Saúde mental. "O outro estado de emergência, aqui, na nossa cabeça "

COVID-19

Saúde mental. "O outro estado de emergência, aqui, na nossa cabeça "

Ao fim de 15 dias de confinamento devido à pandemia de covid-19, os efeitos do afastamento social que atinge uma parte considerável da população começam a fazer-se sentir. Que consequências poderão estas medidas trazer em termos de saúde, mental e não só?

A mulher, cabelo mal apanhado e roupão, aparece na cozinha. Olha-nos, em total enfado. Suspira. Começa a bater palmas, agarra numa caneca e bate ritmadamente com ela sobre o balcão, cantando: "Eu tou farta de tar em casa, tou farta de tar em casa, tou farta de tar em casa." Para, continua a olhar sem expressão, puxa de uma garrafa de vinho, deita-o na caneca, fita-nos de novo e sai do plano, levando a bebida.

O vídeo, da autoria de Mariana Cabral, conhecida como Bumba na Fofinha, vlogger e humorista portuguesa, apareceu na primeira semana do estado de emergência. A 29 de março, postou outro, denominado "estado de emergência mental", no qual, ao longo de mais de 18 minutos, discorre sobre os efeitos psicológicos e emocionais do confinamento obrigatório. "Estou com a capacidade de concentração de um pano amarelo da loiça"; "Vai ficar tudo bem, reprime lá para dentro, reprime lá para dentro"; "Já que estamos todos bem, precisamos de falar desse outro estado de emergência, que é aqui, na nossa cabeça"; "Ninguém vai ficar louco com isto, mas é possível que venha a acicatar distúrbios preexistentes".

"É normal estarmos na merda, é normal estarmos em baixo, é normal estarmos desmotivados, é normal estarmos à beira de um ataque de nervos. Não fomos feitos para isto, malta. Portanto o primeiro passo é aceitar que estamos a dar o nosso melhor."

Prossegue, elencando os sintomas mais comuns. Começa com a inércia. "Vão por mim: achava que por esta altura já teria feito imensas coisas. Mas não. Eu estou em casa mas o meu cérebro ficou lá fora. Há um vazio na mente, sempre." Depois vêm as insónias e como combatê-las (Bumba aconselha vinho tinto), a rotina - "especialistas do mundo inteiro dizem que o importante é tirar o pijama e manter a rotina" -, e discorda: "Concordo que é muito importante mas o que está a faltar é algum reconhecimento nacional deste feito heroico e diário que levamos a cabo por mares nunca dantes navegados. Proponho a criação de um movimento nacional - Hoje Tirei o Pijama." Quando o vídeo está a chegar ao fim, diz: "Se chegaram até aqui, malta, só quero que levem uma coisa deste vídeo, que é - é normal estarmos na merda, é normal estarmos em baixo, é normal estarmos desmotivados, é normal estarmos à beira de um ataque de nervos. Não temos controlo absolutamente nenhum sobre o futuro. Não fomos feitos para isto, malta. Portanto, o primeiro passo é aceitar que estamos a dar o nosso melhor."

A seguir, as coisas sérias: aconselha a que as pessoas peçam ajuda a amigos e familiares se se sentirem aflitas e, se for caso disso, a profissionais.

"As redes sociais têm sido um salva-vidas"

Não existe até agora uma estimativa sobre qual a dimensão do recurso à ajuda de psicólogos e psiquiatras - e já lá vamos, a essa ajuda. Mas em relação à outra, e à tentativa de combater o isolamento social com as ferramentas existentes, pode testemunhar o aumento de uso de aplicações que permitem o contacto visual em grupo, como as apps Zoom e Houseparty. Esta última teve um pico de descarregamento em Portugal, da primeira semana de março para a segunda, de 110 vezes para 42 mil, e na terceira passou para 91 mil.

"A internet tem sido considerada um fator de afastamento das pessoas mas aqui está a ser muito importante", diz a psiquiatra Ana Matos Pires, coordenadora regional de saúde mental do Alentejo e assessora do programa para a saúde mental da Direção-Geral da Saúde. "Estava toda a gente tão preocupada com as redes sociais e têm sido um salva-vidas. As pessoas devem usar e abusar dos FaceTimes [chamadas com imagem, à letra "tempo de cara"] todos."

"Os idosos são vítimas duplas ou triplas desta situação. São as maiores vítimas do próprio vírus e por outro lado estão obrigados a um isolamento físico da família e amigos, e não têm destreza com as novas tecnologias."

