Exclusivo Negro, uma presença silenciosa

É tempo de os negros de Portugal saírem do silêncio a que têm sido votados ao longo de séculos - séculos de orgulho e preconceito.

Ao contrário do que muitos julgam, Al Jolson não foi o primeiro branco a pintar-se de preto para fazer de negro. Desde 1830 - ou seja, muito antes do sonoro The Jazz Singer -, as companhias teatrais itinerantes da América tinham por hábito usar cortiça queimada ou carvão para tisnar a pele dos actores nas representações de episódios da escravatura. A prática prolongou-se no século XX, com Al Jolson mas não só: Fred Astaire, Mickey Rooney, Judy Garland, todos sofreram na tela uma imersão de negrume.

Também entre nós, por bandas de 1875, o actor Nunes, vindo dos Açores, actuava em espectáculos populares na Feira de Belém todo pintado de preto, com uma malha justa colada ao corpo, caracterizado de selvagem africano nu, cantando o tango O Africano, que dizia: "Nasci em Loanda / Bento me chamo / Como azeviche / Preto nasci." Sucede que o actor Nunes, ao que consta, era pessoa de pouco aprumo (e, pelos vistos, nenhum banho), homem de tal forma desleixado que se deitava na cama sem mudar de trajo, e adormecia envolto na sua malha de negro. A malha, claro, começou a abrir buracos e o Nunes, por preguiça, ia pintando com tinta preta as marcas de pele branca que emergiam aqui e acolá. O espectáculo foi um sucesso, permanecendo em cena dois meses. No final, quando o Nunes tirou as ceroulas e a camisola, tinha o corpo todo pintalgado de preto. "Parecia um tigre!", clamou o dramaturgo Sousa Bastos.

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