Mário Pardo: "A ideia não é suicidar-me é desfrutar do salto e da sensação de liberdade"

Nasceu em Lisboa, a 21 de outubro de 1960, e sempre se sentiu atraído pelo ar. Aos 20 anos cumpriu o serviço militar nas tropas para-quedistas. Algum tempo mais tarde lançou-se na queda livre. Campeão Nacional por três vezes, o homem-pássaro representou Portugal em várias competições mundiais. É o primeiro base jumper português e explicou ao DN o que sente quando salta. Para o Mário, "o céu não é o limite, é o ponto de partida".

Como surgiu o fascínio pelo salto?

Sinto-me atraído pelo ar e pelo espaço desde miúdo. Cheguei a passar noites a olhar para o céu e a imaginar viagens e aventuras. Hoje faço paraquedismo e base jumping, uma modalidade diferente do paraquedismo, com saltos feitos a partir de objetos fixos - Base é um acrónimo das palavras em inglês de Building, Antenna, Span, Earth.

Imagino que se fartem de lhe chamar "grande maluco"...

Sim. É o que toda a gente diz à primeira vista, sim, mas eu não me considero um grande maluco, considero-me um aventureiro.

E qual é a parte da aventura de que mais gosta? A liberdade do salto, o risco, o perigo...

O paraquedismo traz-nos a possibilidade de nos confrontarmos com o medo e a ansiedade, e de os ultrapassarmos. A experiência de viver com esse medo e passar para além da barreira do medo é uma experiência que eu acho altamente enriquecedora e que se pode e deve transportar para todas as coisas da nossa vida. Todos nós temos os nossos medos e anseios, uns disto, outros daquilo. A experiência do salto muitas vezes é simbólica e acaba por nos ajudar em outras áreas da nossa vida. Ultrapassar o medo é uma das principais coisas que me leva a saltar. E também o facto de saltar de sítios fantásticos com vistas maravilhosas e a sensação de liberdade. Muitas vezes vivemos aprisionados pelos medos e ultrapassá-los é libertador. A sensação de liberdade que se sente quando se faz este tipo de atividade é fantástica, o medo é substituído por uma fantástica sensação de liberdade... é mesmo UAU...

E que medos é que o Mário queria ultrapassar quando começou a fazer paraquedismo?

Sei lá... eu tinha imensos medos. Ao contrário do que se possa pensar, eu achava-me um miúdo muito assustado e cheio de medos, não tinha uma autoestima por aí além, que me valesse a confiança que eu precisava sentir em mim próprio. Tinha imenso medo de ser rejeitado, que não gostassem de mim, aquelas coisas que eu acho que de certa maneira todos têm. Esses eram os meus medos.

E desapareceram com o salto?

Não foi logo de imediato, não é como carregar num botão e já está. Quando nós fazemos um salto é uma experiência fantástica, não só pela experiência mas também pelo impacto emocional que tem em nós. Há um caminho que se vai percorrendo. No meu caso tenho alguma formação em psicoterapia e acabei por fazer algum trabalho de desenvolvimento pessoal e associar uma coisa à outra foi importante.

Lembra-se do primeiro salto...

Perfeitamente. Estava muito assustado, cheio de medo... porque isto de uma pessoa se atirar de um avião abaixo vai contra o que são os nossos instintos, que é estar em terra, pé firme. Aliás, muitas vezes temos pesadelos em que estamos no ar e temos medo de cair. Eu não fui exceção e no primeiro salto ia cheio de medo... Foi um salto na tropa, um salto de abertura automática.

Foi na tropa que ganhou esse fascínio pelo paraquedismo?

Sempre tive fascínio pelo ar, o céu... e já fui para a tropa a pensar nisso. Na altura o serviço militar era obrigatório, mas podíamos escolher para onde queríamos ir e eu escolhi os paraquedistas. Por um lado porque sempre me identifiquei imenso com o elemento ar e depois porque eu realmente queria provar a mim próprio e aos outros que tinha coragem e conseguia enfrentar os meus medos.

O salto para o desconhecido não o assustava?

Das primeiras vezes, sim, foi um salto para o desconhecido, hoje já não salto para o desconhecido, a experiência já não é nova. Há sempre imponderáveis que podem acontecer. Quando o salto é bem pensado devemos ter um plano A, B ou C, caso o vento seja assim ou assado. Os saltos são planeados e não é propriamente um salto para o desconhecido.