Ver as caras dos amigos e familiares em tempo real é uma forma de tentar compensar a falta de contacto físico. Mas, se 91 mil descarregamentos para a Houseparty parecem muitos, são mesmo assim poucos atendendo ao universo das pessoas que em Portugal estarão fechadas em casa a sós consigo - e que, de acordo com os últimos números do INE, serão cerca de um milhão, mais de metade das quais acima dos 65 anos.

Os idosos são vítimas duplas ou triplas desta situação, frisa Matos Pires. "São as maiores vítimas do próprio vírus e, por outro lado, estão obrigados a um isolamento físico da família e dos amigos, e não têm destreza com as novas tecnologias." Essa tripla vitimização será um dos fatores explicativos da resistência das pessoas mais velhas a ficar fechadas em casa. É compreensível que queiram resistir à ameaça da depressão e da tristeza, reconhece a psiquiatra, e que, perante a noção de que não terão muito mais tempo de vida, não queiram passá-lo em isolamento, entre quatro paredes. "Mas essa resistência sucede também porque é muito mais difícil explicar-lhes as coisas e têm mais dificuldade em quebrar as rotinas."

Comparativamente, a encenação caricatural de Bumba na Fofinha da jovem de roupão que se enfada no trajeto diário da sala para a cozinha, vê séries em loop enquanto emborca batatas fritas e se enfrasca para desopilar surge como risível? Sim e não, acha Ana Matos Pires. "Esta situação é semelhante a uma prisão domiciliária. Porque há uma obrigatoriedade, para quem vive só, de estar só, e para os outros de estar 24 horas sobre 24 juntos. E isso pode trazer consequências. Pode implicar picos de ansiedade e angústia, aumento de consumos problemáticos como o de álcool - porque no início tem efeito ansiolítico - e outros problemas."

Uma "experiência social única"

Claro, nota a psiquiatra, que isolamento e solidão não são a mesma coisa: "A Organização Mundial da Saúde no início da pandemia lembrou que isolamento físico não é sinónimo de isolamento social."

Não é. Mas ao fim de 15 ou 20 dias sem a possibilidade de tocar alguém, de dar um abraço, a coisa começa a moer; não é que não se possa ver gente quando se vai às compras ou fazer exercício, que não dê para falar com alguém presencialmente - há quem use a janela para conversar com os vizinhos, vá visitar avós e pais de longe, quem combine passeios com amigos com distância regulamentar -, ao telefone ou através das citadas apps de comunicação visual; não é que não haja Facebook e Twitter e Instagram e WhatsApp para a comunicação digital com conhecidos e desconhecidos. É mesmo porque não dá para sentir a pele e o calor de alguém.

Os efeitos desta "experiência social única", como a qualifica o também psiquiatra Pedro Morgado, que com Ana Matos Pires e outros profissionais de saúde criou o blogue Saúde Mental em Tempos de Pandemia, serão decerto analisados com profundidade nos próximos anos. Estão aliás já a decorrer alguns, como o que está a ser desenvolvido pela sua equipa na Universidade do Minho, onde é professor na escola de Medicina: "Estamos a monitorizar semanalmente a saúde mental através de inquérito."

Ainda é cedo para divulgar resultados sobre saúde mental relativos à pandemia, mas como referência existem as experiências muito mais radicais dos reclusos mantidos em solitária, das vítimas de sequestro e dos astronautas. Um caso paradigmático é o de Robert King, um americano que passou 29 anos na solitária e que em 2018 falou dos efeitos disso numa conferência de neurociência. Depois da sua libertação, contou King, tinha dificuldade em reconhecer rostos e teve de se "retreinar" para compreender o que são caras e como funcionam. Tinha dificuldade também de se orientar nas ruas. O motivo, explicam os neurocientistas, prende-se com o facto de que o isolamento social muda o cérebro. Não só o hipocampo, responsável pela aprendizagem e memória, "encolhe" como perde a sua plasticidade, e pode mesmo "fechar". Em compensação, a amígdala, que comanda as reações de medo e de ansiedade, ganha relevo. Quanto mais tempo durar o confinamento, mais pronunciadas - e eventualmente sem regresso - são estas alterações.

"A solidão é um fertilizante de outras doenças"

De resto, existe já bastante evidência científica dos efeitos da solidão e do isolamento na saúde geral, demonstrando como a fronteira entre saúde mental e a "outra" é uma quimera. A literatura científica relaciona estas situações com maior risco para uma variedade de problemas mentais e físicos, de hipertensão, doenças do coração, obesidade e enfraquecimento do sistema imunitário a ansiedade, depressão, declínio cognitivo, Alzheimer e até morte - e isto em todas as idades.

