Mini-ensaio sobre a cegueira do ego

Nas leituras habituais de fim de semana percorria, como sempre, os conteúdos da Harvard Business Review (HBR). Um título despertou a minha atenção: "O ego é o inimigo da boa liderança". O ego inchado que surge com o êxito - seja ele uma promoção, um salário mais gordo, um gabinete melhor ou almoços luxuosos e regados - muitas vezes faz com que os dirigentes sintam (erradamente) que encontraram uma espécie de poção eterna para ser um líder. Mas tudo isso não passa de uma grande ilusão. A realidade não é essa, ainda que muitos egocêntricos vivam nesse mundo paralelo.

Cuidado, um ego inflamado não traz consigo só a ilusão da eternidade do poder. A egomania pode tornar os líderes suscetíveis de manipulação, reduz o campo de visão de quem está aos comandos e, tantas vezes, adultera atitudes e comportamentos, fazendo com que os egocêntricos passem a agir contra os seus próprios valores.

Agora que se aproxima o final de mais um ano, é tempo propício para balanços nas empresas e nas lideranças. É ainda altura para começar a pensar nos desígnios para o Ano Novo. Na lista dos desejos, os dirigentes que se admiram a si mesmos de forma extragenerosa deveriam incluir a vontade de se libertarem de um ego excessivamente alimentado para que possam evitar trabalhar e viver só dentro das paredes da sua própria bolha de governação. Só este desejo já corresponde às 12 passas de uva para comer quando tocarem as badaladas à meia-noite de 31 de dezembro! Como escrevem os especialistas nestes assuntos, Rasmus Hougaard e Jacqueline Carter, na HBR, "é um trabalho desafiador que requer abnegação, reflexão e coragem".

O mesmo artigo alerta: "Quando se acredita que se é o único arquiteto do sucesso, tende-se a ser mais rude, egoísta e propenso a estar sempre a interromper os outros." Características que sobressaem quando se enfrentam contratempos e críticas. Depois da pandemia, muitos desejaram tornar-se melhores pessoas. Talvez os efeitos pós-crise pandémica, que se juntaram à pressão da guerra, sejam os verdadeiros culpados de tantas boas intenções não surtirem efeitos... Mas já basta a macroeconomia a trocar as voltas aos planos de negócios e aos orçamentos; que os líderes empresariais, políticos e os nossos governantes não deixem que o ego tome conta de si, da forma como comunicam e como tomam decisões. Até porque, sublinha a HBR, o narcisismo impede de aprender com os erros, faz perder a perspetiva e a ligação às pessoas da equipa, que são o verdadeiro suporte do sucesso.

Diretora do Diário de Notícias

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