Agora cada salto já é um projeto...

Se for paraquedismo a coisa é mais fácil, vamos para o aeródromo onde se fazem os saltos, paraquedas às costas e saltamos. Se for base jumping planeia-se o salto. Eu gosto de fazer saltos diferentes, não saltar duas vezes do mesmo local e aí requer algum planeamento, principalmente se quisermos filmar e registar o salto. Aí, além do planeamento do salto, há o planeamento da produção. Os saltos nunca deveriam ser feitos por acaso, deviam ser planeados e bem pensados. O base jumping é bastante mais perigoso e arriscado do que o paraquedismo e carece de cuidados acrescidos, se queremos continuar vivos para saltar.

Existe uma altura mínima de segurança para saltar no base jumping?

Sim. Há uma altura a partir da qual o paraquedas não tem tempo para abrir. Eu o mínimo que saltei foram 50 metros, mas sei de quem já saltou menos do que isso, salvo erro de 30... Esse é mais ou menos o limite, abaixo disso o paraquedas não tem tempo para abrir.

Quando decidiu que isto ia ser a sua vida?

Não foi uma coisa planeada, foi acontecendo. Depois de sair da tropa fiquei uns anos sem saltar. Na altura não havia facilidade como há hoje com sítios para praticar. Depois acabei por voltar aos saltos. Eu só tinha feito saltos automáticos e queria mesmo era experimentar queda livre e então encontrei um aeroclube onde fiz o curso de queda livre. Fiquei apaixonadíssimo por aquilo. Fui saltando, depois juntamente com uma rapaziada formei uma equipa e acabámos por ganhar o campeonato nacional. Fomos a primeira equipa civil a ganhar um campeonato nacional de paraquedismo. Ainda fui campeão mais duas vezes e convidado a representar Portugal em campeonatos do mundo... Depois chegou ali uma altura em que senti necessidade de crescer e evoluir, de alguma maneira aprender mais e foi quando vi um salto de base jumping e disse é isto que eu quero fazer. Na altura não havia nenhum base jumper português, eu fui o primeiro. Soube de um americano, o Tracy Lee Walker, que estava a viver na Alemanha e que dava aulas, contactei-o e fiz as malas. Fiz o curso e o meu primeiro salto de base jumper nos Alpes italianos (Monte Brento) em 2000.

Fazer o curso de base jumper não é como fazer um curso de inglês para ter um emprego. O que esperava fazer depois?

Fiz o curso para curtir, para me divertir, para fazer algo que nos é prazeroso. Nunca foi na expectativa de ter um futuro ou viver disso. Nessa altura já tinha a escola de paraquedismo e queda livre em 1998 e eu dei o primeiro salto de base jumping em 2000.

Como aparece a escola de paraquedismo?

A Queda Livre nasceu de uma vontade enorme de partilhar uma atividade pela qual estava apaixonado e ao mesmo tempo financiar a minha própria atividade de paraquedista que é um desporto algo dispendioso. Eu vivia do meu ordenado e tinha algumas limitações orçamentais que não me permitiam saltar tanto quanto queria. No fundo era para conseguir uns trocos para saltar mais e mais. Depois as coisas foram evoluindo e crescendo. Hoje temos um centro de paraquedismo, aviões, paraquedas e uma data de coisas caríssimas...

Disse que o paraquedismo não é uma atividade barata...

Um salto bilugar (com um instrutor) pode ir de 115 a 175 euros dependendo da altitude, se for um curso de paraquedismo custa 1500 euros. Se depois quiser comprar um equipamento são mais uns 8/9/10 mil euros. A maior parte recorre ao aluguer. O material de base jumping é mais básico, logo mais barato, fica para aí em metade desse valor.

Quando aparece alguém na escola a querer saltar, o que lhes diz?

Eu dou-lhe o meu conhecimento para ajudar em todo o processo. Lembro-me de algumas situações em que fiz quase de terapeuta. A minha principal preocupação é saber avaliar se a pessoa tem condições físicas e psicológicas para realizar o salto de maneira a que desfrute. Já tive duas situações de dois indivíduos em que recusei o salto. Disse-lhe que eram livres de ir saltar noutro lado, mas que eu recomendava que não o fizessem. Uma dessas pessoas tinha um problema mental de certeza, queria fazer as coisas mais mirabolantes... mas a maior parte quer é viver uma experiência única.

