Governo encerra hoje funções e passa a ter uma limitada tarefa de gestão, mas não será isso que amacia a indignação das associações profissionais da GNR e da PSP - que se preparam para se manifestarem nas ruas, um pouco por todo o país, em ruidosas marchas de protesto e em greves de zelo contra o que designam um "tratamento de segunda categoria" relativamente à Polícia Judiciária..A faísca que incendiou a paciência dos "sindicatos" de ambas as forças de segurança foi a atribuição ao pessoal de investigação criminal da Polícia Judiciária de um novo subsídio aprovado no passado dia 29 de novembro em Conselho de Ministros - o suplemento de missão pelo exercício de funções em condições de risco, insalubridade, exclusividade e penosidade. O suplemento, pago a 14 meses, tem como limite máximo um terço do vencimento, pode significar um aumento de quase 700 euros por mês e é atualizado em função da remuneração base..O que na Polícia Judiciária caiu como sopa no mel, atingiu como um raio a GNR e a PSP. "Isto é uma afronta para os homens e mulheres da GNR e da PSP que todos os dias contribuem para a segurança dos portugueses", diz ao DN o presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG), César Nogueira..Os militares da GNR e o pessoal da PSP também correm riscos e trabalham em condições de insalubridade, de exclusividade e de penosidade. Ainda assim, é-lhes atribuído um subsídio de risco mensal no valor de cerca de 100 euros acrescido de 20 por cento do salário-base. No caso de um militar com dez anos de serviço, o suplemento não vai além dos 209 euros por mês. Na PSP, um agente com o mesmo tempo serviço tem direito a 220 euros de subsídio..A revolta junta pela primeira vez todas as cinco cincos associações socioprofissionais da Guarda Nacional Republicana, designadamente a Associação dos Profissionais da Guarda (APG), a Associação Socioprofissional Independente da Guarda (ASPIG), a Associação Nacional Autónoma de Guardas da GNR (ANAG), a Associação Nacional dos Sargentos da Guarda - e, até, a Associação Nacional dos Oficiais da Guarda (ANOG).."Achamos muito bem, e saudamos, que o pessoal de investigação criminal da Polícia Judiciária seja devidamente remunerado, mas não podemos tolerar, e até consideramos ofensivo e humilhante, que os nossos militares sejam vítimas de diferenciação negativa e tratados como polícias de segunda ou de terceira categoria", disse ao DN o presidente da Associação Nacional dos Oficiais da Guarda, capitão Diogo Barreiras..Representantes de todas as associações, a que se juntou a mais representativa das da Polícia de Segurança Pública, a ASP, reuniram-se ontem à tarde em Lisboa. A ordem de trabalhos tinha um único ponto: concertar ações de luta para que os militares da GNR e pessoal da PSP tenham direito ao mesmo subsídio de missão. "Não temos direito à greve, não há Governo e a Assembleia da República vai ser dissolvida em janeiro. Não temos ao alcance muitas formas de protesto. As únicas alternativas que nos restam são as manifestações e as greves de zelo", disse César Nogueira ao DN. O subsídio de missão atribuído à Polícia Judiciária é uma velha aspiração dos funcionários de investigação criminal, que recebiam um suplemento de risco, no valor de 478 euros brutos, idêntico para todas as categorias da carreira. As negociações entre a Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal, a direção nacional da PJ e o Ministério da Justiça prolongaram-se por dois anos - até que as partes chegaram a acordo sobre um novo subsídio que representa, em algumas categorias da PJ, um aumento de quase 700 euros..O diploma ainda aguarda promulgação pelo Presidente da República. Se Marcelo Rebelo de Sousa for sensível à indignação que agita a GNR e a PSP veta o subsídio. Ou há moralidade ou comem todos.