Premium Em defesa das histórias

No Outono em que publiquei o meu primeiro livro, faz não tarda vinte anos, um escritor não muito mais velho do que eu, acabado de receber um prémio importante, deu uma entrevista em que dizia: "Se quisesse contar histórias, ia escrever telenovelas." Eu lia com frequência entrevistas de escritores, mas só naquela altura começava a lê-las com o escrutínio de um autor, ainda que na altura bastante jovem e totalmente imberbe. E, para dizer a verdade, não percebi logo que se tinha convencionado existirem dois caminhos e, um dia, eu próprio daria por mim sob o desafio de escolher um deles. Sobretudo, assaltou-me uma perplexidade: porque haveria um tão antigo e respeitável impulso como o de contar histórias de ser alvo, agora, de uma tal condescendência - de um tal ataque?

O meu mundo era então bastante exíguo, como talvez até nem tenha deixado de ser, mas o facto é que todos os grandes escritores que eu conhecia eram também extraordinários contadores de histórias. Eu percorria a cronologia da grande literatura (de Homero a Salman Rushdie, por exemplo) e via-o. Saltava no tempo ao contrário (sei lá, de García Márquez a Shakespeare) e continuava a vê-lo. Pululava entre continentes (do Livro de Jó a Melville, de Endō a Coetzee), deixava-me até estar no mesmo país (de Dostoievski a Tolstói ou de Balzac a Proust) - nunca deixava de vê-lo. Que espécie de insolência, que tipo de arrogância poderia levar um autor de vinte e tal anos, como éramos os dois, a comparar tais cronistas do progresso civilizacional, tais bardos da existência humana à simples récita escolar da vidinha acéfala, como já então eram muitas telenovelas e - principalmente - o meu colega parecia considerar serem todas as telenovelas?

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