Desde os 14 anos que Alan Barley ajudava nas campanhas do Labour, partido no qual sempre votou e pelo qual o seu avô foi eleito vereador em Wakefield. "Ele daria voltas no túmulo se visse o que se passa." Não por o seu neto, de 71 anos, usar um cachecol e um gorro azul-celeste do Partido do Brexit, mas porque a deputada trabalhista local Mary Creagh votou contra o que a maioria dos eleitores de Wakefield escolheram no referendo de 2016: a saída do Reino Unido da União Europeia. "Mary Creagh é a maior anedota em Wakefield. Não estou a brincar. A minha decisão há três anos foi sair da União Europeia e agora quero que isso seja respeitado", diz ao DN, à porta da catedral de estilo gótico da cidade. "Não me importa que qualquer outra pessoa vença desde que não seja Mary Creagh.".Um sentimento que muitos eleitores parecem partilhar, o que torna Wakefield uma circunscrição apetecível para o Partido Conservador de Boris Johnson, que em 2017 ficou aqui a 2176 votos do Labour de Jeremy Corbyn. Os trabalhistas dominam a cena política local desde 1932 (Creagh é deputada desde 2005), mas foram surpreendidos com 66,4% de votos a favor do Brexit no referendo de 2016. O facto de Creagh ter ido contra esse voto no Parlamento britânico não caiu bem na cidade, que fica na região de West Yorkshire, duas horas de comboio para o norte de Londres e a cerca de 20 minutos de Leeds. Nas europeias, o Partido do Brexit foi o vencedor na região. Na próxima quinta-feira, a formação liderada por Nigel Farage estará no boletim de voto em Wakefield com a candidatura de Peter Wiltshire, enquanto os conservadores apostam em Imran Ahmad-Khan, havendo ainda um independente, um liberal-democrata e um membro do Partido de Yorkshire na corrida.."É possível uma derrota do Labour. Há o sentimento de que é possível, os partidos acreditam que possa haver uma mudança porque o clima político alterou-se completamente", diz o jornalista David Spereall, que escreve para o Wakefield Express. "As pessoas estão chateadas porque o tema do Brexit não está resolvido", acrescenta, lembrando que o Partido Conservador garante que esse é o tema que marca as eleições. E os candidatos, seja em Wakefield ou nos arredores, estão a usar a imagem de Boris Johnson porque ele é popular entre os eleitores.."Existe o risco de as pessoas poderem ser convencidas pelas promessas tolas do Brexit a tomar uma decisão prejudicial a elas próprias nestas eleições. Espero que não o façam e que continuem a apoiar a candidata do Labour, que tem sido excelente para esta circunscrição", explica Graham Roberts, também de 71 anos, mas, ao contrário de Alan, de gorro vermelho do Labour na cabeça. "As mentiras ditas pela campanha do Brexit persuadiram algumas pessoas a ser desleais ao partido que mais bem trabalha pelos seus interesses", acrescenta este reformado..Eleitores cansados.Outro risco que existe é os eleitores simplesmente optarem por não ir votar. Nas ruas pedonais dedicadas ao comércio, onde as decorações de Natal já estão prontas e se ouvem canções desta quadra a sair da viola de um músico de rua, o frio não convida a ficar nos bancos à conversa. Justin, que aproveitou a hora de almoço para fazer uma ou outra compra de Natal para a namorada, diz que está farto das eleições e da política. "Sinceramente, acho que não vou votar. Estou sem paciência para eles. Não quero votar Labour porque já estou farto, mas os meus pais nunca me perdoariam se votasse nos Tories", explica o jovem, na casa dos 30 anos, que preferiu não dizer o apelido..A antiga cidade mineira de 330 mil pessoas, que se está a reinventar como um centro artístico, não esquece as consequências do governo de Margaret Thatcher. As minas em redor de Wakefield foram das primeiras a fechar em Yorkshire durante o governo da primeira-ministra conservadora, que alterou a política energética do Reino Unido de dependência do carvão britânico e teve mão pesada contra o poder dos sindicatos. "A economia tem vindo a ser transformada nos