Mel nos tímpanos

João Gilberto seria capaz de hipnotizar qualquer pessoa pelo telefone. Posso garantir - porque, em 1989, ele fez isso comigo.

Em seu estúdio de gravação na Barra da Tijuca, onde eu o entrevistava para um livro que estava preparando, Chega de Saudade, sobre a bossa nova, Roberto Menescal me perguntou: "Já falou com o João Gilberto?"

Eram meados de 1989. Eu estava trabalhando havia quase dois anos no levantamento de informações sobre a bossa nova, um movimento musical que mudara a cultura brasileira nos anos 50 e que, 30 anos depois, ficara completamente esquecido. Muitos de seus artistas tinham-se aposentado por falta de trabalho, seus discos estavam fora de catálogo e parecia haver uma aversão geral à sua música. Para gente de todas as áreas e idades, a bossa nova era "ultrapassada", coisa de velhos bebedores de uísque, nostálgicos dos "anos dourados" do Rio, saudosos da Garota de Ipanema.

Eu não acreditava nisso. Para mim, a bossa nova não apenas modernizara a música brasileira como estabelecera um novo patamar de beleza melódica, sofisticação harmónica e novidade rítmica, nunca mais alcançadas no Brasil. Se a bossa nova ficara fora de moda nos anos 70 e 80, tinha sido apenas por uma questão de mercado. O Brasil é assim mesmo, volúvel com seus valores - abraça-os hoje e vira-lhes as costas no momento seguinte. Ao decidir escrever um livro com a história dessa música, eu pensava apenas em valorizá-la como um património cultural do Brasil, algo que nunca poderia ter sido abandonado.

E para isso, naquele dia, eu tinha ido conversar mais uma vez com Menescal, um dos maiores nomes do género. Nos meses anteriores, já falara longamente também com Tom Jobim, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Lucio Alves, Johnny Alf, João Donato, Billy Blanco, Tito Madi e muitos mais - e que pena que Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Sylvia Telles, Dolores Duran, Maysa, Dick Farney e outros já tivessem morrido. A própria Nara Leão falecera havia pouco, mas eu ainda conseguira entrevistá-la. E havia, naturalmente, João Gilberto, a principal personagem da história - mas ainda não era a hora de falar com ele.

Chega de Saudade era o meu primeiro livro no género história e biografia, e eu não sabia de ninguém que pudesse me ensinar os segredos do ofício. Mas uma intuição inexplicável me dizia que, quanto mais importante a personagem, menos pressa eu deveria ter para ouvi-lo. Antes de tentar falar com João Gilberto, portanto, eu precisaria primeiro aprender muito sobre ele, preparar-me para a conversa. Para isso, deveria procurar falar com pessoas que o conheciam bem, como seus amigos do passado, e, quanto mais do passado, melhor.

Nos meses anteriores, eu localizara vários camaradas de infância e juventude de João Gilberto na Bahia e artistas com quem ele trabalhara assim que chegara ao Rio em 1950. Localizara até uma de suas irmãs, então morando em Minas Gerais. Naquele dia, ao conversar com Menescal, eu me sentia apto a procurar João Gilberto - porque já entrevistara pelo menos 50 pessoas que o tinham conhecido intimamente.



Assim, quando Menescal me perguntou se eu já falara com João Gilberto, respondi: "Ainda não. Mas vou telefonar para ele por esses dias."

Menescal me advertiu: "Cuidado. Ele é uma cobra, uma serpente. Hipnotiza por telefone."

"Como assim?", perguntei.

"É só isso. Ele é irresistível", respondeu. "Começa a falar com aquela voz mansa e, em poucos minutos, você está fisgado. Se ele pedir para você sair do seu conforto e ir trocar o pneu do carro dele, você irá."

Resolvi ser firme:

"Ora, Menescal. Já entrevistei presidentes da República, grandes escritores, estrelas de Hollywood, ídolos do jazz. Por que João Gilberto seria diferente?"

Menescal riu-se: "Estou só avisando..."

Dias depois, numa noite de chuva, telefonei pela primeira vez para João Gilberto. Ele mesmo atendeu, com um simples, mas inconfundível, "alô?", como se diz no Brasil. Apresentei-me, disse a que vinha meu telefonema (estava fazendo um livro sobre a música popular brasileira, seria um livro à base de conversas com seus grandes nomes e, sendo ele o maior de todos, etc. etc.). Falei durante dois minutos e, enquanto isso, João Gilberto apenas me ouvia.
Finalmente, calei-me e esperei que ele falasse. E, então, do outro lado do fio, veio aquela voz.

Ele pareceu empolgar-se pela ideia e começou a dizer que seria um livro importantíssimo, espetacular, definitivo e que, embora não me conhecesse, eu parecia a pessoa indicada para fazê-lo. Mas não foi só isso. Era a voz com que ele dizia aquelas coisas - absurdamente macia, sem ser melíflua; suave, sem deixar de ser firme; morna, sem deixar de ser doce. Parecia estar massageando meus tímpanos com algodão ou flanela embebido em mel. Menescal tinha razão: o homem era um perigo.

Só sei que, assim que João Gilberto parou de falar, ouvi a minha própria voz - ridiculamente no mesmo tom, timbre e volume que a dele e tentando reproduzir a maciez e doçura de cada sílaba -, dizendo:
"M-a-s---v-o-c-ê---a-c-h-a---i-s-s-o--m-e-s-m-o,---J-o-ã-o-?"
João Gilberto acabara de me hipnotizar por telefone. E, se ele me pedisse que eu saísse de casa naquela noite de chuva e fosse trocar o pneu do carro dele, eu teria ido.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de Chega de Saudade - A História e as Histórias da Bossa Nova (Tinta-da-China).

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