Quando vê uma cena num filme que mete salto de paraquedas, o base jumping pensa: 'Podia fazer isto' ou 'nem penses que isto era possível'...

Claro que sim. Consigo perceber com alguma facilidade se aquilo é uma banhada ou se está bem feito. Normalmente existe um misto. Há um salto muito giro num filme do triple XXX com Vin Diesel, em que ele salta de um carro descapotável de uma ponte e abre o paraquedas e o carro explode lá em baixo. Está tão bem feito que eu acredito que foi um salto real. Esse está bem feito, eu fá-lo-ia se me dessem um carro para destruir (risos).

Como se passa para os saltos urbanos... O salto da Ponte 25 de Abril, a partir do topo de um camião TIR em andamento, o salto da mota no Cabo Girão na ilha da Madeira, o salto do Padrão dos Descobrimentos, entre muitos outros.

Sei lá... Eu desde que fiz o primeiro salto de base jumping olho para os edifícios e classifico-os em duas categorias, os saltáveis e os não saltáveis (risos). Eu olho para uma ponte e penso "era giro saltar daqui", depois vejo um prédio e penso, "dava para saltar daqui". A Ponte 25 de Abril é a da minha cidade e não podia escapar.

Pede autorizações para fazer os saltos ou faz às escondidas?

Depende... O base jumping não é proibido, não há nenhuma lei que proíba o salto. Por vezes o que acontece é que o acesso aos locais não é permitido. Na Ponte 25 de Abril não é possível andar a pé, portanto se eu fosse a pé estaria a infringir uma lei e por isso fui um pouco mais criativo e meti-me em cima de um camião e depois saltei entre os cabos. Foi preciso planear e bem. Passei inúmeras vezes por cima da ponte e por baixo para avaliar não só o salto como a amaragem. A velocidade a que o camião tinha de ir, a distância entre os cabos que é de seis metros... Eu tinha contacto áudio com o motorista do camião e ia falando com ele para acelerar ou abrandar. Quando saltei, o camião ia a 20 à hora e saltei entre os cabos. O segundo salto já foi autorizado. Saltei do topo do pilar da ponte, deram-me autorização, devem ter pensado assim como assim ele já saltou uma vez...

Alguma vez foi preso?

Não (risos), mas já fui uma vez até à esquadra. Apanharam-me, apreenderam-me o material, mas não fui acusado porque não sabiam ao abrigo de que lei o podiam fazer e acabaram por me mandar embora. Foi curioso porque foi um salto do antigo Hotel Alfa, hoje Hotel Corinthia, tem uns 80 metros, e do que eles me podiam acusar era de invasão de propriedade alheia - o hotel estava em obras e eu saltei a vedação e subi até lá cima com ajuda dos andaimes das obras - mas acabaram por não o fazer. Foi uma situação gira porque a advogada a quem foi dado o caso tinha saltado comigo 15 dias antes, então acabámos a rir daquilo e ficou tudo em águas de bacalhau. Mas é preciso dizer que nunca coloquei ninguém em perigo.

Qual foi o salto que mais gosto deu fazer?

Eu gosto deles todos, mas há um que eu adorei fazer. O salto que fiz com uma moto no Cabo Girão na Madeira. Esse foi brutal. Construíram uma rampa, eu acelerei e voei dali para fora... uns 580 metros, acho eu. Foi para uma novela como duplo de um artista da telenovela, que por acaso era meu amigo. Já fiz vários saltos para novelas, pedem-me com regularidade... São saltos reais.

Quando salta há tendência para se deixar ir?

Até um certo limite sim. A ideia não é suicidar-me, é desfrutar do salto e da sensação de liberdade. Existe essa tendência e deve ser bem gerida. Eu sempre fui de levar as coisas até ao limite, mas com o base jumping aprendi que é preciso deixar uma margem de manobra. No paraquedismo se algo corre bem temos um paraquedas de reserva, mas no base jumping só temos um e de abertura manual, somos nós que o acionamos. Havendo falhas as consequências podem ser drásticas. Acidentes há em todo o lado, mas felizmente não há muitos acidentes. Morrer vamos todos de uma maneira ou de outra, mas é preciso praticar de forma mais conscienciosa possível, não nos permitirmos ir até ao limite, essa é a opção sensata. O risco está lá sempre, agora pode é ser minimizado.

