É invisível a maior obra de Lisboa - mas vai proteger a cidade

É um plano a cem anos e quer proteger a cidade da subida do nível das águas e evitar inundações, especialmente em épocas de chuvas. As obras para a construção de dois grandes túneis avançam já em março, numa empreitada de 133 milhões de euros.

É a maior empreitada de sempre adjudicada pela Câmara Municipal de Lisboa, mas a obra não terá grande visibilidade, apesar de poder proteger a cidade num período previsto de cem anos, principalmente em tempos de chuvas e cheias.

A fechar o ano de 2020, no dia 21 de dezembro, a autarquia adjudicou uma empreitada de 133 milhões de euros para a execução dos túneis de drenagem de Lisboa, integrados num complexo sistema que percorre toda a cidade, mas no qual estas duas estruturas assumirão um papel fundamental. As obras devem arrancar já no mês de março e prolongam-se até meados de 2024, segundo comunicado da câmara, que considera que este sistema é "um dos maiores do país e o maior alguma vez realizado pela Câmara Municipal de Lisboa".

O comunicado da autarquia não o adianta mas, segundo noticiou o Negócios, o concurso internacional foi ganho pelo consórcio que integra a construtora Mota-Engil e a francesa SPIE Batignolles e prevê a a construção para "o transvase de bacias" de dois túneis - entre Monsanto-Santa Apolónia, com um comprimento de cinco quilómetros, e Chelas-Beato, este com um quilómetro de comprimento. Ambos os túneis terão um diâmetro de 5,5 metros e, segundo fonte da autarquia disse ao DN/DV, "são duas peças fundamentais para preparar a cidade e prevenir os desafios pelas expectáveis alterações climáticas e os seus efeitos em termos de cheias".

Prevendo a evolução do clima e a subida do nível médio das águas do mar, conhecendo as zonas da cidade mais afetadas por cheias, o plano pretende prevenir essas situações a longo prazo.

O Plano Geral de Drenagem para Lisboa deverá ser executado no período 2016-2030, atualizando o anterior plano, aprovado em 2008, para desenvolver então a "solução integrada de controlo das inundações que afetam Lisboa e dotar a cidade com infraestruturas de drenagem estruturantes que a preparassem para os desafios do século XXI", de modo a "minimizar os impactos sociais e ambientais das cheias e inundações".

A empreitada que vai avançar neste ano pretende implementar soluções "para os principais problemas de drenagem pluvial da cidade, nomeadamente na zona de Alcântara, Largo das Fontainhas, Rua das Pretas, Rua de São José, Rossio, Martim Moniz, Praça da Figueira, Xabregas, Rua Gualdim Pais e Avenida de Berlim. Zonas de cheias frequentes vão também estar em foco, como a zona baixa de Alcântara, Sete Rios, Rua de São José/Portas de Santo Antão, Praça da Figueira, Martim Moniz, Avenida de Berlim, Paço do Lumiar, Xabregas e Bairro de Santa Cruz.

Ao todo, a área do Plano de Drenagem é de 10 239 hectares e abarca ainda territórios dos concelhos de Amadora, Oeiras e Loures, variando em altitude entre os zero metros na zona ribeirinha e os 250, em Monsanto. No Plano de Drenagem, a autarquia defende os tais dois sistemas de túneis, em Alcântara e em Chelas; novas bacias de amortecimento; o reforço e a reabilitação de coletores e sistemas elevatórios; a separação e o controlo de caudais.

"Lisboa tem tido vários episódios gravosos com chuvas e o novo plano decorre de um primeiro que já tinha sido implementado. Os dois túneis são os que têm maior impacto e pretendem resolver grande parte dos problemas, até porque são conjugados com bacias de retenção já pré-feitas e com intervenções em áreas verdes que permitem a retenção de águas", refere a mesma fonte.

O plano da autarquia refere que o túnel de Alcântara "tem como função intercetar os caudais pluviais descarregando-os diretamente para o rio Tejo". O desvio dos caudais pluviais acabará assim por aliviar toda a rede de coletores já existente, com o túnel a ter uma capacidade prevista de escoamento de caudais superior a 160 m³/s. "A dimensão do túnel permite, mesmo tendo em consideração os efeitos de agravamento devido às alterações climáticas, assegurar bons níveis de desempenho para uma precipitação de período de retorno de cem anos", defende o documento.

Quanto ao túnel na zona de Chelas e Beato, que terminará no rio Tejo junto a Xabregas, o "caudal máximo transportado no túnel para esta situação de dimensionamento estima-se da ordem de 140 m³/s", também para um período a cem anos, "verificando-se que, mesmo para esta situação de dimensionamento extremamente gravosa, o túnel garante o transporte dos caudais afluentes".

Praças da cidade integradas
De forma a evitar futuras obras em cerca de 30 praças da cidade, o Plano de Drenagem está ainda a ser coordenado com o programa, também da câmara, Uma Praça em Cada Bairro. O objetivo é identificar situações em que as intervenções de reabilitação em cerca de 30 praças possam ser aproveitadas para resolver problemas de drenagem da cidade. Identificadas estão já as situações no Largo de Santos, Largo do Rato, Largo Conde Barão ou Praça da Figueira.

Filipe Morais é jornalista do Dinheiro Vivo

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