Saber o que queremos da Europa

Seja qual for o desenho final do plano de recuperação económica da União Europeia, que os líderes europeus acabem por acordar (em Julho ou mais adiante), há algumas coisas que já sabemos. Vai haver mais dinheiro, e mais regras, para acelerar o que tinha sido definido como prioritário: fazer da economia europeia a primeira a ser verde, e com isso liderar o que se acredita que possa ser a economia do futuro; acelerar a transição digital, para evitar que fiquemos para trás e que em quase todas as comparações as empresas europeias apareçam no fim da lista, a perder para o mercado americano ou chinês; e, finalmente, tentar recuperar alguma autonomia industrial, e consequentemente empregos, mesmo que com custos de produção mais altos.

Todos estes processos estavam pensados e em curso quando a pandemia surgiu. O que muda, agora, é a que resposta à crise económica e o consequente plano de recuperação é um acelerador. O que significa - e isso importa-nos - que o processo vai ter mais dinheiro, vai ser mais rápido, e vai ser mais inclemente para quem não esteja preparado. Mas não deixa de ser negociado. E europeu.

Tudo isto só faz sentido, se fizer, sendo feito à escala europeia. Nem a maior economia da Europa tem dimensão para, isoladamente, disputar o campeonato global. É por isso que, com maior ou menor convicção, o caminho será europeu. Porque é essa a única escala que pode contar. O que significa que as decisões têm de ser tomadas em Bruxelas. É onde se desenha o acordo entre diferentes Estados membros e partidos políticos. Mas não quer dizer que as decisões são de Bruxelas, como se de uma entidade externa se tratasse. A Europa é um processo negocial e Bruxelas é onde se fecham acordos. Mas os interesses, e divergências, em causa são maioritariamente nacionais. Mais que ideológicos, como prova a divergência norte/sul ser mais relevante do que entre socialistas e conservadores.

Nas últimas semanas, Portugal tem-se queixado dos outros. Dos holandeses, dos frugais, dos britânicos. De um modo geral, temos argumentado que uns e outros têm prejudicado os nossos interesses por razões egoístas ou obscuras. Mesmo que tivéssemos razão - e não é evidente que seja sempre o caso - essa está longe de ser a melhor estratégia.

Não é preciso ser um cínico para compreender que os países têm interesses e que a Europa é mais um compromisso do que uma união. Daí que o mais importante seja saber o que se quer e onde se está disposto a ceder. E, depois, perder e ganhar.

Se o plano de recuperação da economia europeia vai ser o fator decisivo da economia nacional, é melhor que comecemos rapidamente a discutir o que é fundamental para os nossos interesses. Como se faz para que a transição verde seja uma oportunidade industrial, o que queremos fazer para dar mais forças às nossas empresas da economia digital, de que regras precisamos para que a concorrência seja justa. Precisamos de uma discussão interna, para uma negociação externa. Ou fazemos isso ou queixamo-nos dos outros.

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