Premium Em defesa das histórias

No Outono em que publiquei o meu primeiro livro, faz não tarda vinte anos, um escritor não muito mais velho do que eu, acabado de receber um prémio importante, deu uma entrevista em que dizia: "Se quisesse contar histórias, ia escrever telenovelas." Eu lia com frequência entrevistas de escritores, mas só naquela altura começava a lê-las com o escrutínio de um autor, ainda que na altura bastante jovem e totalmente imberbe. E, para dizer a verdade, não percebi logo que se tinha convencionado existirem dois caminhos e, um dia, eu próprio daria por mim sob o desafio de escolher um deles. Sobretudo, assaltou-me uma perplexidade: porque haveria um tão antigo e respeitável impulso como o de contar histórias de ser alvo, agora, de uma tal condescendência - de um tal ataque?

O meu mundo era então bastante exíguo, como talvez até nem tenha deixado de ser, mas o facto é que todos os grandes escritores que eu conhecia eram também extraordinários contadores de histórias. Eu percorria a cronologia da grande literatura (de Homero a Salman Rushdie, por exemplo) e via-o. Saltava no tempo ao contrário (sei lá, de García Márquez a Shakespeare) e continuava a vê-lo. Pululava entre continentes (do Livro de Jó a Melville, de Endō a Coetzee), deixava-me até estar no mesmo país (de Dostoievski a Tolstói ou de Balzac a Proust) - nunca deixava de vê-lo. Que espécie de insolência, que tipo de arrogância poderia levar um autor de vinte e tal anos, como éramos os dois, a comparar tais cronistas do progresso civilizacional, tais bardos da existência humana à simples récita escolar da vidinha acéfala, como já então eram muitas telenovelas e - principalmente - o meu colega parecia considerar serem todas as telenovelas?

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

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