De acordo com o psiquiatra Steve Cole, da Universidade da Califórnia, citado pelo Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA, alguém que sente "solidão crónica" desenvolve desconfiança em relação aos outros e sente-os como uma ameaça. A solidão e o isolamento podem alterar a tendência das células do sistema imunitário para produzir inflamação. Esta é necessária para responder a agressões mas quando dura tempo de mais aumenta o risco de doenças crónicas.

"A biologia da solidão pode acelerar o depósito de gordura nas artérias, ajudar as células do cancro a crescer e a espalhar-se, e causar inflamação no cérebro que leva ao Alzheimer. É responsável por vários tipos de desgaste e de anomalias."

"A solidão é um fertilizante de outras doenças. A biologia da solidão pode acelerar o depósito de gordura nas artérias, ajudar as células do cancro a crescer e a espalhar-se, e causar inflamação no cérebro que leva ao Alzheimer. É responsável por vários tipos de desgaste e de anomalias", diz Cole. Ironicamente - tendo em conta o momento -, o sentimento de solidão, aponta também Cole, e o isolamento podem igualmente prejudicar a capacidade do organismo em combater os vírus.

Um estudo da American Cancer Society (Sociedade Americana sobre Cancro), de 2019, com base nos dados relativos a 580 mil americanos chegou à conclusão, segundo uma das responsáveis, Kassandra Alcaraz, de que o isolamento social aumenta o risco de morte por todas as causas em todos os grupos: "A conclusão é de que a magnitude do risco relacionado com o isolamento social é muito similar à de fatores como a obesidade, tabaco, não acesso a cuidados e falta de exercício físico."

"O consumo excessivo de notícias pode criar ansiedade"

Para obviar aos riscos nesta circunstância específica, é importante, prescreve Ana Matos Pires, seguir as recomendações que têm sido repetidas e de que o vídeo citado de Bumba na Fofinha se faz em parte eco: "Manter as rotinas, acordar a horas certas, tomar pequeno-almoço a horas certas, mimetizar dentro de casa as rotinas que se faziam fora, etc." E despir o pijama, não esquecer.

Pedro Morgado prossegue: "Abrir as janelas, ter atividade física regular, toda a que for possível, manter hábitos alimentares saudáveis, ingerindo vegetais, cozinhar..." Ri. "Há muita gente aparentemente a cozinhar imenso, a fazer pão, bolos, o que pode causar algum aumento de peso, tem esse problema, mas é bom haver essa atividade."

Dosear as notícias é outro conselho: "Faço parte do Colégio Internacional da Doença Obsessivo-Compulsiva e recomendamos que as pessoas se atualizem apenas no início e no fim do dia, porque o consumo excessivo de notícias e sobretudo de boatos pode criar ansiedade. Deve haver horas específicas para as notícias."

E, como não há uma obrigação estrita de ficar em casa, vê o sair para ir às compras como "higiénico". Aparentemente, muita gente está seguir essa prescrição - talvez até demais, como demonstra o primeiro relatório da investigação conjunta do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência da mesma universidade, com o apoio do jornal Público, intitulada Diários de Uma Pandemia.

Efetuado a partir de questionários online (e, como tal, excluindo à partida infoexcluídos), este estudo, cujo primeiro sumário executivo foi disponibilizado nesta quinta-feira, baseia-se nas respostas de 6791 pessoas que se inscreveram para participar entre 23 e 30 de março. E apurou que, a cada dia, mais de cem mil inquiridos trabalharam fora de casa, continuando a haver uma parte razoável de pessoas com contactos pessoais e a visitar amigos ou familiares.

Se as pessoas de idade mais avançada referem menos desses contactos pessoais, são recordistas nas deslocações a supermercados e outros estabelecimentos comerciais, bem como deslocações por motivos não comerciais - caminhar, passear o cão, etc. Será a tal dificuldade dos idosos em abandonar rotinas de que fala Ana Matos Pires, e também a resistência à prisão entre quatro paredes.

"Saber nomear isto como luto"

Paradoxalmente, nestas circunstâncias o hábito do isolamento social pode ser nesta altura um fator de proteção. Ana Matos Pires crê que será o caso do Alentejo, que parece ter sido até agora mais poupado no contágio. "Tem que ver com o fator demográfico - menos gente e menos densidade populacional -, mas também porque os idosos tendem a estar mais isolados."

Pedro Morgado corrobora: "As pessoas que vivem sozinhas têm uma vantagem, é de que já estão habituadas, e uma desvantagem, porque estando privadas dos contactos têm mais risco de sofrer consequências." Quanto aos idosos, prevê que "nas sociedades do sul da Europa o isolamento pode ter consequências muito mais expressivas do que na Europa do norte, onde não é tão comum a relação próxima dos avós com os netos".