A experiência e a rotina já o levaram ao relaxamento?

É da nossa natureza, de alguma maneira aliviarmos e ficarmos tão à vontade que facilitamos e descuramos alguns aspetos importantes. Já me aconteceu, felizmente sem consequências, mas é algo para o qual estou sempre muito atento para não deixar o facilitismo instaurar-se.

Há cerca de duas semanas um homem morreu na Nazaré a fazer base jumping. O que terá acontecido?

Conheço o sítio e já de lá saltei. Não estando lá, pelas imagens do acidente, ou havia um problema de dobragem e de equipagem do paraquedas ou o paraquedas apanhou com o vácuo e não abriu. É preciso dizer que não existem muitos acidentes porque quem pratica respeita o risco e os perigos de praticar.

Já apanhou algum susto?

Já tive alguns sustos sim. Uma vez quase bati numa parede de uma montanha, mas felizmente não passou de um susto. Foi uma lição quase de borla.

A maioria desistiria depois de apanhar um susto...

Provavelmente. Eu não desisti... Um erro só é um erro se nós não aprendermos com ele. Eu preferi fazer do erro uma lição para a vida. Há pessoas que deixam que o medo fale mais alto, outras nem tanto... a tendência é ultrapassar os meus medos e isso faz-se com preparação, com treinos. Aquilo que seria uma loucura eu fazer segundo os parâmetros da normalidade, se me preparar, treinar e tiver os equipamentos necessários e adequados reduzo consideravelmente o risco para um valor aceitável.

Já há uma nova aventura pensada?

Eu tenho um projeto já algum tempo que por falta de tempo e de orçamento ainda não aconteceu. Saltar de uma catarata na Amazónia. Para fazer as coisas com pés e cabeça e registar o momento anda à volta dos 200 mil euros e umas 20 pessoas envolvidas. Os saltos são únicos, não há salto experiência... Escolhi o sítio por ser absolutamente brutal, no meio da Amazónia e por questões ecológicas. O meu último salto foi da torre da Galp e teve motivações ambientais. As questões ecológicas são apelativas para mim, temos de tratar do planeta. Vai ser um salto para despertar consciências. Podem dizer, "mas achas que sozinho vais conseguir alguma coisa?" Para começar vai fazer diferença para mim porque me sinto bem com a minha consciência e depois porque se todos pensarmos desta forma isso vai se massificar e tornar impactante.

Imagina-se a saltar até ao resto da vida?

Não há limites de idade instituídos, cada um desenhará os seus limites. Eu ainda me imagino a saltar. Menos do que anteriormente, talvez porque esteja numa fase da vida em que me apetece experimentar outras coisas, outros interesses, quero fazer outras coisas, mas vejo-me a continuar a saltar até ver. Não sei se alguma vez chegarei ao ponto de dizer chega, não quero mais, mas acho que não...

Que outros interesses para além do salto são esses?

Sou muito dado a coisas do crescimento pessoal e cada vez me interesso mais por isso. Quero ver até onde consigo ir, tentar perceber o meu eu e dar o salto para dentro de mim e poder perceber os limites, se é que eles existem ao nível do conhecimento, energia e espiritualidade. Estou fascinado com o mundo quântico. Hoje, além do treino físico a meditação já faz parte do meu dia-a-dia... Muitas vezes a mente não é treinada como deve ser e eu cada vez mais suspeito de que temos potencialidades que se forem treinadas nos podem levar mais além.

O Mário costuma dizer que "o céu não é o limite, é o ponto de partida". Isto é uma frase bonita, mas que sentido tem para si?

Para mim tem que ver com as razões pelas quais comecei a fazer paraquedismo, tem que ver com o processo de desenvolvimento pessoal. A determinada altura toda a gente dizia, o céu é o limite e eu achei que devia reinventar esse conceito, para mim o céu não era o limite, era o ponto de partida. Não é só uma frase gira, tem um significado real. Os limites podem sempre ser empurrados um pouquinho... O que entendemos hoje como limite não o é, é o ponto de partida para chegar mais além.

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