últimos 20 anos, há muitas fábricas e Wakefield está a tentar regenerar-se num centro artístico e modernizar-se", explica o jornalista David Spereall..Quem chega de comboio de Londres depara-se com uma estação que foi alvo de obras há pouco tempo, com um espaço verde no exterior e vários edifícios modernos em seu redor, de aço e vidro, numa paisagem em que o vermelho dos tijolos típicos das cidades industriais inglesas é dominante e em que se destaca o pináculo de 75 metros da catedral de Wakefield. Mas ainda há sinais de múltiplos problemas, com vários pedintes e sem-abrigo na zona e sinais a dizer "aluga-se" em várias lojas e espaços de escritórios..Num centro comercial, sentada numa esplanada a beber um chá enquanto descansa depois de ter andado de um lado para o outro para conseguir adormecer Alice no carrinho de bebé, Allison James, de 38 anos, conta que também ainda não sabe em quem votar no dia 12. Ou se o vai fazer.."Vai depender da última semana de campanha, devo admitir. No passado, votei Labour, da última vez já por hábito. A verdade é que não estou convencida com Jeremy Corbyn. Pelo menos, no caso de Boris Johnson já sabemos ao que vem." Para Allison, as mudanças que Corbyn defende parecem demasiado radicais para o país, mas admite que gostaria de que os filhos (Peter já está na escola) pudessem ir para a universidade sem pagar propinas, como o Labour defende, mas que isso lhe parece uma ilusão..Graham rejeita a ideia de que Corbyn é demasiado radical. "Pessoalmente não concordo. Os planos de gastos do Labour são criticados, mas levar-nos -ia para a média dos gastos públicos na Europa. O que aconteceu no Reino Unido foi que durante 70 anos o Daily Mail, o Daily Telegraph, o Daily Express e o The Sun têm estado a injetar veneno na política, persuadindo as pessoas de que ideias razoáveis e sensatas são, na realidade, extremas. É nonsense. Mas eles são propriedade de milionários, que não querem ver justiça neste país.".Uma das políticas que acredita que podem beneficiar Wakefield é a nacionalização de uma série de serviços, incluindo no transporte ferroviário. "Os comboios são caros no Reino Unido porque os acionistas querem receber lucro. É por isso que as nacionalizações que Corbyn propõe são uma boa medida. É o mais sensato a fazer. É como existe em França e na Alemanha", explica Graham.."Não me interessa que a viagem para Londres seja encurtada em 15 ou 20 minutos. O que quero é retirar tempo à viagem de carro para Manchester, que é apenas a 150 milhas de distância (240 quilómetros)", desabafa Alan, lamentando que Wakefield, que no passado foi a capital da região, tenha perdido o seu poder. "Agora não temos nada, foi tudo para Leeds.".O candidato de última hora.Imran Ahmad-Khan foi o candidato de recurso dos conservadores em Wakefield, depois de Antony Calvert se ter demitido no início de novembro por declarações polémicas. Apelidou Londres de "Londristão" (numa referência ao aumento do número de muçulmanos) e disse que Craigh tinha aparecido horrível durante uma entrevista televisiva. "Obviamente, o departamento de maquilhagem da BBC não trabalha aos domingos", escreveu no Facebook. Khan, que é natural de Wakefield, passou os últimos anos a "lutar pela democracia e pela liberdade" como perito em contraterrorismo em países como "o Afeganistão, a Síria e a Somália", mas agora volta a casa com o objetivo de derrotar a deputada trabalhista. Esta disse que ele iria "cair de paraquedas" na cidade e ele não quis desiludir, lançando-se, de facto, de paraquedas no início da sua campanha eleitoral.."As pessoas estão cansadas, estão frustradas, estão fartas de palavras vazias e promessas quebradas", disse Khan ao DN, à saída da catedral de Wakefield, depois de um debate com Creagh e Wiltshire. "Se as pessoas me quiserem dar uma oportunidade, vou aproveitar essa oportunidade. As pessoas dizem alto e bom som que sim, que me querem, que querem uma mudança e libertar Wakefield de 90 anos de mau governo do