fim do trumpismo. Ele cresceu em número de votantes e em todos os segmentos eleitorais. Cristalizou nas zonas rurais e nalgumas industriais, absorveu o negacionismo sobre a crise de saúde pública, valorizando mais a preservação da normalidade económica. É indiferente ao carácter e à decência no exercício da política, à imoralidade do sistema fiscal, à agressividade racial, à violação da separação de poderes, ao bullying sobre funcionários públicos ou aliados internacionais. Aos ataques aos media, aos jornalistas, aos adversários políticos. À tentativa de politizar a conduta das chefias militares ou dos tribunais, começando nos estaduais e terminando no Supremo. Muitas destas instituições sofreram golpes profundos, outras resistiram, mostraram a sua fibra e vão, certamente, recuperar. A democracia americana, como qualquer outra cuja história de crises cíclicas fortaleceu, tem mecanismos previstos e confiáveis para lidar com um teste de stress como o dos últimos quatro anos, o que não quer dizer que os próximos não sejam igualmente exigentes, mesmo sem Trump na Casa Branca.

E vão sê-lo porque dificilmente a homologação dos resultados pelo Colégio Eleitoral e depois pelo Congresso esvaziará a raiva trumpista. Isto exige tanto da administração Biden como das bancadas no Congresso. Vai ser preciso um discurso mais cuidado que aproxime o que pode ter chão comum (minorias étnicas? Classe média?); a procura de compromissos legislativos que tenham atenção às prioridades sociais e não a reeleições de congressistas; a absoluta rejeição em colocar numa carreira de tiro novos "inimigos do povo", esvaziando o ambiente conspirativo da gasolina deitada do topo; favorecer uma regulação mais eficaz à proliferação da mentira e do discurso do ódio online, mecanismos inevitáveis até em defesa de algum jornalismo cúmplice.

Isto significa que Biden, herdando duas Américas que se incompatibilizaram, não pode exercer a presidência com igual foco na trincheira, apenas mudando o tom e o estilo do seu antecessor. Precisa de ir ao encontro de muitas preocupações de quem não votou em si. A sua experiência como legislador que sempre procurou pontes bipartidárias favorece-o, tal como favoreceu ao antigo senador Lyndon Johnson quando tomou posse como presidente e foi, depois, reeleito. Num quadro de agravamento das desigualdades, fadiga militar no exterior e polarização social, ter alguém com um historial de compromissos é o que a América precisa. Claro está que o trabalho é inglório sem uma contraparte responsável, por isso tenho insistido que a ressurreição do Partido Republicano tem tudo para ser a chave do bloqueio em que se encontram os EUA. A ver pelas últimas horas, numa espiral de seguidismo à alucinação pública do presidente Trump (que fez da Casa Branca quartel-general de campanha e de deslegitimação eleitoral), ninguém quer assumir o papel de lebre na regeneração do partido. Sabem que o trumpismo pode não chegar para eleger um presidente, mas tornou-se estrutural para o sucesso na política estadual, com reflexo no Congresso. Por isto, o crescimento do trumpismo deve continuar a preocupar qualquer defensor da saúde das democracias liberais, mesmo sem Trump na Casa Branca. A sua implantação é mais cultural do que uma bizarria eleitoral circunstancial, os seus efeitos mais duradouros e estruturais do que encostados a uma figura popular, a sua rede internacional mais consolidada do que assente em passageiras solidariedades pessoais. Basta recordar como Nigel Farage virou o Reino Unido de pernas para o ar sem ter sido alguma vez eleito para a Câmara dos Comuns. Nenhuma democracia é governável com estes níveis elevados de polarização.

Para travar o trumpismo americano ou a rede que inspira no exterior (a crescer publicamente em Portugal) é preciso atacar algumas das fontes que o alimentam, esvaziar a sua militância, travar a espiral de mentiras que promove e saber construir uma proposta política ganhadora que promova a moderação discursiva, um roteiro aspiracional entre as classes mais pobres e médias, a dignidade laboral e social, a credibilidade das instituições e a ética no exercício da política. Nunca será fácil, mas em democracia não há lugar ao fatalismo. Até Trump foi derrotado.

Investigador universitário

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