Um vírus com estilo

O aparecimento repentino, e relativamente descontrolado, de uma série de casos de coronavírus no Norte de Itália levou ao cancelamento do Carnaval de Veneza, festa que custa os olhos da cara e é preparada com quase um ano de antecedência. Ora, tratando-se de uma celebração com data fixa - e, portanto, inadiável -, o prejuízo foi enorme.

Mas que fazer? O risco de uma pandemia desaconselha ajuntamentos e reuniões em larga escala, pelo que por todo o mundo têm sido adiados, suspensos ou anulados os eventos que tendem a congregar pessoas oriundas de vários países, tais como feiras, congressos, simpósios e festivais. Os casinos de Macau fecharam. A entrada de peregrinos em Meca também foi proibida e, a menos que os fiéis confiem inteiramente na Virgem, presumo que Fátima no próximo dia 13 de Maio fique deserta; a Suíça cancelou todas as actividades com mais de mil participantes e, em algumas cidades italianas, os desafios de futebol são realizados sem público (a sua transmissão pela TV será como se assistíssemos ao jogo sem ligar o som do aparelho). Tudo isto afecta terrivelmente a economia: haverá muito menos pessoas a viajar, a dormir em hotéis, a comer em restaurantes, a visitar museus... E, se a coisa apertar, não sei o que acontecerá, por exemplo, aos ginásios (onde se respira e transpira mais do que em qualquer outro sítio), nem se um elevado número de pessoas não deixará simplesmente de ir a concertos, centros comerciais, à missa, etc. E como será com os estabelecimentos de ensino, as fábricas, os transportes, as discotecas? Por cá, ainda não havia um único caso reportado e já um quinto das empresas declarava sentir o impacto negativo do vírus... Os únicos que respiravam fundo eram os fabricantes de álcool, desinfectantes e máscaras protectoras, artigos esgotados, aliás, há semanas. Numa farmácia, disseram-me que repunham os stocks todos os dias, mas a lista de espera era interminável... Ainda estamos no início do problema, mas, se e quando for mesmo a sério, que fazemos? Pedimos as máscaras inutilizadas de Veneza? Talvez não seja preciso...

Há sempre uns espertos que se chegam à frente em tempos de crise - e não, não falo de contrabando, mas de marcas de alta-costura como a Gucci e a Louis Vuitton que vendem máscaras em versão chique e de várias cores, a condizer com a toilette de cada dia. Doente, sim, mas com estilo! Do preço, claro, nem vale a pena falar. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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