Biden renascido. Para quê?

Que lições tiramos da super terça-feira? Estará Joe Biden numa rota imparável para ser o candidato democrata às presidenciais? Podem as primárias de 1992, 2008 e 2016 ajudar-nos a traçar um cenário realista? E que erros precisam de ser corrigidos até novembro?

Não é muito comum que a surpresa da super terça-feira seja protagonizada por alguém tão representativo da aristocracia do partido como Joe Biden acabou de fazer. Em 2008, Barack Obama e Hillary Clinton disputaram não 15 (como Sanders e Biden) mas 23 estados, qualquer coisa como metade dos delegados à convenção de Denver, sendo a antiga senadora a preferida do establishment. Nessa noite de 5 de fevereiro, Obama venceu 13, descolando a partir dali até à Casa Branca. A paz interna nunca ficou sarada desde essa data e as feridas reabriram-se na corrida de 2016, entre Sanders e Hillary, e a verdade é que continuam ainda hoje.

Já em 1992, nas primárias que coroaram Bill Clinton, não se pode dizer que era ele o candidato da máquina partidária. Na verdade, ninguém o era. O que se pode afirmar é que a ausência de notoriedade a nível nacional fazia dele um outsider e foi nessa condição que disputou a super terça-feira vencendo oito dos onze estados em competição. Aliás, é interessante comparar o percurso de Bill Clinton com o de Joe Biden, porque ambos perderam as primárias iniciais e tiveram a primeira vitória num estado do sul, Clinton na Georgia e Biden na Carolina do Sul. A dúvida é se Biden, tal como Clinton, descola a partir da fase em que estamos.

Honestamente, não é possível dizer. E há duas razões para isso. A primeira é que, não sendo uma novidade nem depositário de um especial entusiasmo popular, Biden não tem muitos mais delegados do que Sanders (627 contra 551), isto quando faltam dois terços por conquistar e à entrada de três datas fundamentais na clarificação desta disputa: 10 de março (seis estados, entre eles o Michigan), 17 de março (quatro estados, Arizona, Florida, Illinois e Ohio) e 28 de abril (seis estados, entre eles Nova Iorque e Pensilvânia). A segunda resulta da corrida de 2016, quando Hillary venceu oito dos 12 estados na super terça-feira, contra quatro de Bernie Sanders, dando continuidade ao bom início de campanha e fazendo crer que teria uma corrida sem problemas de maior. O que aconteceu em seguida, exatamente até final de abril, foi a disputa inesperada pelo senador do Vermont, que conquistaria praticamente metade dos estados em jogo até final de abril. Ou seja, dificilmente Sanders atirará a toalha ao chão até que este par de meses se conclua.

Para fugir a esse cenário precisa de responder aos três maiores dilemas saídos da passada terça-feira: a fraca mobilização do seu aparentemente fiel eleitorado jovem; a incapacidade em competir com Biden pelo voto suburbano, em cidades de média ou pequena dimensão, ou mesmo em áreas rurais; e a absoluta falta de ligação com o eleitor afro-americano. A "revolução ideológica" proposta por Sanders pode ser um movimento extremamente apelativo para a geração urbana e qualificada que cresceu com as guerras do Iraque e do Afeganistão ou que despertou para a política com a crise financeira de 2008, mas isso não faz da sua proposta um projeto de poder capaz de federar a heterogénea plataforma democrata essencial para derrotar Trump em novembro. E foi esta equação que esteve em cima da mesa aos olhos de muitos democratas que optaram por Biden, mesmo que por mero pragmatismo.

Para eles, a proposta de Biden é de recuperação do poder, de contrarrevolução pelo regresso à normalidade na Casa Branca, na relação entre as instituições e no restabelecimento de outro tom na convivência social. Por outras palavras, Biden ganha nas gerações com mais de 35 anos, voto branco e afro-americano, suburbano e rural, por ser capaz de corporizar um projeto de normalização do debate político, com mais previsibilidade e um tom menos áspero. Ou seja, remete para o imaginário do exercício de poder de Obama. Como referi, não estou certo de que esta valorização seja comprada de igual modo nos três momentos fundamentais das primárias até final de abril, mas parece-me uma justa ilação a tirar dos resultados da super terça-feira.

Uma outra importante leitura do que se passou nesta primeira fase das primárias está relacionada com a capacidade financeira dos candidatos. Se o dinheiro não compra necessariamente vitórias, como Bloomberg nos ensinou, pode ajudar a corrigir os erros de campanhas passadas. Certo é que Biden descolou com metade do orçamento de Sanders e umas dezenas de milhões abaixo do angariado por Pete Buttigieg ou Elizabeth Warren. Se o establishment do partido financia desta maneira o seu preferido, algo vai mal na capacidade de municiar um líder para vencer em novembro. É aqui que Bloomberg entra. O apoio dado a Biden pressupõe a montagem imediata de estruturas fixas de campanha na dezena de estados que decidirão as presidenciais, alguns completamente desprezados por Hillary Clinton em 2016, como Pensilvânia, Wisconsin, Michigan, Ohio, Iowa, todos decisivos na vitória de Trump. A ideia de corrigir esse erro é boa, mas não chega.

Biden precisa de alargar a sua base, consolidando-a com tempo para a mobilizar com mais certeza em novembro. Para isso, um apoio de Elizabeth Warren poderia ser importante para ajudar a fechar a competição das primárias mais cedo, antecipando a construção de uma mensagem democrata mais sofisticada sobre as principais políticas públicas, recusando esgotar o mote de novembro apenas e só em tirar Trump da Casa Branca. Aos políticos responsáveis pede-se mais do que isto. Que sejam mais transparentes do que um adversário como o atual presidente. Bem mais sensatos no que propõem. Muitos mais sustentados na verdade e nos factos para resolverem problemas estruturais e maximizarem o que está bem feito. E que sejam capazes de mobilizar com um carisma direcionado para o bem público e não para o peso de um ego insuportável. O momento-fronteira que a democracia americana atravessa, com epicentro em novembro, é partilhado por outras democracias ocidentais. Quem se define como estando do lado certo da história tem, por isso, de fazer muito mais do que atirar milhões de dólares para a fogueira dos slogans.

Construir leva tempo, exige resistência emocional, argúcia política, trabalho de equipa, agregação de vontades. Nestes quatro anos, os democratas não mostraram especiais atributos nestas frentes. Destruir, sim, pode ser instantâneo e imparável. Para isso a América não precisa de mudar de presidente.

Investigador universitário

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