Republicanos (quase) unânimes na absolvição de Trump

Destituído pela Câmara dos Representantes controlada pelos democratas, foi sem surpresa que Donald Trump foi absolvido dos crimes de abuso de poder e obstrução ao Congresso pelo Senado de maioria republicana.

O presidente Donald Trump foi absolvido das acusações de abuso de poder pelo Senado, com 52 votos favoráveis ao presidente e 48 contra. A acusação de obstrução ao Congresso dividiu republicanos e democratas na sua totalidade: 53 votos absolveram o presidente, 47 condenaram-no.

A votação aconteceu poucas horas após um discurso sobre o estado da União que evidenciou ainda mais as divisões entre os dois principais campos políticos, bem como as primeiras eleições primárias, nas quais os republicanos se uniram em torno do presidente e os democratas passaram a alvo de chacota devido ao falhanço da aplicação utilizada no voto.

Donald Trump reagiu no Twitter com uma imagem animada a partir de uma capa da Time, na qual paira a ameaça de uma presidência para lá dos limites constitucionais.

Anunciou também que irá fazer um discurso na Casa Branca sobre "a vitória do país sobre a farsa do impeachment".

A horas da votação no Senado, as únicas dúvidas seriam relativas ao voto do antigo candidato à presidência e senador pelo Utah Mitt Romney se juntava aos democratas da câmara para privar Trump de um Partido Republicano unificado, e se três democratas centristas rejeitavam um ou ambos os artigos do impeachment.

A condenação de Romney

Mórmon, Mitt Romney explicou que o sentido de voto está ligado à sua profunda religiosidade. "As alegações são muito graves e fiz um juramento a Deus de que iria fazer um julgamento imparcial. Sou profundamente religioso. A minha fé está no âmago de quem sou. Sabia desde o início que ter como tarefa julgar o presidente e líder do meu partido seria a mais difícil decisão da minha vida. Não estava enganado."

"Sim, ele fez", respondeu a si mesmo pouco depois, ao perguntar retoricamente se o presidente cometeu crimes e delitos graves.

"O presidente pediu a um governo estrangeiro para investigar o seu rival político. O presidente reteve ajuda militar a esse governo para pressioná-lo. O presidente atrasou fundos a um aliado americano em guerra com invasores russos. O seu objetivo era pessoal e político. Em consequência o presidente é terrivelmente culpado do crime de abusar da confiança pública. O que fez não foi perfeito. Não, foi um ataque flagrante aos direitos eleitorais, à segurança nacional e aos valores fundamentais. Corromper uma eleição para se manter no cargo é talvez a violação mais nociva e abusadora do juramento da tomada de posse", argumentou Romney.

Por ter sido o único republicano a votar pela condenação de Trump, Romney recebeu elogios dos democratas. Foi o caso da senadora e candidata à nomeação democrata Elizabeth Warren, que agradeceu "o ato de patriotismo" do republicano.

A votação selou mais um episódio que polarizou ainda mais o Congresso e a política norte-americana. Os democratas apresentaram provas e testemunhos de que Trump reteve ajuda militar da Ucrânia com o objetivo de coagir Kiev a anunciar uma investigação ao ex-vice-presidente e possível adversário nas eleições presidenciais Joe Biden. A Casa Branca respondeu com ordens aos funcionários para não cooperarem nem se apresentarem no Congresso ainda que sob intimação. Os republicanos não viram nesse comportamento nada de errado e uniram-se em torno de Trump.

Além de Romney, três senadores republicanos (Lamar Alexander, do Tennessee, Susan Collins, do Maine e Lisa Murkowski, do Alasca) reconheceram que a Câmara dos Representantes tinha provado em grande medida o caso e que as ações de Trump estavam erradas, mas concluíram que as acusações não mereciam as consequências da condenação por dois terços dos senadores, que seria a destituição do presidente do cargo.

O voto de absolvição ocorreu dias depois de uma última e falhada iniciativa liderada pelos democratas para intimar mais testemunhas e documentos. Romney e Collins foram os únicos republicanos a juntarem-se aos democratas. Quando essa votação falhou na sexta-feira, o resultado estava traçado.