Para além do isolamento existe outro fator de peso, o do sentimento de viver um luto "global", "antecipatório". É a análise de David Kessler, um dos especialistas mundiais em luto, coautor, com Elisabeth Kübler-Ross, de On Grief and Grieving: Finding the Meaning of Grief through the Five Stages of Loss (Sobre a dor e o luto: encontrar o sentido do luto através dos cinco estádios da perda), em entrevista à Harvard Business Review intitulada "Esse desconforto que sente é luto".

"Sentimo-lo agora em relação ao futuro. A nossa mente primitiva sabe que algo de mau se passa, mas é invisível, o que quebra a nossa sensação de segurança, e esta perda nunca ocorreu desta forma a nível coletivo." Para lidar com isto, Kessler aconselha o mesmo que em relação a qualquer outra dor: aceitação. "É na aceitação que reside o poder, a capacidade de tomar o controlo da situação. Eu consigo lavar as minhas mãos. Eu consigo manter uma distância segura. Eu consigo aprender a trabalhar remotamente. (...) Devemos focar-nos no que está sob o nosso controlo e libertar-nos do que não conseguimos controlar."

Da aceitação deve advir a capacidade de encontrar significado, sentido, que Kessler considera a última fase do luto, e que neste caso passa pela partilha de um sentimento comum, que une. "Há algo de poderoso em saber nomear isto como luto. Ajuda-nos a sentir o que está em nós (...) É importante que reconheçamos aquilo por que passamos."

"Há um sentido de comunidade nisto"

Há de facto, concorda Pedro Morgado, "um sentido de comunidade nisto, que passa também pela noção de que a maioria de nós aceita esta reclusão. Embora seja inequívoco que o contacto físico é fundamental, o facto de haver forma de compensar através de várias vias levará a que as pessoas consigam lidar com isto. Temos muitas formas de comunicar e de nos manter ligados e o ser humano tem uma extraordinária capacidade de adaptação. Acho que vamos conseguir ultrapassar esta situação".

O que não implica que não existam grandes preocupações no campo da saúde mental. Ana Matos Pires aponta para as perturbações típicas de momentos de crise, como "a ansiedade e as reações depressivas, assim como o aparecimento de sintomatologia psiquiátrica nos profissionais de saúde". No imediato, conclui, "prevemos o aumento das perturbações ansiosas e depressivas, e, especificamente nos profissionais de saúde, os burnouts".

Está também muito preocupada com a possibilidade de aumento de taxas de suicídio. É, por tudo isto, sublinha, "importante dizer que os serviços locais de saúde mental - por despacho que saiu a seguir aos incêndios de 2017 e que prevê resposta de saúde mental em caso de acidente ou catástrofe - têm de dar uma resposta em crise. Porque as pessoas estão muito mais suscetíveis e se coloca a possibilidade quer do agravamento de situações preexistentes quer de aparecimento de perturbações novas".

"Esta pandemia vai mudar a forma como nos vamos relacionar nos próximos tempos. Somos uma sociedade que se toca muito. Acho que durante um período de tempo vamos continuar a ter mais distanciamento social."

Mas, ajunta Pedro Morgado, "apesar de os serviços de saúde estarem a dar saída às situações urgentes, não há resposta às situações não urgentes. E isso é um problema".

Como será um problema a deterioração das condições sociais, que, crê este especialista, terá consequências na saúde mental. Ana Matos Pires considera aliás que a situação poderá agravar-se: "Há o momento atual de adaptação a uma situação que nenhum de nós conhece e um segundo momento, daqui a três ou quatro meses, com as consequências disto tudo, nomeadamente socioeconómicas." Aliás, já está a deparar-se, na cidade de Beja, com o desespero de pequenos comerciantes. "Aflige-os imenso não terem dinheiro para fazer face às responsabilidades que têm, aos pagamentos de salários e de empréstimos, de rendas."

Com a agravante de que aí haverá uma parte da população que estará a regressar à normalidade e se quebrará o sentido de uma experiência coletiva, global, que de alguma forma cria algum conforto. O luto será só para alguns nessa altura. Mesmo se Pedro Morgado pensa que "esta pandemia vai mudar a forma como nos vamos relacionar nos próximos tempos. Somos uma sociedade que se toca muito. Acho que durante um período de tempo vamos continuar a ter mais distanciamento social".

Essa alteração é já observável em quem nas redes sociais diz que olha para filmes e séries em que as pessoas passam a vida a tocar umas nas outras com a mesma estranheza com que hoje vemos locutores e outros participantes em emissões televisivas dos anos 1970 a fumar. Será que fica para sempre?

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