Dois anos após o Ibizagate, ondas de choque ameaçam Kurz

Ex-líder da extrema-direita e vice-chanceler começa hoje a ser julgado. Vídeo em que prometia contratos estatais em troca de dinheiro gerou investigações que chegam ao chanceler.

Em maio de 2019, duas décadas depois de ter sido lançada, a música We"re Going to Ibiza! dos Vengaboys voltava aos tops na Áustria. Tudo por causa do escândalo que envolvia o então vice-chanceler austríaco e líder da extrema-direita, Heinz-Christian Strache, filmado nessa ilha do Mediterrâneo a prometer contratos em troca de apoio financeiro para o seu Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ). Dois anos depois, Strache começa hoje a ser julgado por corrupção e as ondas de choque do Ibizagate, como ficou conhecido o escândalo que levou à queda do governo, ainda abalam a política austríaca. O próprio chanceler Sebastian Kurz está sob fogo.

O vídeo foi filmado em 2017, antes das eleições de outubro que colocariam o FPÖ de Strache como parceiro de governo do conservador Partido Popular Austríaco (ÖVP) de Kurz. Não se apercebendo que era uma armadilha, aquele que viria a ser vice-chanceler prometia à alegada sobrinha de um oligarca russo contratos com o estado em troca de apoio para a campanha numa plataforma anti-imigração e anti-islão. E também discutia a facilidade com que grandes empresários financiavam ilegalmente os partidos políticos e a possibilidade de ela comprar o maior tabloide do país, o Kronen Zeitung, para que este tivesse uma linha editorial mais próxima do FPÖ.

Até hoje não se sabe quem é a mulher no vídeo, tendo apenas sido detido um detetive privado que terá ajudado a montar o esquema e que foi acusado de crimes de drogas, podendo ser condenado a 15 anos de prisão.

O verdadeiro escândalo só rebentaria a 17 de maio de 2019, quando o vídeo foi publicado pela revista alemã Der Spiegel e o jornal Süddeutsche Zeitung, acabando na Internet dias antes das eleições europeias (o FPÖ perdeu um dos quatro eurodeputados que tinha). Um dia depois, Strache demitia-se de todos os cargos (alegando que estava embriagado e não sabia o que dizia e criticando quem tinha filmado e divulgado as imagens) e punha em marcha as rodas da engrenagem que culminariam numa moção de censura ao governo e em eleições antecipadas em setembro, que voltariam a ser ganhas por Kurz. O FPÖ perdeu 20 deputados e o ÖVP coligou-se com os Verdes.

A partir do Ibizagate, foram lançadas várias investigações (há pelo menos 12 processos), com o telemóvel de Strache (e de outros políticos) a ser apreendido. No do antigo vice-chanceler foram encontradas mensagens que revelaram que, quando estava no governo, terá interferido para mudar a lei de forma a ajudar um doador do FPÖ (terá dado dez mil euros) a garantir fundos públicos para o seu hospital privado. É por isso que responde a partir de hoje em tribunal, por acusações de corrupção, podendo vir a ser condenado a cinco anos de prisão se for considerado culpado.

Kurz investigado

O escândalo não abalou apenas a extrema-direita, podendo mesmo atingir o chanceler. Em maio, o próprio Kurz confirmou que está a ser investigado pelos procuradores anticorrupção por alegadamente ter prestado falso testemunho diante de uma comissão parlamentar que investigava o Ibizagate. Caso seja considerado culpado, o jovem chanceler de 34 anos - que nega qualquer crime - pode ser condenado a três anos de prisão.

Se for acusado oficialmente, haverá pressão para que se demita, algo que ele recusa fazer, mas os Verdes ainda não disseram o que fariam caso tal acontecesse. Já o Partido Social-Democrata (SPÖ, o maior da oposição e segundo nas sondagens atrás do ÖVP) defende que uma acusação formal é uma "linha vermelha" .

Em causa está a nomeação do seu amigo Thomas Schmid, em 2019, como administrador da holding estatal ÖBAG, que administra as participações da Áustria numa série de empresas. O chanceler terá dito na comissão que não teve qualquer envolvimento na sua nomeação, mas há mensagens no telemóvel de Schmid (um dos que foi apreendido no Ibizagate) que sugerem o contrário. Numa delas, Kurz escreve: "Vais ter tudo o que queres" seguido de três emojis de beijos. Ao que ele responde: "Estou tão feliz. Adoro o meu chanceler." Schmid já se demitiu.

Também o ministro das Finanças e aliado de Kurz, Gernot Blümel, está a ser investigado por corrupção. No vídeo do Ibizagate, Strache alega que a empresa de jogo Novomatic terá feito grandes donativos ilegais tanto ao FPÖ como ao ÖVP - algo que foi negado. Blümel está a ser investigado porque a empresa terá alegadamente pago subornos ao ÖVP em troca de ajuda a evitar obrigações fiscais no estrangeiro. O ministro negou tudo e recusou demitir-se.

FPÖ: três líderes em dois anos

Heinz-Christian Strache estava à frente do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) desde 2005 quando, em maio de 2019, foi obrigado a demitir-se por causa do Ibizagate. O sucessor foi Norbert Hofer, que fora candidato presidencial em 2016 (venceu a primeira volta, mas perdeu a segunda para Alexander Van der Bellen, dos Verdes). Hofer, que procurou dar uma imagem mais moderada ao FPÖ para apelar aos eleitores, demitiu-se a 1 de junho, numa luta interna com Herbert Kickl, ex-ministro do Interior, mais radical, que foi eleito para lhe suceder no dia 20.

susana.f.salvador@dn.pt

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