Labour", acrescentou, confiante de que é possível essa vitória.."Esta eleição é sobre a democracia. Foi por causa da nossa democracia representativa, do nosso sistema, que não sofremos as consequências dos totalitarismos do século XX como os nossos vizinhos europeus. E agora temos aqui um exemplo perfeito. Uma deputada, a minha opositora, que foi contra o povo, que repudiou o povo, que nos chamou parvos, sem educação, que não fez o que o povo queria", lembrou, dizendo que, se os eleitores não ficarem convencidos, podem demiti-lo nas próximas eleições. "É o bom da democracia.".No debate no interior da catedral, Creagh explicou que votou contra o Brexit porque não poderia votar em algo que significaria deixar as pessoas de Wakefield mais pobres, que dividiu famílias, amigos e comunidades e que apelidou de "novo veneno" a destruir o Reino Unido. E lembrou que o próprio Boris Johnson votou contra o acordo do Brexit de Theresa May, lembrando que a antecessora do atual primeiro-ministro acabaria por mudar de ideias porque isso lhe interessava. Nas declarações iniciais, tinha deixado a pergunta aos eleitores: "Vocês querem uma deputada trabalhista forte ou um conservador que é um yes man do Boris?".Creagh é deputada desde 2005 e chegou a ser candidata a líder do Labour, quando Ed Miliband deixou o partido após as eleições de 2015, tendo ocupado várias posições de ministra-sombra quando ele era líder da oposição, incluindo do Ambiente e Desenvolvimento Rural e dos Transportes. Deixou o governo-sombra com a eleição de Corbyn, que não apoiou e de quem tem sido crítica..Apesar de contar com um grupo de apoiantes no interior da catedral anglicana, era claro que estava em minoria em relação aos conservadores e aos apoiantes do Partido do Brexit. Proibidos pelo moderador de intervir ou interromper os candidatos, os eleitores expressavam-se apenas com aplausos no final das intervenções. À saída, Creagh foi pressionada por um conservador a explicar umas declarações, na véspera, sobre a fábrica onde o pai trabalhava e que Thatcher tinha fechado, mas a candidata recusou-se a responder..Alterações climáticas.O debate a três dentro da catedral foi moderado pelo reverendo Simon Cowling e as perguntas foram enviadas com antecedência. "Curiosamente, nenhuma é sobre o Brexit", disse. O maior número de questões foi sobre alterações climáticas. Creagh lembrou que "justiça climática e social andam de mãos dada" e, depois, recordou o plano do Labour em relação, por exemplo, a casas energeticamente eficientes. Já Khan lembrou que "há oportunidades" nas alterações climáticas e que o Reino Unido pode ser uma "potência mundial" em energias alternativas e "exportar energia para o continente", enquanto o candidato do Partido do Brexit não hesitou em lembrar que, por muito que o Reino Unido faça, isso não significará nada se a China não fizer nada. "Este é um problema que tem que ser resolvido à escala mundial", referiu.."Gostava de que se falasse mais de alterações climáticas na campanha e como enfrentar o problema por exemplo do plástico. Mas eles são todos iguais, só falam do Brexit. Cada vez que ligamos a televisão ou entramos nas redes sociais é só o Brexit", lamenta Lily Green, de 18 anos, sentada à porta do colégio universitário local, numa pausa entre as aulas do curso de Artes. Lily não esteve no debate na catedral.."Agora temos a Greta Thunberg a falar pelos jovens e depois temos quem diga que ela devia era ir para a escola. Mas adivinhem? Ela só está a falar porque vocês não estão a ouvir os cientistas que dizem que só temos dez anos para reverter a situação", queixa-se. "Eu gosto da ideia do Partido Verde. São contra o Brexit, mas nunca ninguém verdadeiramente vota neles e não gosto da ideia de desperdiçar o meu voto.".Lily mostra a sua indecisão também por causa daquilo que os diferentes partidos dizem que pode vir depois do Brexit. "Todos acham que têm uma ideia sobre como vai ficar o país, mas ninguém na realidade sabe", adianta.."Na