Premium Em defesa das histórias

No Outono em que publiquei o meu primeiro livro, faz não tarda vinte anos, um escritor não muito mais velho do que eu, acabado de receber um prémio importante, deu uma entrevista em que dizia: "Se quisesse contar histórias, ia escrever telenovelas." Eu lia com frequência entrevistas de escritores, mas só naquela altura começava a lê-las com o escrutínio de um autor, ainda que na altura bastante jovem e totalmente imberbe. E, para dizer a verdade, não percebi logo que se tinha convencionado existirem dois caminhos e, um dia, eu próprio daria por mim sob o desafio de escolher um deles. Sobretudo, assaltou-me uma perplexidade: porque haveria um tão antigo e respeitável impulso como o de contar histórias de ser alvo, agora, de uma tal condescendência - de um tal ataque?

O meu mundo era então bastante exíguo, como talvez até nem tenha deixado de ser, mas o facto é que todos os grandes escritores que eu conhecia eram também extraordinários contadores de histórias. Eu percorria a cronologia da grande literatura (de Homero a Salman Rushdie, por exemplo) e via-o. Saltava no tempo ao contrário (sei lá, de García Márquez a Shakespeare) e continuava a vê-lo. Pululava entre continentes (do Livro de Jó a Melville, de Endō a Coetzee), deixava-me até estar no mesmo país (de Dostoievski a Tolstói ou de Balzac a Proust) - nunca deixava de vê-lo. Que espécie de insolência, que tipo de arrogância poderia levar um autor de vinte e tal anos, como éramos os dois, a comparar tais cronistas do progresso civilizacional, tais bardos da existência humana à simples récita escolar da vidinha acéfala, como já então eram muitas telenovelas e - principalmente - o meu colega parecia considerar serem todas as telenovelas?

Ler mais

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.