Premium Há 17 portugueses entre os investigadores mais citados do mundo. Neste ano quase duplicaram

A lista já saiu. Entre os seis mil investigadores de todo o mundo, cujo trabalho maior influência tem nas respetivas áreas científicas, há 17 que são portugueses, ou estão a trabalhar em Portugal. É quase o dobro do ano passado.

Nuno Peres, sem surpresa. Pelo quinto ano consecutivo, o físico e professor catedrático da Universidade do Minho, que desde 2004 faz investigação sobre o grafeno (uma forma bidimensional de carbono com potenciais aplicações na eletrónica e noutras áreas), é o cientista português com o maior número de citações do seu trabalho a nível mundial. Ou seja, é o um dos mais influentes do mundo na sua área.

A lista dos cientistas mais citados em 2018 já saiu e há uma boa surpresa: o número de portugueses - ou a trabalhar em Portugal - no grupo dos mais influentes mais do que duplicou em relação aos anos anteriores.

Há apenas seis mil investigadores cujas publicações científicas são mais citadas pelos outros investigadores - é isso que dá a medida da sua influência na respetiva área científica. E dos seis que desde 2015 tinham em Portugal a marca de Highly Cited (mais citados), Portugal passou neste ano a ter 14, além de outros três, que são portugueses mas desenvolvem o seu trabalho noutros países e que também integram este grupo restrito de excelência.

A lista é elaborada anualmente pela Clarivate Analytics, que passou a fazê-lo em vez da Thomson Reuteurs, tendo para isso adquirido as suas bases de dados Web of Science. A produção destes seis mil investigadores mais citados representa 1% do que se publica anualmente em ciência no mundo.

As potencialidades do grafeno

Com um total de 24 594 citações dos seus artigos - o que representa uma média de 315 citações por artigo -, Nuno Peres é o mais citado entre todos os cientistas portugueses, ou a trabalhar em Portugal. O grande potencial de inovação das suas investigações sobre o grafeno contribui para que isso seja assim.

O investigador da Universidade do Minho interessou-se em 2004 pelo grafeno "por ser uma forma bidimensional da matéria", como explicou em entrevista ao DN em 2016. Físico teórico, Nuno Peres cruzou-se em 2005, numa conferência internacional, com Andre Geim e Konstantin Novoselov, dois russos da Universidade de Manchester, e quando os três se aperceberam de que estavam a trabalhar sobre o mesmo material - Nuno Peres na parte teórica, os russos na parte experimental -, decidiram colaborar.

Em 2010, os russos ganharam o Nobel da Física pelo seu trabalho experimental, que abriu um mundo de possibilidades novas na eletrónica, na ótica, na medicina e em materiais compósitos, e, em 2011, os três publicaram um trabalho conjunto sobre as propriedades elétricas de um material à base de grafeno. Esse é um dos artigos muito citados do português, mas o recordista é um artigo de 2009 em que Nuno Peres faz a revisão da física do grafeno, e que hoje tem um total de 12 979 citações. Certamente, não vai ficar por aqui.

Hoje com 51 anos, Nuno Peres é o coordenador nacional de um dos maiores programas científicos europeus, oGraphene Flagship, que envolve mil milhões de euros e cerca de 200 grupos de investigação internacionais.

Os veteranos da lista e os que entram agora

Neste ano, a Universidade do Minho conta com mais três investigadores na lista dos mais citados: José Teixeira, António Vicente e Miguel Cerqueira, todos nas áreas das ciências agrárias, o que "confirma a estratégia" adotada para a ciência e tecnologia, "em particular nos centros de física e de engenharia biológica", que "intensificaram esforços em investigação e aumentaram a sua visibilidade internacional", de acordo com a instituição.

Há oito cientistas em Portugal que entram pela primeira vez nesta lista, mas há outros, como Nuno Peres, que são repetentes. É o caso também de Miguel Araújo, biólogo e especialista em ecologia da Universidade de Évora e do Conselho Superior de Investigações Científicas, de Espanha. Ele é o segundo com o maior número de citações no grupo, com um total de 23 993, e uma média de 177 por artigo.

Perito no impacto das alterações climáticas nas espécies e na sua conservação, Miguel Araújo foi um dos autores do 4.º relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental para Alterações Climáticas da ONU, em 2007.

Isabel Ferreira e Lillian Barros, do Instituto Politécnico de Bragança, repetem a sua presença na lista, e o mesmo acontece com Mário Figueiredo e José Bioucas-Dias, ambos do Instituto de Telecomunicações, no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa.

Isabel ferreira, natural de Bragança e doutorada em Química pela Universidade do Minho, é pioneira no Instituto Politécnico de Bragança. Após o doutoramento, regressou à sua terra natal para desenvolver aí trabalho inovador na área da investigação agroalimentar, procurando nos fungos e nas plantas da região novas moléculas para a produção de corantes e conservantes naturais e saudáveis para indústria agroalimentar. O seu trabalho tem um total de 10 914 citações, com uma média de 28 por artigo.

Lillian Barros entrou no ano passado para este grupo dos que mais influenciam a ciência. Autora de 174 artigos, muitos em colaboração com Isabel Ferreira, a investigadora tem um total de 5058 citações, com uma média de 77 por artigo.

Já Mário Figueiredo e José Bioucas-Dias, respetivamente com 9584 e 10 082 citações, desenvolvem investigação, o primeiro em técnicas computacionais de reconstrução de imagem, para aplicação em diagnóstico médico e imagens de satélite, e o segundo em algoritmos para processamento de imagens hiperespectrais (com mais de 300 cores) fundamentais para as imagens de satélites.

Nova geração e os portugueses lá fora

Além dos cientistas que repetem a proeza de figurar na lista, neste ano há também uma série de nomes novos, o que mostra que o trabalho de excelência tem um efeito multiplicador importante e que as novas gerações começam a ter também o seu próprio peso na ciência em Portugal - o número crescente de bolsas milionárias do Conselho Europeu de Investigação para cientistas em Portugal é outra faceta desta mesma realidade.

Além dos novos investigadores da Universidade do Minho, que reforçam a presença da instituição neste grupo de excelência, há outros: do Instituto Politécnico de Bragança, Letícia Estevinho; da Universidade de Lisboa, Alan Phillips, na biologia, e Luís Santos Pereira (engenharia florestal); da Universidade de Évora, Pedro Miguel Areias, da engenharia de materiais e, finalmente, da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Twente, na Holanda, Henseler Jorg, na área da economia.

A trabalhar fora de Portugal, há mais três portugueses que integram esta lista: Caetano Reis e Sousa, do Francis Crick Institute, no Reino Unido, e Gonçalo Abecasis, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, ambos na área da imunologia, e ainda Inês Barroso, da Universidade de Cambridge e do Wellcome Trust Sanger Institute, no Reino Unido, da genética e biologia molecular.

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