Há 20 anos que Harry Potter enfeitiça os portugueses

Na quinta-feira celebra-se a já tradicional Noite dos Livros de Harry Potter, com eventos e o lançamento de uma edição comemorativa de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Antes de a escritora J.K. Rowling inventar uma bola com asas que Harry Potter e os amigos usam para jogar quidditch, já os grandes mágicos tinham inventado a bola voadora. "Foi Okito, o mágico japonês, que há mais de 50 anos mais desenvolveu esse número", conta o mágico português João Miranda. Da mesma forma, também aquele truque de atravessar paredes, que Potter usa para chegar à Plataforma 9 3/4 e apanhar o comboio para Hogwarts, já era um dos números mais populares do mágico britânico Paul Daniels no anos de 1970.

"Da mesma forma que nos podemos inspirar na magia de Harry Potter para criar novos números, também é verdade que os livros vão buscar a sua inspiração àquilo que os mágicos têm vindo a fazer", explica João Miranda, de 32 anos, que é um dos maiores especialistas em magia em Portugal e que neste momento tem uma empresa onde trabalham seis pessoas desenvolvendo truques para alguns dos maiores mágicos do mundo, como David Copperfield ou Luís de Matos.

João só leu um livro de Harry Potter mas em miúdo viu "os filmes todos" e admite que o seu desejo de ser mágico tenha sido, em parte, incentivado pelas aventuras daquele grupo de jovens feiticeiros: "As coisas que eles fazem são impossíveis. Nos livros e nos filmes a magia é apresentada como algo verdadeiro, não são truques de magia. E o que nós pretendemos, quando apresentamos um número, é que, nem que seja por momentos, aquilo seja verdadeira magia. Que as pessoas se esqueçam que estão a ver um truque. Como quando vamos ao cinema e nos esquecemos que estamos a ver um filme e nos emocionamos ou sofremos verdadeiramente com o que vemos. Se o mágico for bom, a verdadeira magia acontece."

O primeiro livro da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, foi lançado em junho de 1997, com uma tiragem de apenas 500 exemplares. Mas logo se tornou um sucesso. A primeira edição portuguesa, pela Presença, chegou às livrarias a 14 de outubro de 1999. Para celebrar este 20.º aniversário, a editora vai lançar nesta semana uma edição especial com ilustrações originais de Levi Pinfold alusivas às quatro equipas de Hogwarts: Gryffindor (com a capa em vermelho), Hufflepuff (com a capa amarela), Ravenclaw (capa azul) e Slytherin (capa verde). A ideia é que cada leitor escolha a equipa a que quer pertencer.

Na verdade, não se trata de uma escolha, explica Denise Martins: "Eu sou Ravenclaw", diz esta fã do universo de Harry Potter e companhia. Depois de terem surgido muitos testes na internet, em 2016 o sitePottermore disponibilizou finalmente o teste oficial, aprovado por J.K. Rowling. Foi esse teste que Denise fez, antes mesmo de ter lido os livros todos, e que lhe permite dizer que é "80% Ravenclaw", uma equipa (ou casa) que, explica, se caracteriza "pelo amor ao conhecimento, não necessariamente pelo estudo mas pela vontade de aprender, de descobrir". "Também somos criativos e gostamos de ser diferentes, de sermos nós próprios. Somos um bocadinho individualistas", acrescenta.

"O que é mais fascinante nos livros e nos filmes de Harry Potter é a forma como a autora conseguiu construir um mundo bastante detalhado e coerente, nada foi deixado ao acaso", conta Denise, de 27 anos, que para além de Potter é também fã dos Monstros Fantásticos e de todo o universo criado por J.K. Rowling. "Depois de lermos estes livros tornamo-nos muito mais exigentes e quando lemos outros livros de fantasia já não ficamos satisfeitos."

Denise é uma das participantes assíduas dos eventos promovidos pelo clube de fãs de Harry Potter e que gosta especialmente de participar em jogos de quidditch: "A primeira vez que fui não fazia ideia como é que se podia jogar. Não temos de ter uma vassoura completa, basta um cabo, e há regras bem definidas", conta Denise. São sete jogadores de cada equipa em campo e a bola não tem asas e não voa, na maior parte das vezes é uma vulgar bola de ténis. "Mas é muito divertido", garante.