realidade, não conheço ninguém que tenha votado no Brexit, mas também não percebo de onde veio esta ideia de que estaríamos melhor fora da União Europeia. Eu percebo quando se falava das estranhas regras que temos de seguir por estar na União Europeia, mas lidem com isso, não saiam. Há muitos mais benefícios por estar dentro da União Europeia", justifica Lily..No debate falou-se ainda da morte de um sem-abrigo na cidade, com Khan a aproveitar para criticar as políticas locais do Labour e Creagh a apontar o dedo a uma década de políticas conservadoras no governo em Londres. E do Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), outro dos temas que têm dominado as conversas na campanha, com Boris a ser acusado por Corbyn de querer "vender" o NHS aos EUA e a Donald Trump. Mas quer as promessas de um lado quer do outro não são levadas a sério nas ruas. "Prometem sempre muitos médicos e enfermeiras e professores e mais segurança e depois não se vê nada", disse Justin.."O Serviço Nacional de Saúde é o grande tema destas eleições, a qualidade dos serviços públicos é outro grande tema. E se tivermos outra década de decadência com um governo conservador, então o NHS está em risco, os serviços públicos vão cair ainda mais. E são os trabalhadores que podem ter sido persuadidos a votar pelo Partido do Brexit e pelos Tories que serão os grandes perdedores", lembra Graham, do Labour, no exterior da catedral, enquanto distribui um panfleto com os riscos que os conservadores representam para a saúde dos britânicos..Eleições decisivas?.Foi em Wakefield que o primeiro-ministro disse, ainda em setembro, num evento com a polícia de West Yorkshire, que preferia estar morto numa vala do que adiar o Brexit para lá de 31 de outubro - algo que acabaria por ser obrigado a fazer. Agora, Boris Johnson espera com estas eleições conseguir uma maioria absoluta de deputados conservadores no Parlamento britânico que aprove o acordo do Brexit que já negociou com a União Europeia - todos os candidatos dos Tories se comprometeram com o líder a apoiá-lo - e conseguir esse Brexit até ao final de janeiro..As sondagens dão aos conservadores uma vantagem de dez pontos percentuais a nível nacional mas, num sistema em que é o candidato mais votado em cada circunscrição que é eleito (mesmo que por apenas um voto), as corridas em locais como Wakefield tornam-se importantes..Mas os eleitores duvidam de que as eleições acabem com um resultado assim tão certo. "Duvido, para ser honesta, que estas eleições não acabem noutro Parlamento dividido", lamenta Lily, tal como Graham mais cedo tinha feito. "Duvido que no final destas eleições haja um resultado claro. E a noção de que podemos conseguir um Brexit é errada. Tudo o que podemos fazer é começar o Brexit, então talvez tenhamos cinco ou seis anos de negociações complicadas, no final das quais ainda vamos estar muito longe de onde estamos agora, como membros da União Europeia", refere o apoiante do Labour..O candidato dos Tories é mais confiante: "Acho que Boris Johnson vai ter uma maioria confortável, acho que vamos ter uma maioria de dezenas e dezenas de deputados. Não vejo outra opção. Se o povo do Reino Unido decidir prejudicar-se a si mesmo e dar a Corbyn e a [Nicola] Sturgeon [a primeira-ministra escocesa e líder do Partido Nacionalista Escocês SNP] um governo de coligação, será um pesadelo interminável de recriminação do Brexit e um país quebrado", lamenta, referindo-se a uma aliança entre trabalhistas e o Partido Nacionalista Escocês, da chefe de governo escocesa..No meio da discussão entre Tories e Labour, o Partido do Brexit quer surpreender. "Toda esta conversa de nós estarmos a dividir o voto conservador em Wakefield é ridícula. É o Partido do Brexit contra o Labour com os Tories a uma longa distância em terceiro. As pessoas de Wakefield têm o hábito de votar por nós. Mal posso esperar pela onda de choque que vai passar pelos partidos tradicionais quando ganharmos", escreveu Peter Wiltshire no Twitter.