Viagem de Odemira ao Porto

O teletrabalho, ontem amplamente debatido na Assembleia da República, não pode ser pretexto para abusos por parte das entidades empregadoras. Não pode permitir, sem lei, a invasão do espaço privado nem dizimar o pouco que resta do equilíbro desiquilibrado que tantos portugueses vivem no que toca à relação entre tempo de trabalho e tempo de qualidade para a família. Durante mais de um ano, os agregados familiares aguentaram uma realidade nova e imposta e suportaram, com sacrifício, no orçamento doméstico despesas inesperadas, como a aquisição de computadores portáteis, avultados custos com telefones, internet, água e luz.

O conceito de teletrabalho, há muito praticado nas multinacionais, não é isto. É um acordo de livre vontade, com meios e custos suportados pelas empresas. É bom e útil que a discussão no parlamento não seja estéril . Este é o momento de preparar o verdadeiro futuro do mercado laboral, mais digital, mas também mais ágil e desburocratizado, sem custos adicionais para cada um de nós.

A pandemia mostrou que é possível trabalhar, e bem, remotamente. A pandemia abriu a janela para o futuro, para a chamada modernidade laboral, mas não pode servir de desculpa para uma espécie de nova escravatura, cujo pau e o chicote são um telemóvel e um computador.

Por falar em escravos, é triste o que se passa em Odemira e urgente resolver situações de alegada escravidão, exploração e tráfico de seres humanos. Como escreve hoje no Diário de Notícias o eurodeputado Pedro Marques, "no Portugal de 2021, não pode haver lugar para as condições absolutamente degradantes em que centenas (ou milhares) de trabalhadores imigrantes foram instalados em explorações agrícolas do Alentejo, ao mesmo tempo em que na Europa nos batemos por introduzir uma dimensão social na política agrícola."

A dimensão social é, aliás, o tema central da Cimeira que vai acontecer no Porto, amanhã e no sábado, no âmbito da Presidência Portuguesa da União Europeia. O evento decorre na Alfândega, espaço historicamente marcado por novos horizontes e novos mundos a partir de um pequeno país que, quando quer, faz a diferença. No Porto é necessário marcar essa distinção, chamando a atenção para os temas que nos fragilizam enquanto seres humanos, preservando a sua dignidade e integridade. No Porto é preciso chamar a atenção da Europa para um acordo social que leve à implementação do Plano de Acção sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais. Só uma Europa mais justa, forte e inclusiva pode recuperar melhor e de forma mais rápida. E não temos mesmo tempo a perder.

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