O "sucesso tremendo" de Trump que não aconteceu

Talvez a certeza de o Partido Republicano manter e até reforçar o controlo do Senado tenha motivado o tweet presidencial a reivindicar um "sucesso tremendo" nas intercalares de ontem nos Estados Unidos.

Mas com a Câmara dos Representantes a ter agora maioria democrata, Donald Trump deveria ter sido menos eufórico, pois a segunda metade do seu mandato - e por isso estas eleições que em inglês se chamam midterms - vai ser bem mais difícil, sobretudo na aprovação de leis desejadas pela Casa Branca.

Também da nova Câmara dos Representantes poderão surgir investigações sobre vários conflitos de interesses do presidente, complicando as suas ambições de reeleição em 2020. Além do fantasma sempre do impeachment.

Mas da jornada eleitoral que mostrou a capacidade de mobilização de jovens, mulheres e minorias pelos democratas, Trump pode encontrar a consolação do sucesso no Senado. Como a grande maioria dos assentos sujeitos a renovação eram democratas, o que aconteceu nas urnas a favor dos republicanos tem certa lógica, porém, não deixa de facilitar daqui em diante a tarefa do presidente nas nomeações executivas e judiciais. Daí talvez a razão do tal tweet ainda com resultados por apurar.

Congresso dividido agora, pois, tal como a América estava e continua dividida. O mapa dos círculos para a Câmara dos Representantes continua a mostrar que entre as costas leste e oeste, de azul democrata, existe uma imensa Middle America pintada de vermelho republicano, embora com mais salpicos rivais do que antes. Posto de outra forma, é uma divisão que se reflete também no contraste entre a variedade de novos congressistas eleitos pelos democratas - da muçulmana às indígenas, uma delas lésbica - e o discurso trumpiano virado para um eleitorado branco que ainda é maioritário mas perde peso. Acrescente-se que estas duas Américas, tanto geográficas como sociais, já vêm de antes de Trump e marcam de há muito os dois grandes partidos, cada vez mais monolíticos.

Acrescente-se também, fazendo alguma justiça à reação de Trump, que lidar com uma Câmara dos Representantes hostil a meio do mandato, mesmo se a economia corre bem, é quase uma regra para os presidentes recentes - aconteceu também com o democrata Barack Obama em 2010 e não impediu a reeleição em 2012, nem nos anos 1990 com Bill Clinton

E, por isso, é preciso cautela na projeção dos resultados das intercalares para a disputa presidencial daqui a dois anos. Além de estas intercalares serem na realidade a soma de centenas de pequenas eleições, muitas vezes marcadas por questões de personalidade ou de interesse local, falta perceber quem nos democratas enfrentará Trump para impedir o único "tremendo sucesso" que verdadeiramente lhe interessa.

Se será alguém da velha guarda - e neste caso também no sentido da idade, pois de Bernie Sanders a Joe Biden, passando por Elizabeth Warren, todos são ou serão septuagenários em 2020, como Trump - ou se a aposta será, por exemplo, em alguém como Kamala Harris, jovem senadora pela Califórnia desde 2016 e filha de imigrantes da Jamaica e da Índia.

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