Neste momento, o clube oficial de fãs de Harry Potter já não se chama assim. Desde dezembro de 2017, passou a chamar-se Instituto de Magia Português e a ideia, explica Ana Mateus, uma das suas administradoras, é que vá para além de Potter e possa abarcar todo o universo fantástico criado por J.K. Rowling e não só.

Ana tem 26 anos e é fã de Harry Potter desde os 8: "A minha mãe comprou-me o DVD do primeiro filme e a partir daí eu fui ver todos os filmes seguintes ao cinema e depois também li os livros todos", recorda. Em 2014, entrou para o clube de fãs e aí, falando com outros fãs e participando em vários eventos, passou para um outro patamar de pottermania: "É um fanatismo saudável. Conversamos sobre os livros e cada pessoa tem a sua interpretação e traz a sua visão. E começamos a perceber que existem coisas para além do que é mostrado nos filmes. Os livros são muito mais completos, mostram o outro lado das personagens, nos livros o Harry não é assim tão santinho", explica.

"Quando deixou de haver livros e filmes novos foi uma tristeza enorme", recorda Ana. "Estávamos habituados a esperar pelo próximo e de repente já não havia mais nenhum." O clube tornou-se tão importante na sua vida que Ana até conseguiu fazer que a mãe, Rosário Bonito, de 54 anos, começasse a participar nas atividades: "A minha mãe nem sequer gostava de filmes fantásticos mas acabou por se render", conta, rindo. Rosário confirma: "Os livros de Harry Potter têm muitas lições para a nossa vida, é preciso ver para além das aventuras." Só que enquanto Ana elege como seu preferido O Príncipe Misterioso, "porque é o livro onde ficamos a saber muitas das coisas que aconteceram no passado das personagens, muitos mistérios são explicados", Rosário confessa que é particularmente fã de A Câmara dos Segredos: "Adoro a personagem da Murta Queixosa", justifica.

A página do Instituto de Magia Português tem quase cinco mil seguidores e organiza eventos de dois em dois meses. "Harry Potter não é só para crianças. Temos fãs de 5 anos e temos fãs de 50 anos, temos pessoas de todas as idades, pais e filhos que já vêm juntos", garante Ana. Há aulas de magia e de história de magia, há campeonatos de quidditch, há vários quizz, há sempre uma festa de Halloween e uma gala de natal e, depois, há outros eventos, como aqueles que vão acontecer nesta semana no âmbito da Noite dos Livros de Harry Potter, um evento internacional que se realiza desde 2014. O tema deste ano é a escola de Hogwarts.

Quem sabe, numa dessas aulas de magia, os aprendizes de feiticeiros aprendam a usar a varinha. João Miranda explica que foi Alexander Hermann o mágico que tornou popular a varinha, que ele usava para fazer saltar um coelho da cartola: "Hoje em dia, caiu em desuso. Nos livros de Harry Potter é um utensílio que é justificado pelo facto de estas personagens não terem poderes mágicos. Só através da varinha é que conseguem fazer magia." Por exemplo, quando Harry Potter quer atacar um inimigo, aponta a varinha e diz, determinado, um dos seus feitiços mais populares: "Expelliarmus!"

Agenda:

Quinta-feira, 7 de fevereiro, a partir das 19.30 na Fnac Colombo, Lisboa: jogos e quizz sobre o mundo de Harry Potter. No final, o "chapéu selecionador" vai decidir a que casa cada feiticeiro pertence.

Sexta-feira, 8 de fevereiro, das 19.00 às 22.00 na Biblioteca José Saramago, Feijó, Almada: a biblioteca vai estar transformada em Hogwarts e haverá máscaras e jogos relacionados com os livros de Harry Potter.

Sábado, 9 de fevereiro, 20.30 na Altice Arena, Lisboa: Cineconcerto Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaba n. A Orquestra Filarmonia das Beiras e um coro de 48 elementos interpreta a música composta por John Williams enquanto o filme é projetado.

Domingo, 10 de fevereiro, a partir das 15.00 no NorteShopping, em Vila Nova de Gaia: aulas de herbologia, poções e monstros e ainda quizz, com a presença já habitual do "chapéu selecionador".

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