Premium Alckmin é o mais recente candidato à presidência na mira da justiça

Ministério Público exige perda de direitos políticos do concorrente do PSDB. Na véspera, fora Haddad, o plano B do PT, a ser alvo da justiça. O plano A, Lula, está preso. E Bolsonaro, que processou Ciro Gomes, aguarda julgamento.

O Ministério Público denunciou o ex-governador de São Paulo e candidato do PSDB à presidência da República Geraldo Alckmin por improbidade administrativa em caso relacionado com a Operação Lava-Jato. Em causa, uma investigação sobre irregularidades nas campanhas do político em 2010 e 2014, quando foi eleito para o governo do estado mais populoso do Brasil. Na ação, a Procuradoria pede que Alckmin seja condenado a devolver os valores supostamente recebidos de forma ilícita, à perda da função pública que ocupe e à suspensão dos seus direitos políticos.

Consta da acusação que o candidato recebeu para financiar aquelas campanhas dez milhões de reais (perto de 2,2 milhões de euros ao câmbio atual) não declarados da construtora Odebrecht, além de outros 8,3 milhões (1,8 milhões de euros) transferidos da construtora. Cinco executivos da Odebrecht e a própria empresa foram também denunciados pelo Ministério Público, numa ação que visa recuperar para os cofres públicos um total de 39,7 milhões de reais (8,8 milhões de euros).

Até 7 de abril, na qualidade de governador de São Paulo, Alckmin gozava de foro privilegiado - só poderia ser julgado em cortes superiores - mas ao entregar o cargo seis meses antes do sufrágio para poder candidatar-se ao Palácio do Planalto, como manda a lei eleitoral, ficou sujeito aos tribunais de primeira instância.

O candidato vem negando o envolvimento no esquema investigado na Lava-Jato, que já derrubara as pretensões de concorrer à presidência de dois rivais de Alckmin no próprio PSDB, os senadores Aécio Neves e José Serra.

Ainda na véspera, questões judiciais atingiram a provável candidatura de Fernando Haddad, do PT, à presidência - oficialmente, ainda é só candidato à vice-presidência. A promotoria acusou-o de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha com base na delação de Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, uma construtora, tal como a Odebrecht, investigada na Lava-Jato. Haddad negou a acusação, estranhou o timing e recordou que o delator em causa viu a Prefeitura de São Paulo, sob sua gestão, recusar-lhe uma obra sobrefaturada.

E se Haddad é tido como provável candidato é porque Lula da Silva, a primeira escolha do PT para as eleições, está já condenado e preso a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e outros crimes no âmbito da Lava-Jato. E tem ainda mais seis processos, noutras operações, a decorrer na justiça.

Jair Bolsonaro (PSL), por sua vez, vem sendo julgado no Supremo Tribunal Federal por racismo - o julgamento foi adiado na semana passada porque um dos juízes pediu para reler o processo. Pesam contra o deputado frases consideradas pelo Ministério Público como ofensivas à dignidade dos quilombolas, habitantes de comunidades rurais de afrodescendentes, dos índios e dos estrangeiros, numa palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, O candidato já é réu por ter dito a Maria do Rosário, deputada do PT, que só não a violava porque ela não merecia.

Bolsonaro, entretanto, processou Ciro Gomes (PDT), outro concorrente ao Planalto, que o acusou de "lavagem de dinheiro". "A [produtora de carnes] JBS depositou 200 mil reais na conta dele e mais outro tanto na do filho, ele quando viu entregou o dinheiro ao partido, que na mesma data devolveu o dinheiro para ele, o nome disso é lavagem de dinheiro", disse Ciro, antes de ser processado pelo capitão do exército.

E Henrique Meirelles, o candidato do MDB, se não tem ações contra si é, no entanto, alvo de suspeitas por ter presidido àquela empresa citada por Ciro, a JBS, a mesma cujo dono se reuniu com Michel Temer às escondidas na residência oficial deste a combinar pagamentos a um presidiário em troca do seu silêncio, de acordo com o Ministério Público.

Em rigor, Ciro também não é atingido diretamente pela Lava-Jato. Mas uma reportagem da revista Veja desta semana cita uma testemunha que afirma que o candidato sabia de um esquema de corrupção associado à operação que envolveu um irmão seu e o seu publicitário oficial.

Também a candidata Marina Silva, do Rede, foi citada numa delação de Léo Pinheiro, da OAS, o mesmo empresário acusado de oferecer o triplex a Lula, como beneficiária de uma doação de campanha não declarada, mas o episódio não resultou em ação.

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