Horas antes da votação, o líder da minoria da Câmara, Kevin McCarthy afirmou: "Hoje, o presidente será absolvido para toda a vida." Uma declaração em sentido oposto ao comentário feito no início deste mês pela presidente da Câmara Nancy Pelosi, que disse que Trump tinha sido "destituído para a vida".

Horas antes, Pelosi foi a grande protagonista do discurso anual do presidente sobre o estado da União. Em resposta a ter ficado de mão no ar -- Trump entrou na Câmara e não cumprimentou a presidente daquele órgão --, no final dos 78 minutos de oratória, a eleita pela Califórnia rasgou a cópia do discurso.

O discurso anual de Trump perante o Congresso foi um desfiar de alegadas realizações, em especial na política económica e do nacionalismo do conceito de America first, os EUA primeiro.

Discurso de campanha

Para Trump a desregulamentação e os cortes fiscais às empresas foram responsáveis pelo sucesso económico "inigualável". Deu como exemplos de sucesso o acordo comercial com o México e Canadá e um acordo comercial (preliminar) com a China.

Elogiou os gastos militares e de segurança, quer para deter a imigração ilegal -- e anunciou mais 800 quilómetros de construção de muro com o México -- quer para concretizar o fim "das guerras dos Estados Unidos no Médio Oriente".

Apesar de ter prometido um discurso positivo, Trump voltou a atacar as políticas do antecessor, o democrata Barack Obama, tendo declarou que foi graças à sua administração que o país deu a volta à "decadência económica" e "restaurado" o orgulho americano. "Os dias daqueles que usavam o nosso país, aproveitavam-se dele, estando até desacreditado junto de outras nações, ficaram para trás." E prosseguiu: "Os inimigos da América estão em fuga, a fortuna da América está em ascensão e o futuro da América está a brilhar."

Além do mais, o discurso não resistiu à verificação de factos. De acordo com o Washington Post, são 31 as alegações que não correspondem à verdade. Ou, dito de outra forma, uma mentira em cada dois minutos e meio, como demonstra o Now This.

Se Donald Trump vai usar a absolvição do Senado para declarar o fim à "caça às bruxas" e declarar-se inocente -- apesar de ter ficado provado o oposto na Câmara --, e se usou o discurso do estado da União como rampa de lançamento da campanha eleitoral, não poderá deixar de aproveitar ao máximo a débâcle das primárias democratas no Iowa. A votação decorreu na segunda-feira, mas dois dias depois os resultados finais não foram divulgados devido a uma falha na aplicação que deveria transmitir os resultados à direção do Partido Democrata.

Dividendos do caos democrata

Donald Trump não desperdiçou a ocasião para tirar dividendos políticos, ao citar um comentador da Fox News: "Os democratas querem dirigir um país mas não conseguem dirigir um caucus."

Além do mais, nas primárias republicanas realizadas no mesmo estado, o presidente venceu com uma percentagem similar à de regimes pouco democráticos: 97,1%. Trump elegeu 39 dos 40 delegados, tendo um sido eleito pelo candidato Bill Weld, que teve 1,3% dos votos. O terceiro, Joe Walsh, recolheu 1,1% e muitos assobios, segundo o próprio.

Walsh contou no Twitter que foi vaiado e insultado por 3000 pessoas quando disse que os EUA precisavam de um presidente que não mentisse e que "não fosse indecente e cruel".

Antes de ter afirmado que não tem lugar no Partido Republicano, porque este se transformou num "culto", o candidato disse sobre os apoiantes de Trump: "Eles não se importam que Trump minta, não se importam que ele seja cruel, não se importam que engane para ser reeleito, não se importam que ataque a imprensa livre, não se importam que aumente a dívida, não se importam que as suas tarifas tenham matado os agricultores do Iowa, não se importam que Trump abuse da Constituição e aja como um ditador."

Do lado republicano, Trump tem a passadeira estendida. Falta chegar aos eleitores, mas os dados jogam a favor: a popularidade atingiu o máximo de três anos, com 49% de aprovação.

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